Memórias do porão

Hamilton Pereira, poeta conhecido como Pedro Tierra, conta como foi sua vida durante o regime militar e dá detalhes da lista de torturadores publicada na imprensa alternativa

Alice Melo

  • Em entrevista à Revista de História, o poeta e Secretário de Cultura do Distrito Federal, Hamilton Pereira, lembra os tempos em que passou sob tortura durante o regime militar. Ele foi um dos autores de uma lista de torturadores, publicada pelo jornal “Em Tempo”, em 1978.

    Esta lista, na realidade, havia sido feita em 1975 e publicada clandestinamente pelo “Comitê de Solidariedade aos Revolucionários do Brasil” – documento acessado com exclusividade pela Revista de História da Biblioteca Nacional, em visita ao acervo pessoal de Luiz Carlos Prestes, doado recentemente ao Arquivo Nacional por sua viúva, Maria Prestes. Na edição de janeiro, Vivi Fernandes de Lima conta, em detalhes, informações sobre o material.

     

     

    Revista de História: Como foi a sua vida durante o regime militar?

    Hamilton Pereira: O tempo passa. A vida é curta. Eu, como muitos da minha geração, fomos lançados muito cedo na vida pública. Nasci em 1948 e o Golpe de 1964 me alcança na adolescência, vivendo numa cidadezinha no interior de Goiás, Porto Nacional – que hoje faz parte do Tocantins.

    Em 1969 eu era presidente de uma entidade estudantil de ensino médio, chamada “Casa do estudante norte-goiano”, irrelevante do ponto de vista dos conflitos nacionais. Presidente numa cidade que seguramente mal figurava no mapa. Mas a ditadura sempre aspirou ser totalitária, e a juventude era um dos inimigos do regime.

    Depois do AI-5, a Casa foi fechada. Como eu era presidente, foram me buscar, mas consegui escapar. Então, muito cedo passo a viver numa situação de semi-clandestinidade. Fugi para Curitiba e depois fui militar em São Paulo, fazendo parte da Ação Libertadora Nacional (ALN).

    Mas, em junho de 1972, caí nas mãos do regime, em Brasília. Sofri tortura no 10° Batalhão de Caçadores, em Goiânia. Fui torturado nas dependências da Polícia Federal. Depois, fui removido para Brasília e aqui permaneci sendo interrogado pelo pelotão de investigações criminais e, depois, pelos interrogadores da Operação Bandeirantes. Em outubro de 72, fui levado para São Paulo e pela primeira vez entro nas dependências do DOI-CODI do Exército. Depois de dez dias, fui enviado para o Presídio Tiradentes. Depois, na Oban, fui submetido a interrogatórios intensos. Nessa época, quem comandava era o major Carlos Alberto Brilhante Ustra.

    "Enquanto torturava, ouvia música clássica"

    Quando saí de São Paulo, fui levado para Brasília. Lá, quem realizava os inquéritos era o capitão Sérgio dos Santos Lima, um sádico. Enquanto torturava, ouvia música clássica. Em março de 1973 fui novamente removido para DOI-CODI, do 2º Exército, onde permaneci até outubro - o que foi suficiente para enlouquecer qualquer ser humano.

    A partir daí fui para o presídio do Hipódromo. Ficava no bairro da Moca, em São Paulo. Depois de alguns meses fui removido para o Carandiru. Fiquei ali com companheiros da ALN e outras organizações. Em 1974, fomos surpreendidos com uma remoção. Fomos para a penitenciária que ficava no Carandiru, mas não mantinha regime de cela aberta. Eram 22h de solitária e 2h de sol. Diariamente. Fizemos uma greve de fome para alcançar uma cadeia para os presos políticos. Fomos vitoriosos. Removidos para o Carandiru, casa de detenção. E aguardamos a inauguração de um presídio especifico dos presos políticos de SP.

    Lá eram quatro celas que abrigavam 42 presos políticos, a partir de março de 75. Cumpri o resto da minha pena nesse presídio. Com uma breve passagem pelo DOPS em 76.

    RH: Então a lista de torturadores foi publicada no jornal “Em Tempo” quando você já tinha saído da prisão...

    HP: Quando saiu a lista eu estava em liberdade. Nomeei algumas pessoas: o major, hoje reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, e o Sérgio dos Santos Lima. Sobre esse Sérgio, não sei seu paradeiro, deve estar de pijama em casa como muitos torturadores.

    RH: E como as informações sobre os torturadores foram parar lá?

    HP: Nós, quando estávamos presos, passávamos essas informações ou por meio de familiares ou por meio de advogados e visitantes. Por exemplo, recebemos a visita do professor Sobral Pinto. Ele foi muito importante na defesa dos direitos humanos, era advogado do Luís Carlos Prestes. Visitou a gente e recebeu todos os 42 presos políticos. Foi um momento extremamente valioso. Magnífico o serviço que ele prestou para o país.

    "A direita reagiu com terrorismo, colocando bombas em banca de jornal"

    RH: Mas vocês chegaram a fazer a lista em conjunto?

    HP: Não, não. Era um momento muito particular da esquerda brasileira. Ela era muito dividida, eram pequenas organizações dizimadas pela repressão. Cada organização procurou divulgar as informações a seu modo, com seus meios. Apontando, a partir da experiência de cada militante, retratar os torturadores. Não é que houve um comitê que organizou essas informações dentro das prisões. Elas iam saindo por advogados, familiares, pessoas que solidarizavam.

    Foi muita coragem do jornal “Em tempo” publicar essa lista poucos anos depois de ter sido feita. Ele virou um panfleto acusatório.

    RH: E como foi a reação da sociedade?

    HP: A direita reagiu com terrorismo. Por exemplo, colocaram bombas em banca de jornal, bomba na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Ameaças na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). E a sociedade ainda estava muito assustada. Porque o grande legado da ditadura do país é o legado do medo. O regime militar articulou o seu projeto tendo como base não só o crescimento econômico, mas também o medo, o terror. Fez com que ele permeasse todas as instituições sociais.

    RH: Você ficou conhecido nessa época como Pedro Tierra, não foi?

    HP: Então, eu escrevi durante a prisão alguns livros. Um conjunto significativo de poemas, que se tornaram “Poemas do povo da noite”, assinado com pseudônimo de Pedro Tierra. É uma criação dos anos da ditadura. Esse livro saiu clandestinamente da prisão e se converteu em um volume clandestino, editado pelo Tribunal Russel, na Itália. E depois, mais tarde, os poemas foram traduzidos para outras línguas.

    Trinta anos depois, a editora da Fundação Perseu Abramo e Editora Publisher se juntaram e abriram um selo pelos 30 anos da anistia que abre com uma nova edição desse livro. Ali eu abro com um texto em que situo essas coisas, sob o titulo “Explicação necessária”. Para situar o leitor de hoje para que ele tenha uma ideia do que tenha uma vida dos prisioneiros políticos nessa época.

     

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