Personagem controverso

Pouco antes de reger concerto em homenagem a Wagner, o maestro Isaac Karabtchevsky, da Orquestra Petrobras Sinfônica, fala da importância do compositor para a música clássica

Vivi Fernandes de Lima

  • Isaac Karabtchevsky, maestroA Orquestra Petrobras Sinfônica realizará um concerto em homenagem aos 200 anos de Richard Wagner, no dia 24 de agosto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com participação da soprano alemã Gun-Brit Barkmin. Nesta breve entrevista, o regente da OPS, Isaac Karabtchevsky, fala sobre a importância do compositor para a história da música e seus poréns.

    Revista de História: O que Wagner representa para as orquestras brasileiras?

    Isaac Karabtchevsky: Antes de tudo, Wagner marcou o mundo da música por profundas transformações da linguagem. Seu conceito do cromatismo ampliaria a harmonia a níveis jamais experimentados e determinaria uma mudança de rumo no inconsciente de todos os compositores nascidos entre fins do século XIX e o início do século XX. Já se identificava nesse processo o surgimento da Escola de Viena, formada por Schoenberg, Webern e Berg, que tentaria, com o dodecafonismo, uma alternativa ao jugo wagneriano. Ainda assim, mesmo à procura de opções, ninguém poderia fugir às imensas conquistas harmônicas que transbordavam em obras como Tristão e Isolda e em toda a tetralogia.

    RH: Wagner já foi definido por críticos como um homem plenamente voltado para a obra, para o poder, o mundo e o sucesso. É possível identificar essas características em sua obra?

    IK: Muitos rejeitam Wagner por ele ser associado ao mito da superioridade alemã, ao culto da raça germânica, especialmente os que sofreram na pele a invasão nazista na Segunda Guerra. Wagner, ainda que racista, era um dos maiores gênios criadores da história. Evidentemente, nada justifica sua visão deformada de que apenas um povo, o alemão, seria detentor do poder divino de restabelecer a ordem moral do mundo. Ainda assim, tudo lhe é perdoado quando se conhece a grandeza de sua obra – esta, por seu caráter humanitário, entraria em total contradição com suas ideias discriminatórias.

    RH: Com as celebrações do bicentenário, vem à tona justamente este discurso discriminatório do compositor. É simples separar a obra de Wagner de seu discurso?

    IK: Não nos esqueçamos que dois de seus maiores amigos, Hermann Levi, o primeiro regente a reger Parsifal, e o pianista Joseph Rubinstein, assistente musical de Wagner desde 1872, eram judeus. Minha convicção é que, mesmo imbuído de um profundo sentimento antissemita especialmente na confrontação com Mendelssohn e Meyerbeer [compositores judeus], seus famosos rivais da época, Wagner manifestava o desejo de ver o povo judeu, tão numeroso e influente na Alemanha pré-Hitler, integrar-se à cultura alemã e renunciar à sua religião.

    RH: O senhor já viveu ou presenciou algum conflito ou discussão com relação a este assunto? Se sim, como foi?

    IK: Estudei durante muitos anos na Alemanha, posso dizer que grande parte da minha formação musical aconteceu neste país, depois fui diretor artístico em Viena. Wagner era para mim e meus amigos apenas e tão somente tema de estudos musicais.

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