O infernal inverno do Egito

Pesquisadora não vê fim para os violentos conflitos que começaram após o golpe contra o presidente Mursi, que era apoiado por organização fundamentalista

Ronaldo Pelli

  • Fonte: Al Jazeera English Desde o início de 2011, o Egito vem trafegando como se estivesse em uma montanha-pior-que-a-russa. Ora passa por uma maré de otimismo, após dar fim a um regime ditatorial disfarçado de presidencialismo que durava três décadas, representado na figura de Hosni Mubarak. Ora é sacudido pelo desespero diante do massacre de centenas de egípcios em combates entre opositores e defensores do presidente Mohammed Mursi, eleito democraticamente, mas tirado do posto pelos militares num ato que tem toda a pinta de golpe de Estado, mas que não ousa dizer o seu nome.

    A recente crise que se instaurou no país após a deposição de Mursi é muito grave e não tem previsão de se encerrar, explica Houda Blum Bakour, que estuda a formação da identidade religiosa copta no Egito e na diáspora. Bakour, que acompanha diariamente o desenrolar dos enfrentamentos, enquanto produz sua tese de doutorado em Antropologia na Universidade Federal Fluminense, diz que houve um apoio generalizado da sociedade egípcia à derrubada de Mursi, mas que ninguém, além do exército, se vê, agora, representado.

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    O presidente deposto era sustentado politicamente pela organização Irmandade Muçulmana, que se diz um grupo criado para promover desenvolvimento e progresso baseado nas referências islâmicas. Mas a organização é vista como fundamentalista, se opondo às tradições mais liberais. Por motivos óbvios, é o principal opositor do Exército e também o principal alvo das incursões mais violentas. Ou seja, de um lado ficou o Exército que tira o presidente eleito democraticamente; de outro, um grupo conservador religioso. No meio, o povo, que continua sofrendo com os solavancos e mudanças de rumos literalmente violentas.

     “O Egito, até o golpe contra Mursi, aparentava passar por uma transição mais política com menos conflitos violentos, processo esse que foi abortado pelo recente golpe militar”, diz ela. Confira o restante da entrevista:

    Revista de História:Renúncia do vice-presidente Mohamed El Baradei, massacre de centenas de pessoas e milhares de feridos, presidente decretando estado de emergência: a situação do Egito chegou ao fundo do poço? Mesmo que qualquer previsão seja complicada, você arriscaria um chute sobre os próximos passos dos conflitos?

    Houda Blum Bakour: Pelo fato de não haver nenhuma possibilidade de negociação declarada pelos dois maiores atores envolvidos nos conflitos violentos dos últimos dias, ou seja, pelo exército e pela Irmandade Muçulmana, o país estará mergulhado em conflitos de extrema violência enquanto este cenário permanecer.

    RH:A saída do presidente eleito Mohammed Mursi do governo pode ser considerado a principal razão dessa recente onda de violência, já que dividiu ainda mais o já muito divido Egito? Qual é a participação da Irmandade Muçulmana neste processo? Há elementos menores, que corroeram a coesão do país? Se sim, quais são?

    HBB: Podemos dizer que a  insatisfação de vários setores da sociedade com as ações políticas do governo Mursi culminaram numa espécie de apoio ao golpe promovido pelos militares e que certamente já havia sido decidido e aguardava o momento mais propicio. O embate certamente é entre a Irmandade e o Exército, mas pequenos grupos políticos insatisfeitos com o crescente autoritarismo do governo Mursi e os poderes que a Irmandade se deu acima do próprio poder judiciário, como os liberais e os salafistas [reformistas] engrossaram, digamos assim, o caldo dos setores e grupos insatisfeitos e apoiaram o golpe, mas que neste momento não ocupam nenhum espaço representativo nos recentes conflitos.

    RH:Você acha que, agora, o Egito se descolou das outras revoltas, que foram unidas no rótulo de "Primavera árabe"?

    HBB: A dita Primavera já passou faz tempo e as tempestades de inverno tem assolado praticamente todos os países do mundo árabe que passaram pelo processo de derrubada de suas ditaduras. De qualquer forma, o Egito, até o golpe contra Mursi, aparentava passar por uma transição mais política com menos conflitos violentos, processo esse que foi abortado pelo recente golpe militar.

    RH:E os vizinhos: O que esperar de Israel e Palestina, que ficam ali do lado, neste momento? E a Síria? Será que após a "primavera" veio um longo, insuportável e quentíssimo "inverno" entre os países da região? Ou juntar todos agora num outro rótulo é forçar, novamente, a barra?

    HBB: Israel e Palestina têm seu próprio processo histórico. Sem dúvida a instabilidade da região só faz dar justificativas para Israel manter suas posturas e ações com relação ao Estado Palestino e as negociações infrutíferas de paz. De fato não é possível "juntar todos" no mesmo rótulo, a única semelhança é a instabilidade política que todos os países que passaram por este processo vivem, e o mais grave deles no momento, sem dúvida, é a guerra civil na Síria que sequer "livrou-se" de seu ditador, e que mergulhou num período de violência muito difícil de se estimar seu fim.

     

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