Mídia, multidão e violência

Em visita ao Brasil, a socióloga Mirta Varela, da Universidade de Buenos Aires, comenta a cobertura midiática dos movimentos sociais que tomam as ruas do país e discute a cena política argentina nas últimas décadas

Alice Melo, Alexandre Leitão e Nashla Dahas

  • Imagens de Córdoba durante o movimento de 1969Em passagem pelo Brasil, a socióloga Mirta Varela, da Universidade de Buenos Aires, se julga uma pessoa de sorte. Considera incrível ter chegado ao Rio justamente em um momento “tão interessante”, em que a população vai às ruas para manifestar sua insatisfação com relação aos problemas da cidade e da política. Por acaso, Varela estuda como as diferentes mídias representam a multidão no espaço público. No momento, ela ainda participa de uma pesquisa binacional, em parceria com a Escola de Comunicação da UFRJ, que tem como objeto as manifestações populares da década de 1960, no Brasil e na Argentina.

    Durante a semana passada, a pesquisadora acompanhou as manifestações – pela televisão, nos jornais e até nas ruas da capital fluminense. Caminhou ao lado dos milhares de brasileiros, tanto na segunda-feira, dia 17, quando na quinta, dia 20, instigada pela transmissão “curiosa” feita pela televisão, na semana anterior. Antes, no entanto, de participar dos movimentos, Varela concedeu uma entrevista à Revista de História. Na conversa, ela fala sobre a cena política argentina e também sobre a interpretação das imagens do Cordobazo – movimento ocorrido na cidade de Córdoba, em maio de 1969, que levou às ruas centenas de milhares de pessoas contrárias à ditadura militar e também à situação econômica do país, impulsionadas pelo assassinato de um estudante e operário, pela polícia local. Um protesto calado por uma repressão violenta: ao menos 34 pessoas morreram e 1.000 foram presas.

    As fotografias e os vídeos, feitos por uma imprensa financiada pelas empresas cujo patrimônio estava sendo destruído pelos manifestantes, retratam “bárbaros” e “vândalos”. Uma cena que se assemelha com as imagens dos protestos de 1968 no Brasil, assim como às que vemos hoje, nos meios de comunicação nacionais. Carros incendiados, polícia montada com armas em punho, jovens encapuzados atirando pedras e coquetéis molotov contra o aparato repressor. Mais de 40 anos separam os acontecimentos, mas as imagens de outrora nunca pareceram tão atuais.

    RHBN: No Brasil, vem ocorrendo uma série de manifestações populares que geram consequências que parte da imprensa vem chamando de "vandalismo". Como ocorre a cobertura deste tipo de protesto na Argentina?

    MV: Seria demasiado ousado e imprudente falar sobre o que acontece no Brasil, já que meu olhar é de uma pessoa estrangeira. Mas, a respeito do que ocorre na Argentina se pode considerar que haja a criminalização recorrente dos movimentos sociais pela mídia. É importante considerar que as manifestações populares no espaço público são uma prática muito comum na Argentina, faz parte de nossa tradição cultural se reunir nas ruas para manifestar sua opinião. As manifestações contra a ditadura são as mais conhecidas, mas houve também, naquele período, inúmeras mobilizações a favor do governo autoritário, como as organizadas por famílias de militares, de pessoas lidadas à direita. A criminalização dos movimento sociais, dentro deste contexto, é uma prática típica dos meios de comunicação, algo que acontece facilmente. Uma construção retórica que se repete ao longo da história.

    No caso da Argentina, não temos apenas um conglomerado de comunicação, responsável pela maioria das informações transmitidas. Os meios não se comportam da mesma maneira, tanto diante de protestos, quanto diante de celebrações populares. Há uma polarização muito grande da mídia, tanto pelo lado mais conservador, governista, quanto pelo lado de oposição. Vejamos o caso da eleição de Bergoglio como papa. As concentrações que tomaram as praças não foram de protesto, mas sim de celebração. Neste sentido, há várias questões. Concentrações brutais, se manifestando completamente pelos motivos contrários. Recentemente, tudo isso está ativado. Houve, por exemplo, a expressão de distintos setores em concentração muito numerosa, a favor do governo, em uma data patriótica, devido aos dez anos do governo Kirchner. Ao mesmo tempo, houve concentração bem numerosa de panelaços no centro de Buenos Aires contra o governo. Isso se junta no momento como os meios de comunicação estão em estado de debate permanente. Estão divididos. É como se houvesse duas sociedades. A favor e contra o governo. E a mídia aparece como incentivadora. Convoca as manifestações, de um lado e de outro, apesar de quererem mostrá-los como espontâneos.

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    RH: Poderia falar um pouco sobre como os meios de comunicação argentinos se manifestaram com relação à eleição de Bergoglio como Papa?

    MV:  Neste momento em que a Argentina está muito dividida ideologicamente, Bergoglio se apresentou como um presente de união. E, para mim, foi a maior operação de imprensa na argentina desde a ditadura. Claro que a Guerra das Malvinas foi um momento político e social de enorme expressão, mas, no que diz respeito à ação da mídia, não houve uma ação tão espetacular, eficaz e artificial como na eleição de Bergoglio como papa. Foi o reconhecimento a um poder que a igreja sempre teve na Argentina, uma igreja institucionalizada, ligada aos poderes obscuros, mais até do que em outros países da América Latina. A igreja quase não produziu mártires, apoiou fortemente os governos militares. Dessa igreja saiu Bergoglio. Ele já tinha muito poder na Argentina e, de uma hora para outra, se converteu em quase um papa terceiro-mundista, isso é incrível. Alguém acusado de participar da ditadura, de torturas, de entregar um colega ao governo. Alguém ligado, em tese, a estes crimes se torna um símbolo da erradicação da pobreza. Hoje não há quem não tenha viajado de metrô com Bergoglio! E, além disso, ocorreu algo que foi: o governo de Christina [Kirchner] que estava sendo muito enfrentado e, aos poucos, assumiu uma aproximação com Bergoglio que também terá suas consequências. A comoção popular frente à eleição do papa foi uma coisa impressionante. Essa igreja argentina, que agora se mostrou muito viva, é uma igreja que a imprensa já retratou como decadente, diante da representação de outras religiões. Os meios de comunicação na Argentina nos últimos cinco anos já chegaram a realizar debates e mesas redondas sobre religião sem convidar membros da Igreja Católica. Hoje, o panorama deu uma volta por completo.

    Manifestantes enfrentam a polícia, durante o Cordobazo, em 1969Rh: Como é construída hoje a imagem do Cordobazo pela mídia: é geralmente positiva – imagens dos heróis guerrilheiros daquele tempo – ou negativa – os jovens baderneiros?

    MV: Em 1969, a televisão mostrava estes grupos como baderneiros, violentos. Não podemos esquecer que a construção dessa heroicidade vem por parte do cinema político. Essa diferença seguiu por anos. O Cordobazo também foi um episódio em que o governo militar usou para representar o que não deveria acontecer novamente. Hoje, há uma coisa muito difícil de entender na Argentina que é o que ocorreu com a luta armada. Viemos de muitos anos desde o final da ditadura até hoje, em que se vem discutindo muito o tema de recuperação da memória do período. Relacionado ao esquecimento relacionado às vítimas, aos desaparecidos políticos. Se colocou destaque na repressão da brutalidade, nos crimes de Estado. E isso teve muito êxito. Após esforço realizado pelas organizações de familiares de vítimas da repressão, hoje se conseguiu um consenso em torno da necessidade de se converter em crime de Estado toda a repressão ocorrida durante as ditaduras. E dar a ele um sentido forte, porque não é o mesmo um sujeito cometer um crime ou o Estado cometer um crime. Isso foi muito importante do ponto de vista simbólico. E, do ponto de vista judicial, o próprio julgamento de pessoas que cometeram crimes de tortura. Creio que a relação hoje da Argentina com seu passado seja saudável. Mas não podemos deixar de lembrar que as relações familiares tiveram a necessidade, de, em alguma maneira, não mencionar o que foi que os desaparecidos haviam feito. Essa necessidade de vitimização para poder chegar aos tribunais e de culpabilizar os repressores, implicou que de alguma maneira se lavara o passado da luta armada. É um grande tema que, contudo, não tem sido muito estudado. Em um momento, a luta armada foi realmente muito negativizada, mas de 1993 em diante foi completamente descontextualizada. Houve um consenso em relação a isso. Hoje em dia, o grande problema é não voltar a revisitar esse passado, porque é uma questão mal resolvida. É uma questão ainda em aberto. Porque uma parte muito significativa da Argentina apoiou a luta armada. Em contrapartida, por exemplo, há muito debate acerca da participação civil na manutenção da ditadura, se fala bastante sobre o apoio de grande parte da sociedade ao golpe de Estado, porque hoje há um consenso em torno do lado errado da história, a ditadura e a repressão. Tanto a mídia quanto a opinião pública evitam esse tema.

     

    RHBN: Você estuda as representações de imagem do Cordobazo na mídia argentina. Poderia falar um pouco sobre este movimento e também como a multidão foi representada pelas câmeras da época, além de tentar compará-lo com os movimentos de maio de 1968 em outros países?

    MV: Quanto às imagens que retrataram o Cordobazo, me interessa analisar a questão da hetetrogeneidade e da disposição desse povo representado nas cenas que se tornaram símbolos do conflito e que depois foram utilizadas inúmeras vezes pela mídia. Isso não quer dizer que necessariamente o Cordobazo não seja um movimento compacto. Naquele momento, forças muito diferentes, tanto de origem popular, estudantes e organizações sindicais se encontraram no movimento por uma luta comum, e é esse seu principal valor histórico. Naquele momento, a Argentina vivia uma ditadura e no Cordobazo podemos ver a transformação do ambiente e de certas práticas de cidadania. O que eu tentei marcar foi que ele foi contundente: um golpe muito forte na história da ditadura. Com relação às imagens, há um paralelo que se pode traçar com os registros anteriores de cenas de multidão. Nas décadas de 40 e 50 na Argentina, as imagens de protestos ou celebrações no espaço público estavam marcadas pelo que havia sido o peronismo, construindo sua gênese das massas. Tentava-se sempre mostrar a ideia de que o povo era homogêneo, que havia uma liderança, um ponto central para o qual caminhavam. Que o povo peronista, tal como se chama na Argentina, era uma confluência de setores muito diferentes, mas que acabava se homogeneizando diante da figura do líder.

    No Cordobazo, isso não ocorreu dessa maneira. O peronismo não foi protagonista. E houve outras forças que lideraram essa concentração. Forças diluídas, difusas, por isso, de certa maneira, podemos comparar o Cordobazo a outros acontecimentos de 68 na França e América Latina. A cidade de Córdoba era uma cidade universitária e também industrial e, por isso, parece ser muito representativa a imagem que ficou ‘na história’: carros virados e incendiados. A população invadiu as concessionárias de automóveis, retirou os carros lá de dentro e ateou fogo. Logo depois, enfrentando a polícia que reagiu com muita violência. Nos anos 1940, o povo parece ser retratado de forma passiva diante das câmeras, enquanto que no Cordobazo eles se tornam sujeitos da cena política. As câmeras estão dentro dos acontecimentos. E isso faz com que o povo apareça como um sujeito ativo. Pelas imagens, portanto, a multidão peronista tendia à concentração estática, de pé, na praça, diante de um palco, diante de um líder. Enquanto que durante o Cordobazo, se privilegiou a caravana, o movimento, parecido com os movimentos de 68. Mas o movimento ante a concentração. Há variantes da erupção pública que dão a pauta acerca de que estilos e que retórica usam as massas para se expressar.

    RH: Geralmente no Brasil se atribui às massas um papel secundário nas ações de mobilização popular. O discurso midiático identifica o líder como uma figura que protagoniza a reunião e, só depois, vem o povo. Isso acontece na Argentina, por exemplo, com as narrativas a respeito do peronismo?

    MV: É um tema central da política latino-americana, o que ocorre com as grandes lideranças. Nos anos 70, todas as bases da esquerda peronista construíram um Perón bastante extravagante, um Perón terceiro-mundista, de esquerda, companheiro. Mas quando no Perón presente em outros tipos de fontes históricas, documentais, vamos que as figuras não coincidem. Parecem duas imagens completamente opostas, de duas pessoas diferentes. Isso fala de uma necessidade de uma figura forte para conduzir o governo e me parece que hoje ainda há um pouco disso.

    O governo de Krishner tem tentado reconstruir uma relação em parte parecida com o peronismo e, em parte, diferente. Porque há na sociedade a necessidade de uma liderança forte. A ideia que os líderes servem a um passo adiante e as massas o seguem ainda é presente nos meios de comunicação na Argentina e percebemos isso, por exemplo, desde os filmes feitos sobre Nestor Krishner às películas históricas financiadas pelo governo para reconstruir passado da Argentina. Permanece a ideia de que a História se constrói a partir de grande lideres. Apesar do discurso político do governo reforçar a ideia de que o povo, as massas, são protagonistas de seu destino. Mas esse protagonismo parece que nunca termina de se tornar em um protagonismo real.

    Parece que o que sempre há é a ideia de uma figura mais iluminada que vem a conduzir o povo.  O problema que isso acarreta é a frustração decorrente de desejos prometidos e não alcançados. No caso do peronismo, o elemento ideológico-cultural central foi capaz de construir uma fortaleza. Perón não vinha apenas cumprir as necessidades do povo, apesar de ter feito isso em muitos casos e de forma muito efetiva, mas suprir também seus desejos. Muito mais do que as necessidades. Não era dar ao trabalhador qualquer casa e sistema de educação. Mas dar ao trabalhador a casa que aparecia nos filmes, preocupado com uma estética, uma maneira de cumprir as necessidades populares que iam mais adiante do que as próprias necessidades. Os hotéis construídos por Perón para servir ao turismo social, hoje, são resorts cinco estrelas, construções muito luxuosas que recebiam a população em férias, por exemplo. Tem a ver com a imagem que os setores populares podiam ter do desejável. Hoje, esse é o principal problema do governo Kirshner. Porque o kirshnerismo não consegue suprir os desejos totais da classe média. E isso está cada vez mais problemático.

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