Mais que televisão

Historiador defende a construção de um estado de bem estar social no Brasil. Para ele, democracia e manifestação devem andar juntos

Janine Justen

  • Para Maurício Parada, o país passou por uma mudança significativa na sociedadeO desejo de uma verdadeira reforma política no Brasil cresceu nos acalorados debates das redes sociais, passou pelas ruas e chegou à boca da presidenta Dilma Rousseff em anúncio oficial na última segunda-feira (24). Em entrevista à RHBN, o historiador Maurício Parada, especialista em História Moderna e Contemporânea e professor da PUC-Rio, comentou a urgência do tema: “A população quer mais do que uma televisão de 42 polegadas”.

    Parada defendeu ainda a importância dos protestos, como agentes fortalecedores da democracia, mas, segundo ele, é preciso ter cautela quando o assunto se desloca para o apartidarismo. Já sobre a passividade do povo brasileiro, o professor acredita que o “gigante” nunca esteve adormecido. Veja a entrevista abaixo.

    RHBN: O que você pensa sobre os protestos? São efetivos?

    Mauricio Parada: Sim, os protestos tem sido efetivos em demonstrar às instituições da República uma nova pauta política que não estava encontrando meios para ser exposta de forma clara. Nos últimos 20 anos, o país passou por uma mudança significativa na composição da sociedade, transformação ocorrida especialmente pelo deslocamento de parte da população para fora da zona de pobreza. No entanto, a incorporação dessa massa a uma cidadania definida apenas pelo consumo tem um limite, a população quer mais do que uma televisão de 42 polegadas. Trata-se de reivindicar, ainda que nesse momento de forma pouco clara, a construção de um estado de bem estar social que nunca se instalou no Brasil. Parece que estamos vivendo em uma sociedade integrada ao espetáculo global do consumo sem termos estabilizado modelos sólidos de educação, saúde, transporte e segurança pública. As manifestações são por direitos e isto é claro.

    RHBN: O que você acha do apartidarismo defendido nas manifestações? Isso pode indicar uma espécie de falência do nosso sistema de democracia representativa?

    Mauricio Parada: Sem dúvida que o sistema político representativo no Brasil precisa de uma reforma, mas não me parece nada saudável que essa mudança descarte o lugar legítimo dos partidos políticos. Os partidos são parte organizada da sociedade civil, muitos deles com histórias de lutas por uma sociedade mais justa muito dignas. É um equívoco reprimir sua participação em uma manifestação.

    RHBN: Como você percebe a atuação da polícia na contenção das manifestações?

    Mauricio Parada: A polícia está atuando de forma negativa na contenção das manifestações. Uma polícia militar criada para ser uma força de contenção e de enfrentamento não parece entender o sentido das manifestações. Sua compreensão se limita ao sentido da luta para manter ou conquistar os territórios conflagrados dentro das cidades e traduzir toda ação em crime. Essas manifestações são políticas e não criminosas. Poderia ser esperado que a polícia atuasse defensivamente em certos casos, mas não é aceitável que ela haja como força de repressão. Se a polícia, em um estado de direito em que manifestações políticas são legítimas, criminaliza a atuação dos cidadãos, é esperado, então, que a sociedade encaminhe como reivindicação a desmilitarização da polícia.Manifestantes com bandeiras de partidos políticos nas mãos / Foto: Erick Dau

    RHBN: Toda causa é digna de ir para as ruas?

    Mauricio Parada: Sim, todas as causas são dignas de ir à rua. Na rua e nos espaços públicos é que essas causas se tornam legítimas como aspirações coletivas de uma sociedade. O debate deve ser aberto e extenso. É assim que se constrói uma sociedade de direitos, quanto maior a participação melhor. Nesse momento aparecem muitas demandas e, aos poucos, elas estão construindo sua trajetória e sua legitimidade. É preciso entender que manifestação e participação democrática não são uma ameaça ao estado de direito e sim sua força.

    RHBN: Temos que ter medo de um possível golpe de Estado?

    Mauricio Parada: Não.

    RHBN: Houve uma mudança na pauta original, de um processo ligado ao ideário de esquerda para uma recrudescimento de direita?

    Mauricio Parada: Não me parece que os protestos tenham sido pautados pela esquerda ou pela direita. O Brasil já passou por ditaduras de direita, crises econômicas, guerrilhas e parece que a população é madura o suficiente para fazer suas escolhas. Não devemos temer as ideologias e sim discuti-las.

    RHBN: Há possibilidades de que o movimento se perca na difusão?

    Mauricio Parada: O movimento não é difuso, é diverso. Há uma grande diferença entre os dois, o primeiro termo indica imprecisão e não creio que seja o caso. A diversidade é esperada e positiva e com a discussão ela se tornará consistente, a agenda está cada vez mais clara e não me parece perdida.

    RHBN: Este é um movManifestante oferece flor a policial / Foto: Erick Dauimento elitista?

    Mauricio Parada: Não é um movimento de elites. Gerações e grupos sociais diversos se misturaram nas ruas e isso não é um problema.

    RHBN: A mobilização desse grupo é única na trajetória política do Brasil ou repete a organização de outras manifestações já realizadas?

    Mauricio Parada: Não é uma repetição, mas uma continuidade. A imagem do “gigante que acorda” é de uma liberdade poética interessante, mas no fundo falsa. Em momento nenhum a sociedade brasileira esteve adormecida. O Movimento dos Sem Terra, o movimento negro, o movimento dos povos indígenas, entre outros, esteve atuando no país sem descanso nas últimas décadas. Por outro lado, essa mobilização tem a marca de seu tempo e, portanto, inova. Os usos das redes sociais para ampliar a organização e criar canais alternativos de informação estão sendo importantes e são novidades na história política do país.

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