A vida de Quäck

Professor sobre encontro entre índio e príncipe alemão

Ronaldo Pelli

  • Kuêk e o príncipe em um retratoO professor alemão de anatomia e biologia celular Karl Schilling parece ser um homem extremamente solícito. Além de se mostrar disponível para uma entrevista para um veículo de outro país, ele foi o responsável direto pela liberação do crânio do índio Kuêk, que volta ao Brasil após anos na Alemanha. Ou Quäck, como ele o chama, segundo a tradição historiográfica alemã. Isso porque ele é o diretor do museu de anatomia de Bonn, que estava de posse das relíquias indígenas. Sempre simpático, escreveu respostas tão boas que mudamos nossos planos de incluí-lo dentro da reportagem principal sobre o volta dos ossos do borum e deixá-lo à parte.

    Nessa entrevista, Schilling fala um pouco sobre o encontro entre o índio e o príncipe alemão Maximilian zu Wied [foto ao lado], conta detalhes da vida do índio na Alemanha, inclusive seu problema com o álcool e como os alemães trataram de maneira bem moderna o problema, reforça a ideia de amizade entre o príncipe e o indígena, e desmente a versão de que Kuêk teria se matado ao se jogar da torre de uma igreja no meio do inverno: “Eu pude verificar: seu crânio não mostrava qualquer sinal de violência (não havia sinais de fraturas)”.

     Confira a entrevista:

    REVISTA DE HISTÓRIA: Desde quando o crânio do índio Kuêk estava em posse de seu museu?

    Karl Schilling: Kuek (ou como o seu nome é escrito em alemão, Quäck) morreu no verão de 1834. Ele foi enterrado de acordo com os ritos católicos, em Neuwied. Lá, existe uma carta, escrita por [o príncipe alemão] Maximilian zu Wied e parcialmente citada em uma publicação científica no início de 1862, em que Maximilian declara que o crânio de Quäck está realmente no Museu Instituto de Anatomia em Bonn, e que ele tinha sido levado para o museu pelo médico da corte ("Hofrath Dr. Bernstein") de Maximilian.

    Estou nesse momento tentando encontrar o original dessa carta. Para agora, eu posso apenas especular que ela foi provavelmente escrita em 1861, ou um pouco mais cedo. Também não sabemos exatamente quando o crânio foi levado para o Instituto de Anatomia. Mas deve ter sido entre 1834 e 1861.

    O crânio de Quäck está listado no inventário de todas as amostras de esqueletos disponíveis em nosso Instituto de Anatomia desde 1871, e essa é precisamente a razão porque nós pudemos encontrá-lo rapidamente. Mais que isso, não tenho informações se o crânio especificamente tenha sido estudado, ou que algum tipo de estudo específico tenha sido publicado. Desde 1844 até a sua morte em 1893, o professor Hermann Schaaffhausen viveu e trabalhou em Bonn. Ele é considerado um dos pais fundadores da moderna antropologia física na Alemanha, e ficou famoso pelo seu trabalho no crânio do primeiro Neanderthal, encontrado próximo de Bonn. Ele também publicou extensivamente sobre o formato e a evolução dos crânios humano. Eu não sou muito familiar com a sua obra, mas pelo tanto que eu a conheço, posso dizer que ele não publicou qualquer trabalho separado sobre o crânio de Quäck. Mas para responder definitivamente se ele estudou [os restos do índio], seria necessária uma pesquisa extensiva dos muitos escritos do professor Schaaffhausen.

    Depois da morte do professor Schaaffhausen, o interesse em antropologia física na Universidade de Bonn declinou, e a sua coleção, incluindo o crânio de Quäck, foi relegada para os arquivos. Então a ideia que se pode ter, ao escutar que o crânio está no Museu do Instituto de Anatomia, a ideia de que o crânio foi exposto ao público está errada.

    Nós provavelmente devemos o fato de que pudemos rapidamente encontrar e identificar esse crânio, assim que o pedido de Jequitinhonha veio [para a volta dos ossos], para a boa manutenção dos registros do professor Schaaffhausen, e também para o fato que os arquivos de qualquer instituição são um lugar bem seguro, mesmo que um tanto quanto empoeirados.

    Paisagem de floresta com papagaio e índios

    RH:  O que você sabe sobre a vida de Kuêk na Alemanha? E enquanto ele vivia no Brasil?

    KS: De acordo com o relatório de viagem de Maximilian zu Wied, e também à carta que eu me referi acima, Maximilian se encontrou com Quäck em 1816, na casa de um professor de Latim chamado Morreira de Pinha, em Porto Seguro. Maximilian descreve Quäck como um garoto “de 11, no máximo 12 anos de idade”. Ele escreve que Quäck foi dado a Morreira pelo “Ouridor Marcelllina D’Acunha, que havia enviado entre 20 e 30 indígenas para o Rio, por curiosidade, e a quem, tendo feito promessas a eles, eventualmente os deixava na miséria, sem cumprir as suas promessas, e então dava alguns deles (como presentes) para os seus amigos e subalternos...”.

    Também fica claro, pelo relatório de Maximilian, que ele adquiriu Quäck. Eu não estou seguro se isso quer dizer que ele diretamente o comprou, ou se ele simplesmente trocou algumas delicadezas e presentes com o professor Morreira. Até onde eu sei, o comércio escravo não era oficialmente permitido naquela época no Brasil, mas pode ter ainda existido.

    Subsequentemente, Quäck acompanhou Maximilian zu Wied em suas explorações científicas no Brasil, e Maximilian apontou repetidamente as virtudes de Quäck e o quanto ele o ajuda para entrar em contato e entender o que os indígenas da região (referindo-se aos Botocudos; eu posso apenas repetir esse termo aqui, sabendo que não é como esse povo se autodenomia, e também ciente que pode ser considerado pejorativo hoje. Mas é a palavra usada por Maximilian).

    Você pode encontrar mais detalhes nessa tese de mestrado de Christina Rostworowski da Costa ("O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied e sua viagem ao Brasil (1815-1817)"; Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas departamento de História, programa de pós-graduação em História Social; São Paulo 2008), que está disponível online. Está em português, então eu não o entendo em detalhes, mas no máximo que eu posso extrair, o livro cobre esse tópico sobre a relação entre Maximilian e Quäck no Brasil.

    Em 1818, Quäck viajou, junto com outro membro da expedição de zu Wied, para a Europa, e chegou à corte de Maximilian em Neuwied em 12 de fevereiro de 1818.

    Eu sei algumas anedotas contadas sobre a vida de Quäck em Neuwied, mas eu não tenho conhecimento pessoal das fontes primárias, como cartas contemporâneas etc., as descrevendo. Portanto eu não consigo falar sobre da vida de Quäck em Neuwied. Mas eu gostaria de enfatizar três aspectos os quais particularmente são interessantes para mim. Primeiro, Quäck é normalmente citado como um “servente” de Maximilian zu Wied. Porém,Quäck não está listado na ainda acessível lista (de pagamento) dos serventes que cuidavam de Maximilian zu Wied. Minha interpretação pessoal disso é que Maximilian considerava Quäck quase como um colega, a quem ele mantinha material e financeiramente, sem esperar nenhum tipo de serviço específico. Para deixar esse ponto um pouco mais claro: eu gostaria de especular que Maximilian considerava Quäck um colega nas suas pesquisas para o conhecimento científico sobre a flora e a fauna do Brasil, sobre o(s) povo(s) indígenas do Brasil e suas maneiras de viver. O jeito e o respeito com que Maximilian repetidamente se referia, em seus escritos, a Quäck, e as suas últimas opiniões parecem deixar isso bem claro. Para Maximilian, Quäck foi um parceiro nessa busca científica, não um objeto dela.

    Esse ponto de vista não é invalidado pelo fato de que Maximilian zu Wied também observou cuidadosamente Quäck, e como ele aguentava viver em Neuwied. Para mim, esse interesse é similar ao de bons médicos com os seus pacientes. Mesmo que tenha sido descrito em termos técnicos, científicos, isso não torna Quäck em um objeto experimental.

    Segundo, porque, a partir dos registros históricos, é claro que Quäck foi uma vítima do álcool em Neuwied. Maximilian e os membros de sua família tentaram lutar contra essa triste situação, e as descrições de como eles agiram, às vezes é penoso. De qualquer forma, naquele tempo, alcoolismo não era considerado verdadeiramente uma doença (que nós dificilmente podemos tratar hoje!). Se alguém checa um pouquinho da história literatura médica, isso mostra como o fato de Maximilian ter tentado dissuadir Quäck de parar de beber foi surpreendentemente moderno, e ainda humano, pelos padrões da primeira metade do século XIX.

    No pé dessa imagem, Maximilian, segundo o professor Schilling, escreveu: "Quäck atira, sob a supervisão de Simonis, na borboleta enorme. Janeiro de 1817". Schilling explica ainda que Simonis era um dos membros da corte de Maximilian

    Não sabemos se há uma razão por que Quäck começou a beber, mas é tentador olhar para essa tentativa de viver nesse mundo muitíssimo estranho que ele foi confrontado dentro da Europa, e a solidão que ele experimentou lá. Também parece que Maximilian zu Wied tinha muito conhecimento, e entedia, dessa situação. Assim, em seus relatórios sobre as suas viagens ao Brasil, Maximilian anota a um certo ponto: “Amor por uma vida livre, natural e indômita é impressa na vida de todo mundo, quando mais novo. (...) Quem não conhece a mágica atração de alguém por sua terra natal e suas formas tradicionais de vida. Onde está o caçador, que não sente desejo de retornar para as florestas que ele vagava em sua juventude...” Sabendo que esse relatório foi publicado em 1819, parece claro que esse anúncio forte da compaixão de Maximilian deve ter sido inspirado pelos sentimentos e as saudades que ele observava em Quäck, que então vivia por cerca de quatro anos em Neuwied.

    Como terceiro ponto, eu gostaria de ressaltar que, de acordo com os registros em igrejas, Quäck morreu no dia 1º de junho de 1834, de uma aflição do fígado. A história contada pela imprensa leiga (incluindo a Wikipedia) que ele caiu de uma torre do castelo de Neuwied enquanto estava bêbado, no meio do inverno, e que ele teria ficado severamente machucado, e em consequência disso morrido, é totalmente errada. Primeiro, como eu disse, ele morreu no meio do verão [do hemisfério norte]. E, como eu pude verificar, seu crânio não mostrava qualquer sinal de violência (não havia sinais de fraturas).

    RH: O que você acha do retorno desses ossos para o Brasil?

    KS: É totalmente apropriado, e certamente é o correto, politicamente falando, se você quiser descrever isso nesse tipo de linguajar. Se você me perguntar pessoalmente, eu gostaria de dizer que estou muito feliz sobre como a situação se desenvolveu, e eu estou orgulho de que eu pude fazer parte dessa jornada de volta à casa, tarde, como isso pode parecer.

    [fotos: Bibioteca Brasiliana da Roberto Bosch GmbH]

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