História e Imagem

Por meio de fotografias, pinturas e gravuras é possível ensinar História do Brasil de uma forma interativa. Aqui, o professor encontra atividades e lições para aplicar em sala de aula

  • As imagens que nos cercam podem ser reproduzidas, repetidas, ampliadas e transformadas quase num piscar de olhos. E a tal ponto que já não sabemos se uma imagem é original ou não. Durante muito tempo, acreditou-se que as imagens traziam uma verdade impossível de ser mudada, e por isso dizia-se que a imagem reinava absoluta. Nossos alunos aprendem quase tudo por meio de uma cultura fortemente visual, e por isso precisamos entender não só as imagens, mas também sua produção, reprodução, seus significados, sentidos ocultos ou explícitos em convivência turbulenta e excessiva em todos os momentos da nossa vida em sociedade. A utilização das imagens no ensino de História diz respeito à necessidade de serem compreendidos os significados desta utilização tão corriqueira, vivida como hábito e presente nas vidas de todos nós a tal ponto que nem pensamos mais como acontece e por quê. Faz sentido considerar a produção/reprodução/transformação de imagens como uma característica dos nossos tempos e compreendê-la como a forma em que as sociedades se imaginam e se percebem. Tomar as imagens como um problema a ser decifrado significa, a princípio, pôr em questão a organização da vida em sociedade tanto no presente quanto no passado, pois, na medida em que podem trazer explicações sobre o passado, as imagens provocam novas reflexões também sobre o presente. Deste modo, na sala de aula, uma imagem gera muitas reflexões e possibilidades de compreensão do passado e do presente.

     

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    Atividade 1

    O texto de Maria Inez Turazzi, “Foco na viagem, a reportagem de Lorenzo Aldé, “Na era do instantâneo”,e o texto de Renata Santos, “A imagem da capa”, formam o conjunto de trabalho para a atividade proposta para o 8º ano do Ensino Fundamental. O contexto imaginado é o da discussão da expansão do capitalismo no século XIX com as ideias de progresso e desenvolvimento da ciência ou, também, o da afirmação do Estado Nacional e expectativas de inserção do Brasil na modernidade durante o Segundo Reinado.

    1- A turma é dividida em grupos de quatro alunos para a leitura dos textos Foco na viagemNa era do instantâneo. Observar que os textos tratam de períodos históricos diferentes. O primeiro aborda o surgimento da fotografia como técnica e a forma como essa técnica será disseminada pelo mundo. É importante recuperar a ideia da viagem como uma expedição científica e de demonstração do poder da ciência. Refletir com os alunos sobre as relações próximas entre ciência, negócios e indústria no século XIX e como a organização da viagem do navio Oriental pode nos informar sobre isso. O segundo texto trata dos usos da fotografia hoje. Discutir a respeito desses usos em oposição aos registros dos séculos XIX e XX. A noção de eternizar um determinado momento em imagem sobre papel é oposta à noção de provisório implícita no ato de fotografar na atualidade.

     

    Saiba mais 

    Mariana Muaze, no artigo Bem na foto, e Sandra Sofia Koutsoukos, em Liberdade encenada, na RHBNnº 30, de março de 2008, tratam da função da fotografia na sociedade do Brasil Imperial.  

     
     

    2- Após a leitura, cada grupo deve anotar as características das imagens das páginas 19 a 24, 26 a 29. Na página 19, observar como a pose, o figurino e o cenário eram importantes para definir a imagem que deveria ser registrada. Na página 20, a observação da litografia sugere o grande interesse provocado pela fotografia, e devem ser anotadas as circunstâncias em que possivelmente será usada e já eram imaginadas naquela época. Esses usos se concretizaram? Na página 21, a charge cria a expectativa do uso da fotografia como exposição do que é indesejado. E, atualmente, a reprodução de imagens sem controle provoca receios? Nas páginas 22 e 23, as imagens da cidade do Rio de Janeiro remetem ao registro do espaço urbano em fotografia (p. 23) e litografia (pp. 22 e 23). Quais as diferenças entre uma e outra imagem no que diz respeito à técnica? A imagem da página 24 mostra ainda o suporte de exposição da fotografia: o porta-retratos, tão comum no nosso cotidiano. Comparar com a imagem da página 19. Podemos afirmar que a fotografia tem um objetivo social quando é exposta dessa maneira? Nas páginas 26 e 28, a imagem tem o objetivo de registrar o cotidiano em que a máquina fotográfica tem o lugar de honra, sugerindo a importância social de ser fotografado com o apetrecho que define um determinado lugar na sociedade. Essas imagens indicam a importância dada ao domínio de uma técnica vinculada às ideias de progresso científico, modernidade e velocidade. E hoje é importante demonstrar conhecimento e familiaridade com objetos tecnológicos? Quais? Na página 27, a imagem traz uma experimentação estética. O que parece ser? Na página 29, a imagem de um desfile de escola de samba no carnaval carioca registra o momento em que as alegorias e os adereços de mão levados pelos sambistas remetem à origem da fotografia como retrato e duplicação do real.

    3- Em outra aula, os alunos devem trazer imagens que considerem importantes para suas vidas, como fotos de família e de momentos da comunidade, do grupo na escola, ou, ainda, imagens produzidas para esta ocasião. A partir do que foi discutido na ocasião anterior, observam a capa da revista. Quantas imagens foram utilizadas para chegar a esta composição gráfica? O que elas nos dizem em separado? Essa composição traz alguma mensagem específica? A transformação de imagens é uma marca dos tempos atuais? Depois de discutidas as características desta imagem, a turma, dividida em grupos, lê o texto “Aimagemdacapa”. Este texto sintetiza as questões trabalhadas na aula anterior, em que as diferenças de usos da fotografia – e das imagens em geral – nos permitem conhecer o passado sob outro ponto de vista e a relação das diferentes técnicas com o período histórico que as produziram. Os três registros – litografia, foto-pintura e digital – utilizados em conjunto permitem questionar a forma como registramos nossas vidas, tanto em sociedade como no aspecto privado, e por que o registramos.

    4- Considerando a produção social das imagens, a sua reprodução e os contextos históricos, os alunos experimentam a 

    construção de novas imagens a partir daquelas que já possuem. São orientados a produzir colagens como as da capa. A transformação demonstra, na prática, que a fotografia reproduz o que o sujeito vê e imagina, e não traz uma verdade em si mesma. As transformações ocorridas no século XIX, com a valorização da velocidade e a percepção da modernidade como um objetivo das sociedades em geral, são conteúdos discutidos e contemplados nesta atividade por meio da experimentação. Os resultados são expostos em um mural de imagens. Os recursos usados podem ser os da colagem com papel ou as imagens virtuais no laboratório de informática.

         

    Atividade 2

    O texto “O diabo do feitiço, de Mario Teixeira de Sá Junior, é objeto de análise e estudo para uma atividade sugerida para alunos do 1º ou do 2º ano do Ensino Médio, no contexto dos conteúdos acerca da colonização da América portuguesa e tendo como referência as culturas africanas e indígenas no Brasil, no sentido da Lei 11.645/08.

    1- Ler o texto em voz alta, analisando as imagens que o compõem. Destacar as palavras cujo significado os alunos desconheçam, de modo a realizar um estudo de vocabulário. Solicitar que os alunos definam os termos: devassa, monções, quilombo, magia, feitiçaria, “jornal”, alforria. No mural da sala de aula, reserve um espaço para a elaboração de um “Vocabulário Histórico do Brasil Colonial” onde as definições desses termos serão afixadas. Ao longo do ano letivo, o mural deverá ser preenchido, acrescentando-se as definições de novos termos e conceitos relacionados ao conteúdo estudado.

    2- Promover uma troca de impressões sobre a leitura, com a introdução de perguntas como: Quais os tipos de documentos utilizados pelo historiador em sua pesquisa? Qual a diferença entre as práticas da magia e da feitiçaria? De que modo os grupos sociais da América portuguesa se relacionavam com tais práticas? O que era a “feitiçaria de ganho”?

    3- Refletir acerca das relações sociais de poder e submissão que estão implícitas nas práticas de magia e feitiçaria descritas no texto. Recuperar a ideia apresentada de que os atos de denúncia não ficaram restritos aos brancos (página 32) ou, ainda, de que por meio da magia e da feitiçaria os escravos puderam renegociar sua condição, conseguindo maior autonomia em sua situação de cativeiro ou até mesmo a compra de sua liberdade (página 33). Essas situações apontam para a ideia de que as relações de poder na América portuguesa não devem ser analisadas unicamente pela chave explicativa senhores versus escravos. A análise dos documentos históricos mostra que existiram redes de poder e de hierarquia no interior da própria comunidade negra e indígena.

    Saiba mais 

    Em Corpo fechado, na RHBN nº 15, de dezembro de 2006, Leonardo Carvalho Bertolossi discute as práticas culturais africanas na América portuguesa. 

     Marina de Mello e Souza, em Um continente no currículo, na RHBN nº 38, de novembro de 2008, mostra as possibilidades de se trabalhar a História da África em sala de aula. 

     

    4- Analise a imagem da página 31, de Debret, um europeu que observou e registrou uma sociedade culturalmente diferente da sua. Apresente a ideia de que o diabo possui outras representações (se possível, traga uma imagem representando o diabo de outra maneira). Pensando nas características da sociedade colonial da América portuguesa, explique por que o diabo foi representado dessa forma. Outra imagem é a da página 33, também de Debret. Peça aos alunos que descrevam o que estão vendo na gravura.Viajantes deixaram registros sobre a grande participação dos escravos na cerimônia do sábado de Aleluia. Mary Karasch nos diz que, para os escravos provenientes do centro-oeste africano, o Judas pendurado na árvore poderia remeter à ideia da “morte do bruxo” presente nas crenças religiosas daquela região. Para esses escravos em solo colonial, o Judas poderia ser interpretado como o feiticeiro e o Diabo, como o poderoso orixá Exu. Assim, o ritual de Judas pode ter sido lido como um ritual de antibruxaria, celebrando a vitória de Exu contra o feiticeiro Judas. A observação dessa imagem permite ao professor trabalhar a ideia de reelaboração das práticas culturais e das crenças africanas no espaço da sociedade escravista colonial da América portuguesa.

    5- Em outra aula, recuperando o parágrafo final do texto, os alunos são levados a refletir oralmente sobre as práticas mágicas e/ou de feitiçarias que porventura reconheçam como práticas atuais. A reflexão deve ser orientada para as práticas religiosas dos grupos de origem afro-brasileira e/ou indígena. Os alunos recolhem testemunhos orais dos seus conhecidos e elencam as diversas práticas de acordo com as origens presumíveis.

    6- Os alunos, em grupos, preenchem o quadro, que deverá ser feito em uma folha de cartolina e depois exposto no mural da turma.

     

     

     

                                                                                                   

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