Na mira do desmatamento

Geoglifos amazônicos guardam segredos de povos antigos e correm o risco de desaparecer antes de serem estudados

Alice Melo

  • Geoglifo na fazenda Três Meninas, no Acre. Foto: Diego Gurgel/ Acervo UFPAPara os amantes da ficção científica, os retângulos e círculos vistos em pastos da Amazônia sinalizam a visita de naves extraterrestres ao Brasil. Já para os estudiosos que investigam resquícios de povos indígenas pré-colombianos, as valas em formas geométricas são importantes sítios arqueológicos, conhecidos como geoglifos. Os primeiros foram vistos na década de 1970, quando a agropecuária começou a avançar sobre a floresta e revelar o que tinha por baixo das copas das árvores. O aumento do desmatamento e o surgimento da imagem por satélite trouxeram à tona mais deles: hoje já são quase 300. Como eles só podem ser observados do alto, depois de um ato predatório, os geoglifos “nascem” correndo o risco de desaparecer.

    A antropóloga Denise Schaan, professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), afirma que muitos deles são cortados por estradas e destruídos por outras construções do homem. Ela, inclusive, entrou com ações no Ministério Público, na esperança de que o Estado proteja dois sítios violados no Acre. Em uma das denúncias, a pesquisadora acusa o proprietário de uma chácara, em Rio Branco, de construir um bebedouro sobre o patrimônio; na outra, indica que um geoglifo está ameaçado por um assentamento de famílias de agricultores, liberado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra. “Os geoglifos são novos para a população. Ela não estava preparada para esse tipo de problema, que esbarra no desenvolvimento econômico do estado”, comenta.

    E a situação piora quando o governo “entra em confronto com ele próprio na Justiça” e defende que o Iphan tombe alguns geoglifos para que a proteção seja mais efetiva. Afinal, essas estranhas figuras – que têm aproximadamente 12 metros de largura – podem revelar muito sobre o modo de vida dos povos indígenas do Brasil pré-colonial: acredita-se que as construções podem ter servido para cercar espaços utilizados para encontros, rituais religiosos e até moradia desses grupos. 

    De acordo com a Constituição Federal, todo sítio arqueológico é inviolável e automaticamente protegido, mas a lei é desconhecida pela população, que também não vê nas “valas” de sua fazenda uma importância histórica e social. Esse é o caso de Antônio Souza, dono da Fazenda Atlântica, notificada pela Polícia Federal por ter um bebedouro de gado sobre um geoglifo: “Eu não sabia que era uma coisa feita há muitos anos, com história. Precisava ter sido ensinado para nós”.

    Para que isso ocorra, algumas medidas estão sendo tomadas com o objetivo de conscientizar a população, como a criação de um grupo de educação patrimonial pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente. Além disso, uma parceria entre a UFPA e o Iphan está realizando um mapeamento da região na intenção de detectar quais geoglifos precisam ser preservados. “Com o tombamento, o proprietário assina um termo de responsabilidade, aumentando a fiscalização e impedindo que ele alegue desconhecimento da lei”, relata a arqueóloga Mariana Neunann, do Iphan. Mas isso, segundo ela, não os salva para sempre: a equipe de inspeção é pequena, não daria conta de todos os problemas. Só haveria preservação eficaz se a população ajudasse.

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