Na contramão das coisas tortas

Documentário sobre o jurista Sobral Pinto traz a trajetória do homem que colocou a democracia acima das próprias ideologias

Gabriela Nogueira Cunha

  • Sobral em ação [Foto: divulgação]Aos 90 anos, o jurista Sobral Pinto (1893-1991) subiu ao palanque carioca das Diretas Já, em 1984, para discursar diante de 1 milhão de pessoas que se amontoavam. Naquele dia, ele fez o que sabia fazer de melhor: defendeu a democracia. “Todo poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido”, citou. O registro está presente no documentário Sobral – O homem que não tinha preço, com direção de Paula Fiuza, que estreia no próximo 1º de novembro.

    Foram arquivos secretos do Superior Tribunal Militar (STM), com defesas de presos políticos da ditadura, que motivaram a cineasta a fazer o filme. “Nas fitas, a voz que mais se ouvia em defesa de presos políticos era a dele. Uma voz destemida e indignada, denunciando a tortura no momento mais duro do regime militar. Aí eu vi que eu tinha um filme”, conta Paula Fiuza.

    O documentário retrata a trajetória de Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um advogado criminalista, cuja ética inabalável o fez desafiar duas ditaduras: a do Estado Novo e a civil-militar de 1964. Colocando a democracia acima de qualquer ideologia – ele era católico fervoroso e de orientação conservadora – o homem de chapéu e terno preto tornou-se um dos maiores defensores dos direitos humanos do Brasil. Foi sua plena convicção na justiça, por exemplo, que o fez responsável pela defesa do líder comunista Luiz Carlos Prestes, usando a seu favor a lei de proteção aos animais, em 1936.

    Ao iniciar o filme com uma narrativa em primeira pessoa, a diretora Paula Fiuza, neta do jurista, vasculhou suas memórias de adolescente, enquanto acompanhava a campanha das Diretas Já, em meio à multidão. “Vi meu avô levar 1 milhão de pessoas ao delírio no comício da Candelária ao citar, simplesmente, o artigo 1º da Constituição Federal. Nada poderia ser mais óbvio e mais brilhante. Naquele momento, eu me dei conta da dimensão do meu avô. Ele é venerado por quem o conheceu, mas quis mostrar que essa figura de coragem ímpar não era um super-herói, e sim um homem comum, real, possível, com falhas e fraquezas, e de um humor surpreendente”.

    Para a realização do documentário, a cineasta e sua equipe de pesquisadores trabalharam em cima do material que veio do acervo familiar, dos arquivos da TV Globo e do curta-metragem Heráclito Fontoura Sobral Pinto – Profissão Advogado, de 1979, dirigido por Tuna Espinheira.

    Para Antônio Venâncio, um dos pesquisadores, Sobral não foi tarefa fácil. “Trata-se de um personagem que caminha com a História do Brasil, mas, ao mesmo tempo, trata-se de um advogado, o que não é fácil de contar cinematograficamente”.

    Em tempos de efervescência política, a neta de Sobral Pinto se diz contente em poder mostrar quem era o homem que sempre esteve “na contramão das coisas tortas”, como se diz no filme. “Hoje, mais que nunca, falta Sobral”.

     

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