Pequenas mãos à obra

Premiado projeto no sertão do Cariri coloca meninos e meninas como gestores culturais nas mais diversas mídias

Cláudia Engler Cury e Isabelle de Luna Alencar Noronha

  • Todo o poder às crianças! Esta frase pode soar assustadora nas grandes metrópoles, onde pais e mestres estão preocupados justamente com a falta de limites que acomete a educação de crianças e jovens. Mas no sertão cearense, há mais de 15 anos um projeto demonstra que é possível promover a autonomia e o protagonismo desse grupo.

    Ali, são eles que mandam. Meninos e meninas são os gestores de uma série de atividades culturais, que vão de um museu a uma rádio educativa, passando por teatro, música, editora, cinema e até televisão.

    Tudo começou com a restauração da casa-grande da Fazenda Tapera, precisamente o lugar onde nasceu o povoado que daria origem à cidade de Nova Olinda, a 540 quilômetros de Fortaleza, hoje com 13 mil habitantes. O casarão foi transformado em museu – o Memorial do Homem Kariri. O objetivo era contar a história dos índios que primeiro habitaram o cariri e hoje dão nome à região. Seus fundadores foram o casal Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde, ambos músicos e pesquisadores da cultura popular. Enquanto investigavam a pré-história da região para enriquecer suas composições musicais, eles depararam com artefatos arqueológicos e fotografias de lugares importantes para a mitologia kariri. Com um considerável acervo nas mãos – que incluía máscaras, ferramentas, cerâmicas e urnas mortuárias – veio a idéia de fundar o memorial.

    Junto com ele, Alemberg e Rosiane criaram no lugar um centro cultural, com a intenção de dar mais opções à juventude da cidade. Mas se surpreenderam ao constatar que o público mais atraído pela casa eram as crianças. Daí em diante, o que se viu foi uma sucessão de novas idéias e projetos que tornou a “Casa-Grande”, como passou a ser chamada, uma referência nacional e até internacional nas áreas de educação não-formal e comunicação.

    A “escola de comunicação para a meninada do sertão” nasceu com poucos recursos, tentando apenas “administrar a presença das crianças na Casa e despertar nelas o desejo de voltar”. Um dos primeiros projetos foi o da rádio comunitária, no final de 1993. Inicialmente os programas eram transmitidos com uma caixa de som de cima do telhado nos fins de semana. Hoje a Rádio Educativa Casa Grande FM produz e transmite durante nada menos que 16 horas diárias. E o modelo do programa “De criança para criança” foi parar na África, implantado pelo próprio Alemberg em Angola e Moçambique com o apoio do Unicef.

    A parceria com o órgão da ONU gerou também um trabalho conjunto de combate ao tabagismo. Os meninos e meninas da Casa Grande fizeram uma pesquisa sobre a “lenda da caipora”, entrevistaram pessoas da comunidade, médicos, fumantes e não-fumantes, documentando todo o trabalho e reinterpretando a lenda que aparece sob diversas formas dependendo da região do Brasil. No Norte e no Nordeste, a caipora é uma índia pequena que fuma muito e pede aguardente, uma espécie de espírito que protege os animais da violência dos caçadores. Os meninos e meninas da Casa Grande “transformaram” a Caipora em uma defensora do antitabagismo.  O resultado foi um gibi e um vídeo educativo, “A turma da Casa Grande em: todos contra o fumo”, distribuídos nas escolas de educação formal.

    A linguagem dos quadrinhos, por sinal, teve papel importante no crescimento da Fundação Casa-Grande, ONG que abriga todos os projetos. A “Escola de Comunicação para a Meninada do Sertão” conquistou uma sede própria ao reformar o educandário que funcionava ao lado do casarão-museu. O prédio foi uma doação do governo do estado – atendendo a um projeto feito inteiramente em quadrinhos!

    Hoje, o prédio abriga uma verdadeira usina de produção multimídia. Estão lá o acervo de DVDs – com mais de mil títulos, principalmente clássicos do cinema –, uma gibiteca também riquíssima, laboratório de informática e uma editora, que publica as revistas em quadrinhos Turminha da Casa Grande e Os Kariri, além de um jornal mural mensal, com notícias, resenhas de filmes e livros, poemas e ilustrações.

    E não acaba aí. A Casa Grande produz peças teatrais e criou um conjunto de iniciação musical em que os meninos brincam de ser cantores, com instrumentos feitos de lata. Já gravaram e fizeram apresentações pelo Brasil. A primeira geração da bandinha cresceu e hoje forma a banda “Os Meninos da Casa-Grande”, tocando com instrumentos profissionais e se apresentando até no exterior.

    A TV Casa Grande, por sua vez, se orgulha de ter sido “o primeiro canal de televisão brasileiro feito de criança para criança”. De início, funcionou como uma TV de verdade, até ser lacrada pela Anatel (com direito a abertura de processo contra o adulto responsável, Alemberg). Mas eles não perderam a esportiva: criaram o 100 Canal – homenagem ao Canal 100, programa jornalístico e esportivo que era exibido antes dos filmes nos cinemas. E o das crianças também vai ao ar no cinema, antes dos filmes exibidos aos domingos no Teatro Violeta Arraes. São documentários sobre personagens e temas locais. Um deles, “Pingo – o Filme”, foi o vencedor do 2° Festival de Jovens Realizadores de Audiovisual do Mercosul, em 2005.

    Tamanho sucesso fez crescer o turismo na cidade, o que inspirou a Fundação Casa-Grande a abrir uma nova vertente de atuação. O projeto de pousadas domiciliares gera renda para as famílias: elas recebem visitantes em casa, organizadas na Cooperativa de Pais e Amigos da Casa-Grande (Coopagran).

    A porta de entrada para as crianças é o Programa Memória. Meninos e meninas da cidade aparecem no museu por vontade própria, e a única exigência para permanecer é estar matriculado na escola formal. No Memorial do Homem Kariri, aprendem a conhecer o museu, as peças indígenas, as formas como estas estão agrupadas, os quadros, as fotografias, a história da Casa e da região, prestando atenção ao seu colega: o que diz e como se porta, perguntando, conhecendo.

    Com o tempo, poderão ser guias no próprio Memorial. Mais do que meros repetidores do conhecimento, eles também vão a campo, transformados em pesquisadores. Acompanhados por Rosiane Limaverde, que também é arqueóloga, saem em expedições às formações rochosas e riachos da Chapada do Araripe, em busca de mais materiais para o museu. Volta e meia deparam com inscrições rupestres, ossadas e pedras polidas, em achados que são prontamente informados ao Iphan.

    Essas aulas práticas propiciam um diálogo entre o presente e o passado da região, entrelaçando leitura e interpretação de fontes. E os achados arqueológicos são o início de um aprendizado permanente, uma vez que os objetos permitem traduções infindáveis, inclusive as que remetem à cultura dos kariri, à flora e à fauna da região. Conteúdo que é então explorado nas mais diversas produções artísticas da fundação.

    Fora os professores convidados e responsáveis por oficinas, não há adultos no dia-a-dia da Casa-Grande. São os meninos e meninas que cuidam do espaço e o administram. O que inclui limpeza e zelo pelo material. As funções de cada criança são temporárias, pois todas elas devem ser “promovidas” de auxiliares a gerentes – estes têm o papel de responder por sua área de atuação e devem ensinar o que sabem aos companheiros. A mesma criança que recebe os visitantes no museu, explicando-lhes a cultura pré-histórica do homem da região, seus aspectos arqueológicos e antropológicos, também faz o programa de rádio, escreve no blog da internet, ajuda na elaboração de roteiros para rádio e TV ou desenha na confecção de gibis. Assim, elas aprendem a fazer fazendo, ou seja, unindo trabalho manual e intelectual, elaborando roteiros, pesquisando a cultura local. Brincando, trabalhando e estudando.

    Um ambiente como este propicia reflexões, dinâmicas e vivências que ajudam a interiorização de valores, identidade, auto-estima, autoconfiança, responsabilidade, solidariedade, convivência e cidadania. Por fim, meninos e meninas aprendem a ser, conhecendo a si mesmos e aos outros, respeitando limites éticos, buscando ser melhores em seus estudos, afazeres e amizades, dia após dia.

    Todos estão lá em busca de realizar sonhos que, na maioria das vezes, surgem de seu aprendizado na ONG: ser arqueólogo, trabalhar com artes, ser professor... e tantas outras possibilidades que a vivência naquele espaço oferece. As crianças são diferentes, mas se respeitam. E o fortalecimento da ONG é o objetivo que as une.

    Auxiliares, gerentes, guias de museu, documentaristas, radialistas, quadrinistas, músicos... as crianças, adolescentes e jovens da Casa-Grande seguem ensinando e aprendendo, praticando a grande lição deixada por Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”.

    Cláudia Engler Cury é coordenadora do Programa de Pós-graduação em História da UFPB.
    Isabelle de Luna Alencar Noronha é mestre em Educação e professora da Universidade Regional do Cariri (URCA).


    Saiba Mais - Bibliografia:

    BITTENCOURT, Circe (org.). O Saber Histórico na Sala de Aula. 3ª. ed. São Paulo: Contexto, 1998 (Repensando o Ensino).

    HERNANDEZ, Fernando e VENTURA, Montserrat. A organização do currículo por projetos de trabalho, o conhecimento é um caleidoscópio. 5ª. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

    PARK, Margareth Brandini e FERNANDES, Renata Sieiro (orgs.). Educação Não Formal, contextos, percursos e sujeitos. Campinas, SP: Unicamp/CMU; Holambra, SP: Editora Setembro, 2005.

    Saiba Mais - Sites:

    www.fundacaocasagrande.org.br

    http://www.overmundo.com.br/overblog/a-casa-e-deles

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