Para ler a aprender

Experiência com o uso de contos em sala aula motiva alunos a fazerem sua própria interpretação de episódios históricos

Getúlio Cunha e Eva Rodrigues da Silva

  • Acompanhar a concepção de um golpe dado por um espertalhão no Rio de Janeiro do século XIX ou a trajetória de um menino refugiado da Alemanha nazista são experiências a que os alunos podem ser conduzidos em plena sala de aula. Um jeito divertido de aprender História, com execução simples: a leitura de contos na escola. As narrativas ficcionais apresentam variados aspectos do mundo e da época em que foram escritas.
     
    De forma intencional ou não, todo texto literário oferece esses elementos em relação ao entorno do seu autor. Orientados pelos professores, os alunos podem perceber detalhes dos contos que trazem justamente essas informações. Com o cuidado de perceber, em primeiro lugar, que o conto não é um relato como os apresentados nos jornais, ou seja: não tem comprometimento com a realidade que retrata.

    Não se trata de usar esse recurso em substituição aos livros de História, mas de aproveitar suas descrições para dar início à apresentação ou à discussão de um determinado assunto. É impossível ler Machado de Assis, por exemplo, sem imaginar como era a cidade do Rio de Janeiro que ele tão bem descreve, com suas ruas e personagens.
     
    Como parte de uma proposta de melhoria do ensino fundamental e médio desenvolvida     pela Universidade Federal de Goiás (UFG), foram selecionados vários contos para serem trabalhados em escolas do município de Catalão. Os textos foram escolhidos em função dos temas e de sua forma narrativa. Eles deveriam ser capazes de prender o leitor do começo ao fim, envolvendo-o na trama dos seus personagens. No início, foram analisados contos relativamente curtos, para atrair os estudantes que não tivessem o costume da leitura, já que esse é um hábito cada vez mais distante da maioria dos alunos.
     
    Um dos contos utilizados foi “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto (1881-1922). O personagem Castelo narra sua trajetória ao amigo Castro entre um copo e outro de cerveja numa confeitaria. Recém-chegado ao Rio de Janeiro, sem dinheiro, ele se depara com um anúncio de jornal procurando um professor de javanês. Apesar de não saber uma palavra desse idioma, vê ali a solução dos seus problemas. Na Biblioteca Nacional, aprende alguns rudimentos de javanês para se candidatar ao posto. Castelo é contratado por um senhor, que por sua idade avançada não consegue aprender a língua. Sorte do farsante, que sabia pouco mais do que o alfabeto. Alvo de admiração por ser conhecedor de um idioma tão raro, ele acaba ficando famoso. É convidado para se tornar funcionário do Itamaraty, sendo designado para representar o Brasil numa conferência de linguística. A partir daí, sua carreira decola e ele chega ao cargo de cônsul em Havana.
     
    Entre os aspectos da sociedade brasileira do início do século XX, o escritor trata da situação do negro na sociedade pós-abolição, já que Castelo, nosso professor de javanês, era um mulato. Prova disso é o fato de se passar por um mestiço filho de javanês. O preconceito fica claro na afirmação de um ministro, de que Castelo não servia para a diplomacia, pois o seu “físico não se presta”. Preconceito e “branqueamento” estavam na ordem do dia: se o físico não prestava e criava limitações, o fato de saber javanês neutralizava parcialmente esta restrição.

    Um segundo tema que mereceu tratamento mais demorado em sala de aula foi a centralidade do Rio de Janeiro como capital e como centro urbano mais importante do país. Castelo não nasceu na cidade, mas foi atraído para ela.
     
     As dificuldades do personagem em busca de uma garantia mínima de sobrevivência também foram mencionadas: “Estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão”, escreve Lima Barreto. Uma imagem típica de quem não tem salário nem moradia fixa. O autor descreve ainda os vários tipos de nacionalidades que o Brasil abarca. “Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro”.
     
    Outro exemplo de conto utilizado, agora para uma aula de História Geral, foi “O refúgio”, da escritora Anna Seghers (1900-1983). Na Paris ocupada pelos alemães, uma mulher decide abrigar uma criança antes que os nazistas a capturem. O pai do menino é um refugiado alemão que foi preso. Ela chega a mentir para o marido, dizendo que o garoto é filho de uma prima. Desde o início, o marido se mostra descontente com aquela situação. Mas tudo muda quando ele começa a se revoltar com a invasão alemã. Num desabafo à sua mulher, acaba confessando sua admiração por aqueles que enfrentavam os nazistas, como, por acaso, o pai do menino que ajudavam. Nesse momento, a mulher lhe conta toda a verdade.

    O conto permite abordar a Segunda Guerra Mundial para além do que tratam os livros didáticos. A trama suscita uma discussão sobre o nazismo, mostrando, por exemplo, que nem todos os alemães aderiram ao movimento. O papel das mulheres na história também foi destacado em sala de aula. A personagem feminina, assim como a autora, é a figura central do conto. É ela que atua no dia a dia para conseguir alimentar sua família, enfrentando filas para obter os poucos víveres a que tinha direito. Desdobra-se para que aquele pouco pareça muito, mantendo a esperança por dias melhores. O cotidiano de um país em guerra também não poderia deixar de ser explorado como tema, tendo sido mencionado pelos alunos.
     
    No conto “A Maior Ponte do Mundo”, de Domingos Pellegrini (nascido em 1949), o autor escreve sobre a construção da ponte Rio-Niterói. Na análise em classe, foi possível observar a importância da ideia de progresso, de “Brasil pra frente”, no período. Era o início dos anos 1970, em pleno “milagre econômico”.

    A obra é relatada pelo viés dos trabalhadores que se dedicaram a um esforço exaustivo para tornar a realização possível. Nas várias companhias responsáveis pela construção, os engenheiros ou chefes de departamento diziam aos trabalhadores que “era uma questão de honra, a gente tinha de acabar a ponte, a nossa companhia nunca ia esquecer nosso trabalho ali naquela ponte orgulho nacional”.
     
    O objetivo do projeto era estimular a participação dos alunos e a reflexão sobre os textos. Aos professores caberia trazer o conteúdo histórico, introduzindo perspectivas e descrições que muitas vezes não eram tratadas em livros didáticos. Isso era feito por meio de aulas expositivas e outras interpretativas, com discussões feitas pelos alunos. Eles também construíram murais com imagens que remetiam às histórias narradas. No final, foram feitas avaliações individuais e coletivas.

    A experiência foi bem-sucedida e a maioria dos alunos gostou dos contos selecionados. Muitos se mostraram entusiasmados e perguntaram se poderiam trocar os contos com os alunos de outras salas. Os textos motivaram as mais diferentes participações. Ludmila Maria, do 9º ano, comentou: “Por trás da construção da ponte como idéia de nação, os chefes obrigavam os homens a trabalhar com sono e até ficar sem tomar banho para completar as horas extras; dois deles decidiram sair, mas tiveram que voltar na base do 38”

    Em “15 cenas de descobrimento de Brasis”, de Fernando Bonassi (nascido em 1962), um dos trechos escolhidos foi “Turismo ecológico”. No texto, o autor trata da colonização européia, que trouxe mudanças culturais e sociais para os nativos da América. Sobre esse processo, a aluna Jéssica comentou: “Não foi bom porque os portugueses queriam que eles rezassem como eles e largassem a sua cultura. O índio perdeu sua liberdade, suas crenças, seus costumes; era feliz, mas hoje vive mal e é discriminado. Na época, suas mulheres eram usadas pelos portugueses, enquanto eles eram escravizados”.
     
    A observação da jovem mostra como a literatura pode estimular os alunos a pensar por si próprios, mostrando que a História não é uma disciplina em que é preciso decorar informações, e sim entendê-las. “Estudar História assim é muito melhor”, resumiu uma das alunas.

    Getúlio Nascentes da Cunha é professor de História na Universidade Federal de Goiás (UFG), Campus Catalão.

    Eva Rodrigues da Silva é formada em História.


    Saiba Mais - Bibliografia:

    GOTLIB, Nádia Batella. Teoria do Conto. 11ªª ed. São Paulo: Ática, 2006.

    MORICONI, Ítalo (org.). Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

    RENNER, Rolf G. E BACKERS, Marcelo (orgs.). O Melhor do Conto Alemão no Século 20. Porto Alegre: L&PM, 2004.

Compartilhe

Comentários (0)