O professor do futuro

Como a popularização das tecnologias digitais já influencia o trabalho dos mestres.

Sergio Luiz Prado Bellei

  • Computadores, laptops, e-readers: é a democratização do conhecimento. Os desafios para os professores se tornam enormes.

    Um livro volumoso e com capa de couro seria ótimo para afiar navalhas. Já um livro fino servia “para equilibrar uma mesa, quando colocado como suporte para uma perna defeituosa”. Essas seriam as utilidades de um livro impresso segundo o escritor e humorista norte-americano Mark Twain (1835-1910). Para ele, um livro grosso e antigo, com fecho, era “a melhor coisa do mundo para ser atirada em um gato barulhento”. Essa visão bem-humorada se apoia em uma inversão de valores: chama-se a atenção para o que é aparentemente pouco significativo de uma obra, ou seja, o seu volume e o seu peso.

    A ironia de Twain se refere ao constante desrespeito sofrido pelo livro. A força e o valor do livro sempre estiveram relacionados à sua capacidade de armazenar e fazer circular o conhecimento considerado relevante. Particularmente após a invenção da imprensa, que permitiu a produção mecânica de grandes quantidades de volumes idênticos, o livro sempre foi visto como o único repositório de tudo o que foi feito de mais marcante ao longo da História. Não surpreende, portanto, que ele tenha, ainda hoje, uma imagem idealizada; a de um símbolo do que o homem fez de melhor nas artes e nas ciências.

    O peso e o volume, destacados por Twain, pouco significam. E essa questão está presente na grande mudança que afeta o livro atualmente. Graças ao aparecimento das novas tecnologias digitais, tornou-se possível fabricar livros que acumulam conteúdo de uma forma alternativa. Nesses “livros etéreos”, é possível armazenar conhecimento e informação em quantidades imensas. Um laptop, que tem mais ou menos o tamanho de um livro, pode conter uma biblioteca inteira. Porém, o mais significativo é que esses livros sem peso viajam em alta velocidade pela Internet. Também podem se tornar imediatamente acessíveis a quem tiver em mãos, em qualquer lugar do mundo, um e-reader, ou seja, um leitor de livros eletrônicos ligado à rede.

    Com o avanço tecnológico, o livro mudou de status: deixou de se restringir às bibliotecas tradicionais e hoje pode ser lido nas “bibliotecas sem paredes” espalhadas pelo mundo. Migrou rapidamente do que conhecemos como espaço, o lugar que abriga peso e volume, para o ciberespaço, aquela região imaterial que existe entre duas linhas telefônicas: um lugar feito não de átomos, mas de bits e bytes, os elementos que constituem as realidades virtuais.

    O principal instrumento capaz de acelerar essa migração para o ciberespaço é o Google. Trata-se de um empreendimento de grande poder econômico: conseguiu estabelecer parcerias com mais de quarenta bibliotecas e mais de trinta mil editoras de livros impressos. Com essas associações, a empresa já digitalizou e disponibilizou na rede mais de dez milhões de volumes. Boa parte desses textos está em inglês, o que ajuda a consolidar esse idioma como forma dominante de expressão. Nem por isso a iniciativa de transformar livros impressos em uma enorme biblioteca virtual deixa de ser louvável.

    Há aqueles que se opõem a esse avanço, principalmente por razões econômicas: cinco editoras e uma associação de autores de livros impressos, todas estrangeiras, já processaram o Google por ter colocado na rede livros supostamente protegidos por direitos autorais. São medidas jurídicas que apontam para a necessidade permanente de atenção e vigilância em relação a essa poderosa agência de comercialização da informação. Se, de um lado, o conhecimento fica disponível para mais pessoas de outro, o monopólio do conhecimento global concentrado majoritariamente em uma única agência acaba por gerar desigualdades na informação. O Google não trata da mesma forma o conhecimento de autores literários das culturas centrais, como Shakespeare, e autores de culturas periféricas, como Guimarães Rosa.

    Essa migração em massa do livro impresso para o ciberespaço traz profundas mudanças em áreas como a cultura e a educação. É como se quase todo o conhecimento relevante da humanidade, anteriormente selecionado e aprisionado em poucos lugares em virtude do seu peso e volume, fosse de repente liberado para se espalhar pelo mundo.

    Um brasileiro que, viajando com seu laptop ou seu e-reader pelo interior do Brasil, quiser se distrair lendo um romance, já não precisa carregar o livro ou procurá-lo em uma biblioteca. Pode simplesmente baixá-lo da Internet. Alunos com seus laptops na sala de aula podem surpreender os professores mais conservadores, que não entenderam ainda o poder dos novos meios digitais. Um professor de Geografia que, por exemplo, optar pelo uso de um projetor para mostrar uma coleção de slides de uma região qualquer poderá ser surpreendido por um aluno que, usando seu laptop, venha a acessar a Internet e conseguir, em questão de segundos, imagens mais atualizadas do que as coletadas pelo mestre.
    É bem possível que a educação e o ensino tenham que ser reformulados. Deve-se pensar na passagem de um conhecimento mais seletivo para um menos seletivo. Por isso, a pesquisa deve ser feita de uma forma rigorosa. No passado, essa era uma das principais funções do livro: abrigar entre suas capas um conhecimento escolhido a dedo por sua relevância.

    O fato é que não existe uma ferramenta capaz de filtrar o conhecimento que hoje está na Internet. Na época em que não existia ciberespaço, tornar-se um autor significava passar por uma seleção mais ou menos criteriosa. Com a Internet, mais  democrática, qualquer usuário que saiba manejar minimamente os recursos dos computadores pode se tornar autor, por exemplo, de um blog. Suas ideias, sejam elas pobres ou valiosas, podem ser facilmente disponibilizadas na rede. Dizem os pessimistas que a web pode bem ser um grande esgoto, com lixo na entrada e na saída. Mas qualquer internauta experiente sabe que pode encontrar, navegando, um sem-número de informações valiosas.
    Como o volume de dados sobre um determinado assunto na rede é imenso e desprovido de critérios claros de seleção, o usuário precisa de mais tempo e habilidade para selecionar o que é essencial numa pesquisa. Provavelmente, este é um dos maiores desafios da educação, no presente e no futuro.

    O professor que tem em mãos um livro e fala a seus alunos a partir dele, percorre um terreno mais ou menos seguro. Sua missão é fazer com que os alunos venham a dominar saberes. Na era digital, esse conhecimento já não está mais centralizado na figura do mestre. Fora da sala de aula e longe do controle do professor, ele passou a ser manipulado também pelo aluno. Por conta do excesso de informações, não só é praticamente impossível hierarquizar qualitativamente essas noções como também é necessário pensar em uma nova função para o professor, além da de detentor e transmissor de conhecimento.

    Levar a Internet para dentro da sala de aula pode ser uma saída para que os alunos vejam o ciberespaço de uma forma crítica. A partir da busca de um tópico de interesse – uma obra literária, um texto científico, etc – os alunos podem estudar os primeiros resultados obtidos. O professor deve motivar sua turma a examinar as informações, refletindo sobre o tempo necessário para uma pesquisa mais satisfatória, a quantidade de conteúdo irrelevante, a diferença de qualidade do conteúdo entre um site e outro, e as possíveis razões para a existência dessas diferenças. Para isso, é necessário investigar quem foi o responsável pela divulgação da informação, que pode ser desde uma universidade até um internauta curioso.

    É importante que o professor ensine a seus alunos como encontrar a informação, como separar o joio do trigo, como achar a agulha no palheiro da rede. Já não se pode mais apenas ensinar o conhecimento que vem de compartimentos fechados, mas ajudar a desenvolver formas de encontrar o conhecimento transferido para fora. Talvez seja possível pensar o novo professor não só como um mestre que ensina, mas também como um maestro que guia, orienta e aponta caminhos. Se considerarmos que o prefixo “ciber” também significa “orientador” e “timoneiro”, talvez seja a hora de surgir o ciberprofessor. Com a passagem do livro pesado ao livro incrivelmente leve das bibliotecas sem paredes, o sistema educacional precisa aprender a se reinventar como uma cibereducação de maestros capazes de orquestrar os novos saberes.

    Os desafios a serem enfrentados pelos ciberprofessores são enormes. A democratização do conhecimento pode bem tornar obsoletas algumas funções do professor tradicional, que era o senhor de um conhecimento a ser transmitido ao aluno. O professor deve se reinventar como maestro e assumir, prioritariamente, a função de orientar o aluno sobre onde encontrar a melhor informação e como organizá-la para atender às necessidades do bom ensino.

    Sergio Luiz Prado Bellei é professor de Teoria Literária e Cultural na PUC-RS e autor de O livro, a literatura e o computador (Educ, 2002).

    Saiba Mais
    CASTELLS, Manuel. Fim de Milênio. São Paulo: Paz e Terra, 2009.
    DARNTON, Robert.  A questão dos livros. São Paulo: Cia das Letras, 2010.
    EISENGERG, José e CEPIK, Marco. Internet e Política: Teoria e Prática da Democracia Eletrônica. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2002.

    Internet
    O computador na sociedade do conhecimento.
    http://rxmartins.pro.br/teceduc/computador-sociedade-conhecimento.pdf

    Filmes
    “Fahrenheit 451”, de François Truffaut, 1966.
    “The Matrix”, de Andy & Larry Wachowski, 1999.

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