O agora como mestre

Em vez de informações enciclopédicas e ordem cronológica, jovens aprendem História a partir de um cenário que conhecem bem: seu próprio presente

Maria Thereza Didier

  • “Professora, qual a importância de saber sobre o passado se eu posso morrer amanhã por causa de um tênis?” A pergunta inquietante de uma aluna nos leva a pensar sobre o ofício de ensinar História em pleno século XXI. Numa sociedade em que reina o imediatismo, o passado muitas vezes é associado a coisa velha, distante, inútil, descartável. Como, então, seduzir o jovem para este aprendizado?

    Tudo hoje parece fluido e fragmentado, as certezas evaporam e é o espetáculo que move as sensibilidades. Neste tempo, chamado por alguns de “pós-moderno”, desaparecem as fronteiras que separam a alta cultura da cultura de massa. As propagandas de TV, os sites na Internet, os outdoors, os filmes, as novelas, os videoclipes, as revistas semanais, as redes de fast-food e outros objetos de consumo formam uma rede simbólica que influencia todas as tribos e assume lugar central na vida social. Textos e imagens são divulgados e consumidos em grande escala, em trocas culturais facilitadas pelas tecnologias da informação. A mídia permite movimentos globais antes impensáveis: sociedades com diferentes histórias e modos de vida estão interligadas.

    Nesse cenário, não é possível imaginar que os alunos tenham as mesmas referências de uma ou duas décadas atrás. Também não pode ser igual o papel da escola. Projetada como espaço de saber, ela já não contempla o rápido e incerto mundo contemporâneo. E esta parece ser a chave do desafio atual: em vez de contrapor-se ao admirável novo mundo multimídia, é preciso reconhecê-lo como parte da História. Ou seja: mais do que recursos didáticos ou elementos complementares ao ensino, as diversas produções culturais devem ser entendidas como expressões históricas. Valorizando seu próprio tempo e seu próprio olhar como elementos da História, os jovens têm a chance de começar a compreender e valorizar outros tempos, tão importantes quanto o deles.

    “O que vemos é constantemente modificado por nosso conhecimento, por nossos desejos, nossos sonhos, pela cultura, pelas teorias científicas mais recentes”. Esta frase, do neurologista britânico Oliver Sacks, está presente no documentário “Janela da Alma” (de João Jardim e Walter Carvalho), que explora as diferentes percepções do mundo de vários entrevistados com alguma deficiência visual, de leve miopia à cegueira completa. Não por acaso, foi este o filme escolhido como ponto de partida para um trabalho com alunos de graduação de Pedagogia da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe) em 2007. A intenção era promover uma conexão entre narrativa, história e imagem.

    Com base na frase de Sacks e na leitura de alguns textos, partimos para um trabalho de pesquisa, com a compreensão de que as imagens não “revelam” os acontecimentos, mas estão entremeadas com nossos modos de olhar e construir significados para o mundo. Divididos em grupos, os alunos experimentaram abordar um mesmo tema geral – a cidade do Recife – por meio de recortes diferentes. Sua missão era produzir e editar filmes curtos com a ajuda de um programa de computador. Para isso, saíram a campo e construíram seu próprio discurso estético.

    A experiência apresentava dificuldades e encantamentos de primeira viagem. As dificuldades estavam no manejo do programa e nas idas e vindas aos lugares públicos que guardavam possíveis registros do que se queria narrar. Com o olhar direcionado para a pesquisa, os estudantes percorreram o Arquivo Público do Estado, o Museu da Imagem e do Som, a Fundação Joaquim Nabuco, a Biblioteca do Estado, o Museu da Cidade do Recife. O retorno desses percursos trazia à tona outros temas para debate. O que fazemos das nossas memórias e das nossas histórias? Onde encontrar registros da cidade que não foram guardados nesses espaços?

    Além de arquivos, bibliotecas e museus, os estudantes precisaram investigar lugares da cidade que tivessem relação com os subtemas escolhidos: violência urbana, modos de habitação, a história das salas de projeção de cinema, lendas urbanas, violência nos jogos infantis, violência contra a mulher, cineclubes alternativos, mercados públicos. A preocupação central não era buscar a origem cronológica de cada aspecto estudado, mas sim olhar para os fragmentos do passado que vêm à tona quando se enfocam questões do presente.

    Os vídeos apresentaram novos cenários da cidade, em diferentes narrativas de suas histórias, marcadas por lembranças e esquecimentos. Acontecimentos importantes para uma geração passam despercebidos para outras. Antigos cinemas, por exemplo, desapareceram. Seus prédios foram transformados em supermercados. Assim como os olhares, os acontecimentos também são fruto da narrativa escolhida. Ao produzir os filmes, os estudantes perceberam que estava em suas mãos criar novos significados para as histórias da cidade, tecendo relações entre o presente e o passado, revendo seus sentimentos de pertencimento ao lugar. Eram eles os autores da narrativa. E com isso aprenderam, na prática, que o conhecimento histórico é uma construção social relacionada ao nosso presente, e não a revelação de um passado sem significado para os dias de hoje.

    Ainda que adotem linguagens diferentes, os registros históricos são produções culturais como os filmes, as poesias ou as canções. Todos eles têm recortes temporais e temáticos. Nem sempre essa compreensão aparece no currículo escolar. Durante muito tempo, o significado mais comum da disciplina História estava associado ao estudo de datas, fatos e pessoas “ilustres” ligadas a acontecimentos de um passado remoto. Organizados de forma linear, heróis, batalhas ou sistemas econômicos preenchiam os livros de tal maneira que as pessoas comuns não se sentiam fazendo parte da História. Os livros não contavam as histórias de pessoas como nós. Ao perguntarmos sobre o significado de História para pessoas nas paradas de ônibus, nos supermercados e até mesmo nas escolas, a maioria talvez a defina como o estudo de fatos importantes que aconteceram em um passado bem distante do nosso cotidiano. Esses fatos “importantes” pareciam emergir dos documentos, principalmente os escritos, e eram apresentados como verdades inquestionáveis.

    De certa forma, talvez os alunos tenham alguma razão em desconfiar do ensino de História, se ele se limita a constatar que o antes era diferente do agora. Não pensarão o mesmo se aprenderem (e vivenciarem) que “documento” não é uma prova cabal do que de fato ocorreu. Documentos históricos podem ser também os vídeos que produzem, os sites que visitam, as propagandas que conhecem de cor, as tatuagens e os piercings que ostentam, as músicas digitais que compartilham. O mesmo olhar pode ser aplicado às fontes do passado: elas têm linguagens específicas, objetivos, públicos-alvo. São produtos culturais que, como os de hoje, dizem respeito à memória e à identidade dos indivíduos e dos grupos sociais. 

    Assim como alguns filmes ou novelas iniciam sua narrativa no tempo presente e depois abordam vários tempos passados, o historiador e o professor também podem se valer desse recurso. O cotidiano começa a ser visto como ponto de partida para a compreensão histórica: tudo o que as pessoas produzem no seu dia a dia pode ser tomado como possibilidade para se pensar a História. Inclusive o tênis de uma aluna e sua sensação de fragilidade diante da violência urbana.

    Maria Thereza Didier é professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco e autora, com Antonio Paulo Rezende, de Rumos da História: História Geral e do Brasil (São Paulo: Atual, 2001).

    Saiba Mais - Bibliografia:

    COSTA, Marisa Vorraber. “A pedagogia da cultura e as crianças e jovens das nossas escolas”. Jornal A Página, nº 127, ano 12, outubro de 2003. www.apagina.pt/arquivo.

    PAIVA, Eduardo. História e imagem. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

    SALIBA, Elias Thomé. “Experiências e representações sociais: reflexões sobre o uso e o consumo das imagens”. In Circe Bittencourt (org.). O saber histórico na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2006.

    SILVA, Marcos e FONSECA, Selva Guimarães. Ensinar História no século XXI: Em busca do tempo entendido. Campinas: Papirus, 2007.

    Saiba Mais - Filme:

    “Janela da Alma”, de João Jardim e Walter Carvalho. Brasil, 2002.

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