Lupa na mochila

Em site interativo, estudantes viram detetives e descobrem o Brasil do século XIX por meio de documentos

Claudia Bojunga

  • Escrever o pedido de alforria para uma cativa que sofre nas mãos do seu senhor, ajudar escravos rebeldes a pedir condições de trabalho mais justas e providenciar o retorno de libertos à África. Quem entra em ação nestes casos são alunos de ensino médio e fundamental do século XXI, mas as histórias aconteceram há quase 200 anos, quando o Brasil ainda era um país escravocrata. Estas são algumas das “missões” propostas pelo site Detetives do Passado aos estudantes.  

    Os alunos têm à sua disposição oito situações diferentes em que a tarefa é incorporar o papel de alguém que viveu no passado, como um escravo, por exemplo. Para ambientar o aluno nesse outro tempo, são apresentados documentos de época e informações sobre o contexto histórico.  Desta forma, telas de Debret e cartas do século XIX funcionam como pistas. Mas quem pensa que os participantes encontrarão uma realidade virtual cheia de efeitos especiais como nos videogames atuais engana-se. As principais características necessárias para realizar as atividades do site são a curiosidade e uma boa aptidão para a leitura e a escrita.

    Para ajudar a escrava Liberata a conseguir sua liberdade, o estudante atua como advogado. Seu desafio é preparar o requerimento que será levado à Justiça. Na seção chamada “Passo a passo”, o aluno encontra dicas que vão ajudar a montar o caso. Conhece a vida da cativa que sofrera abusos sexuais de seu senhor desde muito cedo e passa a entender um pouco sobre as leis vigentes naquele ano de 1813. Na época, era difícil convencer um juiz de que o escravo tinha o direito assegurado de comprar sua própria liberdade. Tanto assim que no século XIX foram contabilizadas 402 ações de liberdade na Corte de Apelação do Rio de Janeiro, e em mais da metade os cativos saíram vitoriosos.

    O detalhe instigante da iniciativa é que os casos sugeridos são baseados em fatos reais – tudo resultado de uma criteriosa investigação histórica. “Muitas vezes, a história pode parecer abstrata. Expressões como ‘modos de produção’ nem sempre são compreendidas. Quisemos dar uma concretude maior para os alunos”, afirma Keila Grinberg, autora do projeto junto com Anita Almeida, ambas professoras do Departamento de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). E nada como se imaginar na pele do outro para entender sua experiência: “As oficinas do site colocam o aluno no lugar de alguém que viveu aquela época”, explica.

    Os estudantes passam de meros coadjuvantes nas aulas de História a protagonistas.  “O próprio aluno precisa conectar as informações. Elaboramos perguntas em vez de respondê-las. Não contamos simplesmente como as coisas se passaram, como faz um livro didático”, observa Anita.  

    No Rio de Janeiro, a professora Camila Penafiel, da Escola Nova e da Escola Israelita Brasileira Eliezer Steinbarg-Max Nordau, já conhece a ferramenta e pretende usá-la em breve com seus alunos. “Acho que sai do esquema da aula expositiva com o aluno receptor, e é estimulante ao falar de pessoas comuns”, observa Camila.

    O projeto tenta aproximar os estudantes do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio de um mundo que pode parecer-lhes muito distante.  “No caso da ‘Petição do sangrador’, eles ficam conhecendo uma profissão que não existe mais e passam a entender como ela é”, exemplifica Keila. Descobrem que a denominação se refere a alguém especializado na “arte das sangrias”, a técnica de extrair o sangue de pacientes com bisturi ou com sanguessugas. A prática, conhecida no Brasil desde o século XVI, era indicada para várias doenças.  Tudo isso o aluno aprende enquanto “investiga”.  Neste caso, a tarefa do participante é redigir o pedido de um negro forro que quer fazer um teste para obter a licença oficial de sangrador. Não era necessário ser médico para fazer sangrias, mas era obrigatório ter autorização para exercer o ofício.

    Além de tentar transportar os alunos para o passado, o projeto os coloca no papel de historiadores. As pesquisadoras fizeram questão de disponibilizar documentos que estão em arquivos. Assim, os jovens podem compreender como se faz História, enquanto adquirem conhecimento. No caso de Liberata, é possível consultar um trecho do relato do viajante francês Auguste Saint-Hilaire (1779-1853) sobre o Desterro, hoje Florianópolis, região onde a escrava vivia. O estudante tem acesso também à ação de liberdade de Liberata. Sobre o sangrador, é possível ler a petição verdadeira com sua linguagem jurídica, cujos originais estão no Arquivo Nacional.

    O professor de História Paulo Leal trabalhou as oficinas do site em sala de aula com duas turmas de 2º ano do ensino médio, no Colégio T.T.H Barilan e no Colégio Metropolitano, no Rio de Janeiro, e achou a experiência bastante positiva. “Raramente se vê este tipo de projeto com acesso a documento, de forma estruturada e conteúdo de livro didático, voltado para o ensino médio e fundamental.
    Normalmente, quem faz uso de fonte primária é o pesquisador de mestrado e doutorado”, observa. Segundo Leal, muitos alunos não tinham noção de como os documentos estão preservados e onde se encontram. “Com a atividade, eles percebem que a História não tem verdade absoluta, e que é fruto de uma interpretação, de análise”, diz o professor.

    Mas os documentos escritos não são o único tipo de pista deixado pelas pesquisadoras para os alunos. Imagens e mapas também têm vez. Um quadro de Debret ilustra como era feita a sangria, por exemplo. Outro, do mesmo autor, mostra que o procedimento era realizado até em barbearias.

    Em comum, os casos têm o tema da escravidão no século XIX. As narrativas foram escolhidas com a preocupação de fugir dos lugares-comuns sobre o assunto, como a visão de que os escravos sempre foram vítimas.

    Liberata escapa a este estereótipo, já que pôs o seu senhor no banco dos réus. A posição ativa dos escravos no período também fica clara pela ação do grupo de rebeldes do Engenho Santana, na Bahia, no século XVIII, um outro caso do site.  Os revoltosos mataram o feitor do engenho e paralisaram a produção de cana durante dois anos. Depois de um período em conflito com o senhor, decidiram propor um tratado de paz em que listavam suas exigências. Pediam as sextas e os sábados livres, um pedaço de terra para cultivar seus alimentos e autorização para comemorar seus feriados e festas religiosas. A função do estudante, neste caso, é, no papel de um cativo, elaborar uma carta destinada ao senhor com todas as reivindicações do grupo.

    “Para os alunos, foi uma surpresa saberem que os escravos não eram passivos. Boa parte dos livros didáticos apresenta o escravo sob a chibata do feitor, sem brecha para ser agente de sua história. Com a atividade, eles viram que os negros tinham voz e uma dinâmica própria”, relata Leal. “A ideia é aproximar a discussão historiográfica que está acontecendo na academia do ensino nas escolas”, afirma Keila, que, assim como Anita, leciona Metodologia de Ensino de História.

    Segundo as autoras, Detetives do Passado foi criado não só para ajudar os alunos, mas também para melhorar a forma de ensinar a disciplina. A coordenadora de História do Colégio de Aplicação da Uerj, Sonia Wanderley, apresentou o projeto a alunos de Licenciatura e aprovou a iniciativa: “O site ajuda a ultrapassar o ensino baseado na memorização de personagens e eventos. Quem está aprendendo a dar aulas encontra uma ferramenta que permite que o professor não seja um mero repetidor de conteúdo”.

    Funcionando há mais de dois meses, o site deve contar em breve com uma segunda etapa sobre outro tema, ainda não definido. As pesquisadoras querem, primeiramente, aperfeiçoar o que for possível. Realizado no Núcleo de Documentação, História e Memória (Numen) da UniRio, com financiamento da Faperj, o projeto produziu ainda 900 CD-Roms. Eles funcionam exatamente da mesma maneira que o site e serão distribuídos para as instituições que não têm acesso à Internet.

    Na rede ou por meio dos CDs, ao se tornar um detetive do passado, o aluno conta com fragmentos para compor um cenário de um outro tempo. No lugar de um mundo virtual pronto, como vê nos jogos eletrônicos, ele é obrigado a desenterrar os acontecimentos de outras épocas a partir de vestígios e descobre um elemento fundamental para se fazer História: a imaginação.

    Saiba Mais - Bibliografia

    LAGOA, Ana, GRINBERG, Keila e GRINBERG, Lúcia. Oficinas de História. Belo Horizonte: Dimensão, 2000.

    Saiba Mais - Internet

    Detetives do passado
    www.historiaunirio.com.br/numem/detetivesdopassado

    Para comentários, críticas e sugestões
    www.detetivesdopassado.blogspot.com/

    Para interessados no CD-Rom:
    numenunirio@gmail.com

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