Ensino pela intuição

Mais que qualquer outra disciplina, o desenho era para Rui Barbosa, a que poderia preparar melhor os estudantes brasileiros para o mundo industrializados

Felipe Freitas de Souza

  • Alguns anos antes da Abolição, quando a Europa desfrutava dos benefícios da industrialização, nem todos estavam preocupados em fazer o Brasil deslanchar. Mas, ainda na década de 1880, alguns homens se voltavam para o futuro. Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923), por exemplo, achava que a educação era algo imprescindível para a vida em sociedade, e que o maior mérito do ensino era poder formar sujeitos capazes de servir à coletividade de forma produtiva. Sua principal crítica ao sistema dizia respeito ao fato de que as poucas vagas em escolas de bom nível eram reservadas para uma elite que, em muitos casos, não aplicaria os conhecimentos adquiridos. Para ele, a solução de boa parte desses dilemas estava na valorização de uma disciplina que ajudaria o novo trabalhador do final do século a desenvolver outras habilidades: o Desenho.

    Jurista, escritor, tradutor e orador, Rui Barbosa atuou em várias frentes, tanto no Império como no início da República. Foi eleito Deputado Estadual (1877) e depois Senador (1890) pela Bahia, e empossado como Ministro da Fazenda na Primeira República. Famoso pelo seu domínio da língua portuguesa – sua nomeação para assumir a cadeira de Machado de Assis na Academia Brasileira de Letras não foi à toa – ele também era detentor dos mais diversos conhecimentos. Tanto que deu grandes contribuições para a educação no Brasil.

    Uma delas foi traduzir, em 1886, o livro Primeiras lições de coisas, do pedagogo norte-americano N. A. Calkins, que está entre as mais importantes obras que falam sobre o método “intuitivo” de ensino. De acordo com essa linha pedagógica, o importante era educar a partir dos sentidos do estudante: era o primeiro método em que se apresentava tanto diretrizes para a organização escolar quanto para o processo educativo.

    Formar quem aspirava ao mercado de trabalho era, há tempos, uma preocupação de vários grupos da sociedade brasileira. Uma das instituições que mais atuou nesse sentido foi o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro – que inspirou instituições semelhantes em várias cidades do país ao longo do Segundo Reinado. Fundado em 1856 pela Sociedade Propagadora das Belas Artes do Rio de Janeiro e dirigido pelo arquiteto Béthencourt da Silva (1831-1911), o Liceu se colocou como um projeto paralelo à Academia Imperial de Belas Artes, também fundada na capital, em 1822. Enquanto a Academia formava para as belas-artes, o Liceu formava para a chamada arte aplicada à indústria.

    Foi no Liceu carioca que Rui Barbosa começou a procurar modelos e formular idéias em relação à educação profissional, quando publicou Reforma do ensino primário e várias instituições complementares da instrução pública (1882 – lançado como livro em 1883). Seu conteúdo tinha como principal preocupação a formação do trabalhador, criticava o decreto de 19 de abril de 1879 (que reformava a instrução primária, secundária e superior) e apresentava como destaque os Pareceres que precediam o texto principal. Neles, o autor se esforçava para relacionar as políticas educacionais do século XIX, tomando como base centenas de obras estrangeiras, e propor reflexões – até hoje úteis e válidas – sobre as instituições escolares.

    Para o jurista e orador, as instituições de ensino no Brasil não estavam cumprindo a função de equiparar o status da nação com o que muitas outras haviam atingido no cenário econômico mundial. As Exposições Internacionais – eventos que reuniam delegações de diversas nações para ali exporem suas conquistas sociais e que ocorriam desde 1851 - procuravam divulgar as principais conquistas industriais das mais diferentes civilizações. Consultando os documentos e relatórios gerados por essas mostras, Rui Barbosa percebeu que muitos países haviam aumentado e melhorado sua produtividade devido a novos rumos que haviam imposto aos seus sistemas educacionais.

    Mas que transformações poderiam ser feitas nas instituições de ensino brasileiras para que elas pudessem contribuir decisivamente para a sociedade? Dentre outras mudanças sugeridas por Rui Barbosa, a inclusão da disciplina Desenho seria um dos grandes avanços. Em conferência realizada na sede do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, em 23 de Novembro de 1882, ele defendeu o seguinte:

    “Que agente é esse, capaz de operar no mundo, sem a perda de uma gota de sangue, essas transformações incalculáveis, prosperar ou empobrecer Estados, vestir ou despir aos povos o manto da opulência comercial? O Desenho, senhores, unicamente, essa modesta e amável disciplina, pacificadora, comunicativa e afetuosa entre todas: o desenho professado às crianças e aos adultos, desde o jardim de infância até a universidade, como base obrigatória na educação de todas as camadas sociais.”

    De acordo com os textos didáticos consultados por Rui Barbosa, o desenho precede a escrita. Levando-se em conta os preceitos do método intuitivo, o estudante precisava ter seu desenvolvimento natural respeitado: devia aprender a desenhar antes de escrever. Desenhar ajudava, inclusive, no aprendizado da escrita, uma vez que a própria humanidade seguiu esse percurso evolutivo. Afinal, o desenho é um dote acessível a todos os homens e nunca foi, desde os primórdios da História, um privilégio dos artistas. Ele requer que a mão e os olhos do aluno sejam educados para que possam apreender o mundo através da observação e do dom natural de se fazer ilustrações.

    Para o jurista baiano, o ensino primário precisava ser difundido em todas as províncias brasileiras e a disciplina Desenho devia ser obrigatória em todas as escolas primárias. O estudo da matéria formaria todos os estudantes para o trabalho industrial e, consequentemente, aumentaria as chances do Brasil de obter maior visibilidade nas exposições internacionais. Entre os planos de Rui Barbosa estava a fundação, no município da Corte, da Escola Normal Nacional de Arte Aplicada, que formaria professores para ministrar aulas de desenho e serviria de modelo para outras instituições. Essa escola organizaria e dirigiria as escolas de arte aplicada que seriam fundadas nas províncias.

    Segundo os Pareceres de Rui Barbosa, os vários países que serviram de modelo para a elaboração de seus projetos de educação profissional seguiram diretrizes diferentes. Mas o que importava para o escritor era indicar caminhos para a difusão da disciplina nas escolas brasileiras. A educação por meio do ensino do ensino do Desenho ajudava o estudante a desenvolver o seu poder de observação e de execução – o que justificaria sua utilidade para a educação profissional.

    A Reforma de Barbosa, que foi lida por muitos e até pelo Imperador, acabou não sendo executada. Os ecos dos Pareceres podem ser percebidos não só em outros projetos posteriores, como em textos escritos por quem pensava as questões ligadas à educação. Apesar de tudo, o legado que o jurista deixou é de que se deve fazer um esforço contínuo no intuito de sugerir rumos para a educação nacional, profissional e regular, tendo em mente a realidade internacional e os recursos disponíveis.

    Felipe Freitas de Souza é autor da dissertação “Arte e Indústria: Justificativas do Ensino de Desenho nos Pareceres de Rui Barbosa” (CEFET-MG, 2009).

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