Do livro para o violão

Como ensinar a História do Brasil por meio de canções

Miriam Hermeto e Ricardo Lima

  • Em sua música popular, o Brasil sempre contou com verdadeiros cronistas da sociedade. Essa tradição é uma rica fonte para pesquisas e estudos históricos. Mas pode ser mais explorada no ambiente escolar.

    Não que esta seja uma idéia nova. Desde a década de 1980, quando ocorreram importantes transformações nas práticas e nos instrumentos didático-pedagógicos, o uso de fontes diferenciadas, entre elas a música, tornou-se uma tendência para a abordagem de assuntos ligados à História brasileira recente (na edição nº 20 da RHBN, veja o artigo “Lições do caipira”, sobre a utilização pedagógica da música sertaneja). Mais do que apenas ensinar, as canções capturam a atenção dos alunos, seduzem pela sensibilidade e podem até reduzir tensões em sala de aula.

    No entanto, usar a música para ensinar História tem lá suas dificuldades. Na maioria das vezes, essas práticas esbarram em limites ligados à natureza da linguagem musical. Lidar com canções não é o mesmo que lidar com fontes escritas, pois a música precisa ser escutada. O estudo que se resume à leitura das letras não favorece a construção de sentidos sobre o tema e o documento. A música é som e arte: precisa ser ouvida e usufruída com deleite. Para articular essas duas dimensões, o formato aula-show pode ser uma proposta interessante.

    A aula-show é, ao mesmo tempo, explicativa e prazerosa. Nela, o ensino de um conhecimento se mistura com a apresentação pautada pelo viés artístico. A condução da atividade é feita como um show, composto de canções relacionadas a algum tema histórico. Por meio das canções e das explicações sobre seus significados históricos, os alunos podem compreender a maneira como essas músicas relatam os conflitos da sociedade em que foram produzidas e as diversas interpretações que os acontecimentos recebem ao longo do tempo.

    Na educação básica, a criação de uma aula-show pode ser feita pelo próprio professor, pesquisando, elaborando o roteiro e executando as canções. Mais do que isso: ele precisa adotar certa alma de artista, estar disposto a explorar o lado lúdico da experiência. Mas o ideal é que o projeto seja desenvolvido também pelos alunos, que, a partir de orientações do professor, deverão fazer a pesquisa sobre o tema em questão.  Ao elaborar um roteiro e apresentar o resultado final para a comunidade, os alunos tornam-se professores e artistas ao mesmo tempo.

    Uma experiência prática de como utilizar esse instrumento didático foi o projeto “Na Carreira – Edu Lobo e Chico Buarque (1964-1983)”. O trabalho parte da escolha de um tema histórico, com base em sua relevância social e intelectual. Neste caso, foi escolhido o engajamento da produção dos compositores para peças de teatro durante a ditadura. Daí o título “Na Carreira”, nome de uma canção feita pela dupla e que cai como uma luva para a proposta de analisar a trajetória dos dois artistas ao longo daquele período. A relevância do tema se justifica pela qualidade artística das produções, pelo seu papel de cronistas da sociedade brasileira após a década de 1960 e pela importância de sua atuação no campo artístico engajado na oposição à ditadura.

    Todo projeto de pesquisa exige delimitação de tema, com a definição de um problema histórico. No caso de “Na Carreira”, o problema era o seguinte: quais as formas de engajamento artístico que Chico e Edu criaram, quais os grupos a que se ligaram, os projetos de sociedade que defenderam e o tipo de resistência que efetivamente empreenderam por meio de suas canções? A reflexão sobre esses temas levou à definição do subtítulo da aula: “Engajamento, música e teatro. Para além de ‘Upa neguinho’ e ‘Roda Viva’”.

    O recorte cronológico foi definido pelas trajetórias dos dois artistas desde o início de suas carreiras como compositores para teatro, em meados da década de 1960, até o momento inicial da parceria. Ao longo do regime militar, Chico e Edu compuseram, sozinhos e com outros parceiros, muitas canções que se tornaram referências para a música popular. Talvez por isso o grande público alimente a idéia de que eles sempre foram parceiros. Mas seu “casamento profissional” só aconteceu em 1981. Por isso, nosso marco temporal parte de 1964 — ano de produção de “Upa, neguinho” (por Edu Lobo e G. Guarnieri) — e chega a 1983, quando Edu e Chico compuseram juntos “Dr. Getúlio”.

    Um projeto de aula-show tem um produto final estabelecido – meio aula, meio show – que deverá levar o público a compreender o tema. O professor deve pensar sempre no público-alvo para o qual a aula-show se dirige. A opção por um ou outro tipo de platéia faz com que o conteúdo/repertório e a abordagem sejam estrategicamente planejados para se adequar às condições de assimilação daquele tipo de aluno. Quando a aula é dirigida a alunos de ensino fundamental, por exemplo, o aspecto lúdico pode ganhar ainda mais relevância. Para um público de estudantes de ensino médio, o tom deve ser mais informativo do que explicativo. Como a aula-show que acompanhou a execução das canções de Chico e Edu tinha um caráter predominantemente explicativo, optou-se por um público com formação superior.

    Finalmente, a montagem da aula-show exige pesquisa de repertório apurada e a elaboração de um roteiro. Essas atividades perpassam todas as etapas anteriores, pois a delimitação do tema, a construção do problema e a definição do marco temporal já exigem estudo e contato com as fontes. Na elaboração da aula “Na Carreira”, foi importante examinar pesquisas a respeito da MPB durante a ditadura e a respeito dos compositores que participaram ativamente no período. O processo incluiu ainda as tarefas de identificar as canções produzidas por eles para peças teatrais “engajadas”, ler os scripts e ouvir as canções. As fontes utilizadas, portanto, foram discos, obras da historiografia brasileira sobre música popular e teatro, as próprias peças e os sites oficiais dos compositores.

    Uma vez delimitado o problema, é hora de voltar às fontes para selecionar as canções que vão compor o roteiro do show. Seleção feita, passa-se à elaboração de pequenos textos que irão guiar a aula, explicando os sentidos sociais de cada música no momento de sua produção e em tempos posteriores. O roteiro final contemplou doze peças de teatro e vinte canções a elas relacionadas.

    Na execução da aula-show, o professor apresenta as canções entremeadas com explicações históricas sobre o tema. Por exemplo, da peça “Calabar”, de Chico Buarque e Ruy Guerra (1973), selecionou-se um pot-pourri: “Fado Tropical”, “Cala a boca, Bárbara”, “Não existe pecado ao sul do Equador” e “Boi voador”. Entre elas, trechos da peça que permitem compreender o sentido das músicas. Mas, antes de tudo isso, uma fala que contextualiza a peça — censurada na época —, que narra a história da traição do mestiço Calabar durante a guerra contra os holandeses em Pernambuco. O aluno aprende que no início dos anos 1970, com o aparato repressivo da ditadura militar em seu auge, elogiar a traição era uma atitude de clara afronta ao sistema. 

    Nem todos os envolvidos no processo da aula-show precisam ser “iniciados” em música. Numa turma, se alguns alunos se dispuserem a executar as canções, há muito trabalho para ser feito pelos demais: pesquisa, elaboração de roteiro, montagem de cenário e figurino. Nada impede que alguns alunos executem as canções enquanto outros se encarregam das informações e explicações históricas. Cabe a quem coordena o projeto identificar e aproveitar as diversas habilidades do grupo.

    É claro que a execução das canções ao vivo torna a tarefa mais proveitosa e eficaz, mas em caso de completa falta de “mão-de-obra” especializada, pode-se recorrer a CDs e DVDs.

    A ausência de “pompa e circunstância” no evento facilita o contato entre alunos/público e professor/artista, o que, por sua vez, ajuda a manter uma certa cumplicidade. Não é uma platéia composta de espectadores ávidos por assistir a um espetáculo musical, nem uma turma concentrada para captar o que o mestre está ensinando. Vários sentidos se cruzam, e diminuem o distanciamento entre alunos e professores. E o formato também pode ser aplicado a outras linguagens artísticas. É possível, por exemplo, pensar em uma aula-sarau sobre o Movimento Modernista, ou em uma aula-teatro sobre a Grécia Antiga.

    A aula-show ensina tanto a quem a produz quanto a quem a assiste, e, por isso, pode se transformar em instrumento pedagógico consistente. E não só para o aprendizado da História, mas também dos procedimentos da pesquisa histórica. Além disso, o método recria uma experiência ligada à narrativa oral. E ao contextualizar as canções por meio de informações históricas sobre sua produção e as diversas apropriações que elas já tiveram, ajuda a refletir sobre os sentidos do passado recriado ali. Se a aula explica, o show revigora a explicação por meio do prazer que proporciona. Cria-se, assim, uma relação com o passado para além daquela que o condena a algo estático e longínquo.

    Miriam Hermeto é historiadora, mestre em Educação, doutoranda em História na UFMG e cantora. É professora de História da Universidade do Estado de Minas Gerais/Fundação Educacional de Divinópolis.

    Ricardo Lima é jornalista, cantor e compositor. É pesquisador associado do Núcleo de Estudos Musicais do Rio de Janeiro (Cesap/Ucam), assistente de pesquisa do Projeto República (UFMG) e professor da Universidade do Estado de Minas Gerais/Fundação Educacional de Divinópolis .

    Saiba mais - Livros:

    BITTENCOURT, Circe. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2004.
    NAPOLITANO, Marcos. Síncope das idéias; a questão da tradição na música popular brasileira. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2007. (Coleção História do Povo Brasileiro).
    SOUZA, Miliandre. Do teatro militante à música engajada; a experiência do CPC da UNE (1958-1964). São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2007. (Coleção História do Povo Brasileiro).

    Saiba Mais - Sites:

    Aula Show “Na Carreira” no You Tube www.youtube.com/watch?v=LhvUw-mabWw

    Chico Buarque: www.chicobuarque.com.br

    Edu Lobo: www.edulobo.com.br

    “Desconstruindo Construção” e “Gil: a aventura do saber”, em Música Pr’Aprender Brasileira (Lorenzo Aldé): http://www.educacaopublica.rj.gov.br/suavoz/sv12.htm

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