Caça-tesouros em arquivo

Estudantes brincam e aprendem como é o cotidiano do Arquivo Público do Rio Grande do Sul.

Claudira do Socorro Cirino Cardoso

  • Conhecer a História do Brasil é sempre salutar. E investigar os mecanismos que permitem que ela seja registrada é de fundamental importância. Os acervos que acumulam documentos históricos são peças-chave para que vários eventos sejam confirmados e detalhados para as gerações futuras. Transmitir essas noções para quem se interessa por História e estimular quem está em idade escolar, então, nem se fala. Se essa estratégia envolver o uso de mecanismos lúdicos, melhor ainda. Um trabalho neste sentido vem sendo desenvolvido no Rio Grande do Sul.

    Oficinas de educação patrimonial – termo que designa qualquer atividade ou ação educativa que utilize o patrimônio cultural como fonte principal – vêm sendo realizadas desde o começo de 2009 nas dependências do Ensino, Público do Estado do Rio Grande do Sul (Apers). Quem põe a mão na massa são os estudantes das últimas séries do ensino fundamental. As oficinas são ministradas por alunos de graduação dos cursos de História e coordenadas por professores de instituições de ensino superior, e se baseiam nas novas formas de se estudar a disciplina, que vinculam os fatos históricos à realidade sociocultural dos alunos. A iniciativa tem como objetivos aproximar universidade pública, instituições culturais e escolas do ensino básico, e incentivar o conhecimento e a valorização do patrimônio cultural, envolvendo comunidades, escolas, associações, museus, arquivos, centros de memória e bibliotecas.

    Essas atividades foram elaboradas a partir de documentos que estavam guardados no Apers, principalmente os do Poder Legislativo e do Poder Judiciário. Este patrimônio é utilizado como recurso didático nas atividades das oficinas “Os tesouros da Família Arquivo” e “Desvendando o Arquivo Público: Historiador por um dia”. Criadas por professores e universitários que desenvolvem suas atividades profissionais ligadas ao campo do ensino, elas têm duração de duas horas e meia e são realizadas em três dias da semana, nos turnos da manhã e da tarde.

    “Os tesouros da Família Arquivo” é destinada a estudantes de 5ª e 6ª séries do ensino fundamental. Nela são analisados documentos do período da escravidão no Rio Grande do Sul, no século XIX. Suas atividades ocorrem em cinco etapas. Na primeira, os alunos são recebidos pelos monitores e divididos em pequenos grupos. Em seguida, visitam a área externa do Arquivo Público: conhecem o pátio, a arquitetura e o contexto histórico por trás da construção dos seus três prédios. Na sequência, os estudantes são conduzidos até a unidade que guarda o acervo documental. E, finalmente, numa segunda etapa, ocorre a identificação dos alunos por meio do preenchimento de uma “ficha de cadastro”.

    Uma sessão da peça de teatro de bonecos “A Família Arquivo conta a sua história”, baseada em uma conversa entre o casal de avós, Seu Documétrio e Dona Memoriana, e seus netos, Duda e Beto, é a atração da etapa seguinte. Na outra fase, é realizada uma “Caça ao Tesouro”, ou seja, a busca por documentos no acervo da instituição. A partir dos dados obtidos nesses “tesouros”, são formuladas hipóteses para a solução de um enigma previamente proposto. Na última etapa, faz-se uma retomada dos temas trabalhados na oficina: o que significa ser cidadão hoje, que documentos podem contar nossa história, que outras formas de patrimônio são produzidas e não são trabalhadas ou reconhecidas como tal.

    A outra oficina, “Desvendando o Arquivo Público: Historiador por um dia”, destinada a estudantes da 7ª e da 8ª séries do ensino fundamental, simula o trabalho de pesquisa de um historiador num arquivo. Ela investiga questões sobre documentos do Arquivo Público, a historiografia e o oficio do historiador a partir de diversas temáticas. Desenvolve-se em seis etapas, nas quais os estudantes ficam sabendo, numa visita ao acervo, como são organizados e arquivados os documentos, e acabam se encontrando com um personagem, o professor Marius Temporáclito. Ele os aborda, faz comentários a respeito do seu trabalho com o Arquivo e solicita uma “ajudinha” em sua pesquisa.

    O grupo também trabalha com o conteúdo das fontes de pesquisa, relacionando-as com a produção historiográfica. Depois, a pesquisa é analisada por meio de perguntas e de discussões geradas pelo grupo. Os estudantes organizam os resultados obtidos em um painel imantado, com ímãs que trazem imagens relacionadas às fontes trabalhadas. O projeto é avaliado pelos estudantes e pelos professores, que fazem uma reflexão sobre as experiências, baseada no que os alunos gostaram mais e menos, e em sugestões para atividades futuras. Algumas delas são levadas para a sala de aula pelo professor, que recebe questionários que podem servir de instrumentos para a avaliação.

    De acordo com a avaliação, o projeto tem tido uma resposta positiva. O trabalho com a documentação e a importância de se preservar esse tipo de patrimônio têm sido bastante valorizados. Dessa forma, os estudantes têm a oportunidade de conhecer um ambiente diferente da sala de aula, vivendo na prática a pesquisa histórica por meio de uma linguagem acessível para sua faixa etária. E isso, naturalmente, faz com que eles se sintam inseridos na construção da História.

    Desde 2009, foram realizadas mais de 65 oficinas, que atenderam prioritariamente turmas da 5ª à 8ª série de escolas da rede pública de ensino de Porto Alegre. Até o momento, as iniciativas levaram ao Arquivo Público mais de 1.600 estudantes de 60 escolas, e contaram com a participação de alunos de graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de outras instituições de ensino superior. A UFRGS assinou um convênio para a realização dessa atividade, que está registrada como projeto de extensão.
    Mas o que talvez seja mais motivador para a continuidade desse trabalho é o retorno que as oficinas vêm recebendo daqueles que são, notadamente, os que mais se beneficiam com o conhecimento adquirido. Uma estudante de 14 anos, de uma turma de 6ª série da Escola Estadual de Ensino Médio Júlio Grau, afirmou ter gostado “de tudo, do chão de grade, da brincadeira, dos fantoches, de tudo mesmo”. Outro estudante, também de 14 anos, da mesma série, da Escola Estadual Helena Schneider, reconheceu que “foi tudo muito legal”, e que ficou encantado com “como foi feito o Arquivo Público, o teatro, os arquivos que ficaram guardados e as brincadeiras”. Tudo isso leva a crer que aprender a manipular os documentos históricos e a apreender conhecimento pode e deve ser a maior diversão.

    Claudira do Socorro Cirino Cardoso é professora do Centro Universitário Metodista e autora da tese “Elite político-partidária do PRP/RS” (UFRGS, 2009).

    Saiba Mais - Bibliografia

    FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ/Iphan, 1997.

    LUPORINI, Teresa Jussara. “Educação Patrimonial: Projetos para Educação Básica”. In Ciências & Letras nº 31 (jan./jun. de 2002). Porto Alegre: Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras, 2002.

    MACHADO, Maria Beatriz Pinheiro. Educação Patrimonial: orientações para professores do ensino fundamental e médio. Caxias do Sul: Maneco Livro & Ed., 2004.

    SOARES, Luís Ramos & KLAMT, Sergio Célio (orgs.). Educação Patrimonial: teoria e prática. Santa Maria: Ed. da UFSM, 2007.


    Saiba Mais - Internet

    Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul
    www.apers.rs.gov.br

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