Irmãos coragem

Nos cinemas a partir desta sexta (6), o nacional Xingu narra a aventura dos irmãos Villas-Bôas no interior do país, além de mostrar a luta dos protagonistas pela criação do Parque Nacional do Xingu

Rodrigo Elias

  • Xingu

    Dir.: Cao Hamburger. Brasil, 2012.

     

    O Brasil foi inventado algumas vezes, desde o século XV. Talvez tenha sido outras vezes antes disso, mas é difícil para o historiador averiguar esta hipótese. O que sabemos, entretanto, é que as recorrentes invenções obedecem a propósitos bem específicos.

    A primeira invenção registrada, em 1500, dava conta da expansão do cristianismo e de um novo modelo econômico europeu, ligado ao que se tornava um comércio global. Outras invenções, entre os séculos XIX e XX, geralmente de caráter oficial, trataram de assegurar um domínio territorial vastíssimo a elites políticas e econômicas localizadas no sudeste do país. Inventou-se um país, um Estado e, por último, uma nação. Neste processo, conflitos entre grupos foram abafados, vozes desviantes do projeto central foram caladas e um numeroso contingente populacional desapareceu pra sempre sob o redutor, violento e falso rótulo de “povo brasileiro”.

    O filme de Cao Hamburger, com base na aventura dos irmãos Villas-Bôas (Orlando, Cláudio e Leonardo), trata de outra tentativa de invenção do país. Saga que se desenvolve entre as décadas de 1940 e 1970, a trajetória dos sertanistas é marcada pela recusa a um projeto nacional que impôs o discurso (e a dolorosa prática) do desenvolvimento.

    Guiado pela perspectiva do irmão do meio, Cláudio (interpretado por João Miguel), a narrativa têm início na década de 1940, quando mergulharam na Expedição Roncador-Xingu, durante o governo Vargas, e chega aos desdobramentos da política desenvolvimentista do regime militar, com suas obras monumentais de “integração” nacional. No meio do caminho, há uma luta liderada pelos Villas-Bôas para a criação do Parque Nacional do Xingu (hoje Parque Indígena do Xingu), primeira terra indígena reconhecida pelo governo brasileiro, em 1961, por meio de decreto de Jânio Quadros – façanha ainda mais significativa por se tratar de um território comparável ao da Bélgica, em uma região que havia se tornado uma grande fronteira agrícola exposta à sanha de grandes latifundiários.

     

    Fotografia belíssima

    A história contada falha, entretanto, ao reservar pouco espaço para a importante atuação do igualmente heroico Darcy Ribeiro – preço que se paga ao se contar quarenta anos em duas horas.

    Notoriamente o mais “ideológico” dos irmãos, Cláudio, vive em crise de consciência, resultado de uma certa concepção romântica e purista em relação aos grupos indígenas. Ao mesmo tempo que trabalha a favor de uma integração saudável para estes grupos, recorrendo às vezes a métodos bastante enérgicos, duvida da possibilidade de qualquer consequência positiva para estas populações, em uma descrença na sociedade dita civilizada que faria boa vista a H. D. Thoreau. Esta aparente contradição – uma tentativa de adequar a utopia com o mundo possível – dá ao filme uma densidade raramente vista em dramas históricos filmados entre nós.

    O filme é belíssimo, tanto no seu aspecto visual como na abordagem dos temas. A fotografia de Adriano Goldman explora com inteligência a iluminação natural, o sol inclemente e a exuberância da natureza na região do Xingu. Os planos abertos, que fazem o expectador ser soterrado por um gigantesco e indomável mundo verde, ajudam a definir os contornos de uma verdadeira epopeia. A forma como o roteiro e a direção constroem os personagens, deixando evidente a sua humanidade, tanto a dos Vilas Boas quanto a dos indígenas, dá à obra ficcional a verossimilhança minimamente necessária ao observador interessado – os Villas-Bôas têm conflitos de opinião e agem de forma nem sempre compatível com a imagem tradicional de heróis; os indígenas, quase sempre retratados de maneira passiva e meramente reativa, surgem na obra de Hamburger como protagonistas da sua trajetória, lutando, negociando, opinando – entre estes, aliás, destaque para o impoluto Prepori, vivido com maestria pelo estreante ator indígena Maiarim Kaiabi. Talvez este seja um feliz ponto sem retorno para as narrativas sobre os grupos historicamente oprimidos – é impossível desumanizar completamente o que é essencialmente humano.

    Como qualquer obra decorrente de uma perspectiva autobiográfica, existe uma tendência ao elogio. Orlando (Felipe Camargo), o irmão mais velho, que assume a direção do processo de integração em uma dura batalha para reduzir as perdas dos grupos contatados – o “pragmático”, portanto – tem suas atitudes constantemente contrastadas com o purismo quase santo (apenas quase, considerando-se que a castidade é geralmente uma característica das figuras canonizadas) de Cláudio.

    Personagens tratados como heróis

    O jovem e intrépido Leonardo (Caio Blat), que se envolve com uma mulher índia e acaba deixando os irmãos, morrendo prematuramente de causas naturais em 1961, aparece quase como um rebelde que coloca suas vontades pessoais acima de um ideal maior.

    Há, é claro, o triunfo da versão heroica da presença dos irmãos na região – que não é a única versão disponível, a julgar pela narrativa de um episódio envolvendo Leonardo, que veio à tona na década de 1980 com o depoimento do filho de um chefe e pajé kamayurá. O jovem Villas-Bôas teria mantido uma relação ilícita, pública e de exclusividade com Pele de Reclusa, uma das mulheres do chefe, o que, entre outras coisas, fez com que ela fosse coletivamente estuprada pelos homens da aldeia como forma de punição.

    Este filme, entretanto, não deve ser um ponto final na história. Ao contrário: suas muitas qualidades, além de servirem como uma baita diversão – com as tiradas espirituosas de Orlando, a tensão afetiva e sexual do encontro, a aventura rumo ao desconhecido e o espetáculo visual –, levantam questões para reflexão, discussão e ação no nosso tempo. Como a saga dos Vilas Boas ainda pode motivar ações democráticas em um país desigual? O que é progresso? Qual o Brasil que queremos? Deve haver vozes vencedoras e perdedoras no país que recorrentemente inventamos? Há grupos mais humanos do que os outros?

    Em um tempo no qual a tolerância – não apenas étnica, mas em todos os sentidos – não é nada além de um discurso bastante distante da nossa realidade violenta, é útil lembrar e divulgar a trajetória de brasileiros que deram suas vidas para realizar um ideal de igualdade e inventar um país em sintonia com uma concepção mais justa de “povo brasileiro”. A noção de que todos os humanos valem a pena, não importa o quão diferentes sejam entre si, faz de Xingu um filme extremamente necessário.

        

        

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