Você é luz, é raio, estrela e luar

Dos trovadores medievais à música brega brasileira, o amor romântico continua sendo tema de versos de grande aceitação popular. Documentário entrevista gênios do gênero no país e sujeitos comuns, identificados com as canções

Rodrigo Elias

  • Vou Rifar meu Coração

    Dir. Ana Rieper (Brasil, 2011)

     

    Donzela! Se tu quiseras

    Ser a flor das primaveras

    Que tenho no coração:

    E se ouviras o desejo

    Do amoroso sertanejo

    Que descora de paixão!...

    “A Cantiga do Sertanejo”, de Álvares de Azevedo (1853)

     

    O amor é, como já se disse, apenas uma palavra de quatro letras. No entanto, trata-se do tema mais importante das manifestações do gênio humano – ou arte – popular desde o século XVIII.

    Este amor dito romântico, dolorido, sofrido e quase sempre socialmente subversivo, maior do que a vida, a morte e o respeito próprio, apareceu pela primeira vez na voz dos trovadores, dos poetas e cantadores andarilhos medievais que entoavam seus encantos por damas já comprometidas ou muito distantes na hierarquia social – este amor era quase sempre sinônimo de adultério, motivo pelo qual não era bem visto por autoridades civis e eclesiásticas.

    Leia também

    O brega desconstruído

    Sobre perder tempo

    Em 2012, acabou o amor

    Na época moderna, principalmente na Inglaterra, passou a ser visto como algo positivo – principalmente a partir de um ângulo feminino, uma vez que, em uma sociedade profundamente marcada pelo machismo, um amor maior do que a vida era uma garantia de segurança social para as mulheres uma vez desfeito o mundo da família extensa medieval (no mundo industrial e urbano, a única garantia de uma sobrevivência “digna” para uma mulher adulta era o amor do seu marido).

    Ainda no século XVIII, o amor virou tema de um novo tipo de escrito, não à toa chamado de romance, cujas formas arquetípicas surgem justamente na Inglaterra e na França, primeiramente, e mais tarde na Alemanha, obras que apelam para este vínculo afetivo, absolutamente subjetivo, e tratam do seu papel como tecido social – o inglês Richardson, o suíço Rousseau e o alemão Goethe deram a este formato um alcance jamais visto, formando ao mesmo tempo um público leitor e uma sensibilidade literária (e afetiva) que vai estar preparada, no século seguinte, para a avalanche de sentimentos que está na base do mundo tal como o conhecemos, dos alicerces mais firmes dos estados nacionais aos produtos mais refinados da arte mais genuína: o romantismo (a história é obviamente muito maior, muito mais complexa e muito mais contraditória do que isto, mas esta é apenas uma visão geral possível, tomada de muito longe, “a voo de pássaro”).

    Amor em beira de estrada

    Entretanto, a “mentalidade romântica” (uma expressão que só pode ser imensamente simplificadora) entrou em colapso ainda no século XIX e não sobreviveu em nenhum segmento das artes ou do pensamento “erudito” nas duas primeiras décadas do século XX. No início do século XXI, na sociedade-urbana-e-conectada, em relações mediadas por telas cada vez menores, mais rápidas e mais brilhantes, ouvir alguém soltar um “eu te amo” ao vivo só pode ter duas interpretações: é uma frase vazia, banal e mentirosa ou um anacronismo muito constrangedor. Acontece que, mesmo no início do século XXI, uma parte não desprezível da sociedade brasileira não vive a partir da lógica dominante da sociedade-urbana-e-conectada. Vou Rifar meu Coração (2011), documentário de Ana Rieper, trata de um Brasil enorme e profundo, nem um pouco banal, disperso pelo interior e por periferias das grandes cidades, um Brasil que ainda morre de amor em beiras de estrada, em cabarés, em casas paupérrimas, em hotéis baratos e mesmo em respeitáveis casas de família.

    Além de inventário etnográfico valiosíssimo, aula de sociologia popular e honestíssima catarse nacional, o filme é bonito de se ver e de se ouvir. O fio que amarra toda a narrativa é a música romântica popular – injustamente conhecida pela forma derrogatória de “brega” –, uma fatia da indústria musical que não conheceu crise. Se muitos dos seus nomes estão fora das grandes gravadoras, a maior parte dos artistas vive em turnês intermináveis, em casas de show, circos, prostíbulos, bares, praças e teatros lotados. Há quem ganhe seu pão-de-cada-dia sendo cover de Amado Batista – com lotação esgotada noite após noite.

    Para além dos números e das reveladoras entrevistas com músicos e compositores – Agnaldo Timóteo, Odair José, Nelson Ned, Wando, em sua última aparição, entre outros –, Rieper foi atrás de histórias de gente comum, marido abandonado por esposa, mulher amante de homem casado, marido com duas esposas, ex-prostituta que se apaixonou e se casou com cliente, casais hetero e homo-afetivos, vidas reais de pessoas muito reais que são embaladas – e que buscam mesmo o seu repertório semântico-sentimental – em canções como a de Lindomar Castilho que deu nome ao filme, pessoas que que colocam esta espécie de devoção aparentemente irracional acima de qualquer outra coisa na vida, e que só pode ser percebido pelos alternativinhos de classe média de forma irônica: “Amanhã mesmo eu vou sair / Sem saber aonde ir / Pelo mundo à procura / Não me interessa a riqueza / Não me importa a pobreza / Quero alguém que saiba amar”.  

    Religião, identidade de gênero, pressão familiar, tabus como virgindade ou origem social, regras de etiqueta... Temas tratados com muitos dedos em uma esfera cultural supostamente erudita (que na maior parte do tempo não tem a menor consciência do quanto está embebida em referências populares, tratadas como exóticas) aparecem com muita naturalidade quando submetidos ao verdadeiro senhor deste imaginário: o amor romântico e popular. A certa altura, um radialista que mantem um programa dedicado a homens abandonados por suas mulheres pondera pelas ondas do rádio: “o que leva uma mulher a abandonar o seu marido por um pé-de-pano ou por um sapatão?”  

    O filme, que tem cerca de 80 minutos de duração e está integralmente no YouTube (provavelmente de forma ilegal), traz depoimentos emocionantes. O primeiro entrevistado, um frentista que trabalha em um posto na beira de uma estrada, relata o dia no qual chegou em casa após a exaustiva jornada de trabalho e percebe que sua mulher, o grande amor da sua vida, com quem nunca havia brigado ou tido qualquer desentendimento, havia ido embora com outro homem. Algumas pessoas o disseram que ela já o traia. Mas até hoje ele não acredita. Ele nunca mais a viu, nunca mais teve uma notícia, jamais recebeu uma carta. Não acredita que o amor que havia entre os dois foi maculado. Ao fim do depoimento, canta uma música de Amado Batista que evoca sua história e sua dor: “Era uma tarde tão triste quando ela partiu / Na curva daquela estrada ela então sumiu / Era como folha seca que vai onde o vento quer / Me enganei quando dizia ‘tenho uma mulher’”. É de partir o coração de qualquer brutamontes. Além disso, é difícil não ouvir nesta história e nestes versos o eco de um caráter eminentemente subversivo do amor romântico “original”, este que está acima de qualquer convenção social ou religiosa, aquele sentimento que está em uma ordem de coisas absolutamente sublime e que qualquer corno sabemos reconhecer.

    Odair José, para quem a indústria fonográfica e o establishment cultural viraram as costas, traz depoimentos muito lúcidos sobre a relação entre o imaginário afetivo brasileiro e a cultura de massa veiculada pelas mídias tradicionais. Em certo momento, o homem que cantou explicitamente o amor por prostitutas diz, com muita propriedade, que o que faz é Música Popular Brasileira, sim. Outra coisa é Música Popular de Ipanema. Em outro momento incisivo afirma que o coração partido dói da mesma forma em qualquer camada social. A diferença é que o trabalhador pobre sofre em seu casebre enquanto o ricaço sofre em seu apartamento de frente para o mar. Não se pode saber até que ponto isto faz sentido, mas é uma analogia lapidar.

    Poderíamos descrever outros momentos verdadeiramente sublimes do filme – como a entrevista com Wando, que encarnou em todos os aspectos um amor erótico popular que faz sentido de norte a sul do país, falando do quanto sofreu por amor, do quando dói ouvir de uma mulher desejada que ela o ama “como amigo” (a hoje hip “friend zone”). Parte do depoimento do autor do estrondoso sucesso “Fogo e Paixão”, aparentemente estimulado por uísque, tem ao fundo uma cama com lençóis desarranjados (Wando foi perfeito do início ao fim); ou ainda a história de um homem com duas famílias, ambas com muitos filhos, que dá entrevista ao lado das duas esposas, que por sua vez revelam todo o sofrimento causado pela submissão a uma situação publicamente infamante – entre as fotos de famílias mostradas, sua foto oficial como prefeito, além de um sábio conselho: “as duas piores coisas na vida de um homem são perder uma eleição e ser casado com duas mulheres.” Vale anotar.

    Enfim, ao lado de As Canções, de Eduardo Coutinho, também de 2011, o filme de Ana Rieper coloca no lugar merecido uma parcela considerável de uma verdadeira música popular brasileira, objeto digno de registro e estudo e, mais do que isso, dá ao público brasileiro um retrato sensível de um patrimônio nacional inestimável – talvez por ter ficado durante tanto tempo livre das garras das nossas envergonhadas elites –, que são as nossas muitas formas populares de amar.

     

Compartilhe

Comentários (0)