Nina Simone, liberdade e violência

Como a trajetória de uma das maiores musicistas do século XX incorporou as tragédias e conquistas de seu tempo

Nashla Dahás

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    What Happened, Miss Simone?

    EUA, Dir. Liz Garbus, 2015

     

    “É um sentimento. Liberdade é apenas um sentimento. É como tentar explicar para alguém como é estar apaixonado. Como você vai explicar isso para alguém que nunca sentiu? Você não consegue. Mas você sabe quando acontece. Houve algumas vezes no palco em que eu realmente me senti livre. E isso é uma coisa incrível. É realmente incrível. Eu te digo o que liberdade significa para mim: nenhum medo! Realmente nenhum medo. Se eu pudesse ter isso por metade da minha vida... É algo que realmente se sente. Como um novo jeito de enxergar”.

    Nina Simone, 1972.

     

    What happened, Miss Simone?, dirigido por Liz Garbus, oferece vários modos de enxergar a trajetória da musicista negra que sonhou em ser a primeira pianista clássica dos Estados Unidos e cujo auge da fama se deu entre os anos de 1960 e 70.

    Liberdade parecia mesmo ser questão imposta por aqueles tempos. Cerca de 15 anos depois da Segunda Guerra Mundial, experimentava-se como subjetividade o estado de tensão causado pela Guerra Fria com diferentes graus de impacto nos cenários nacionais. Bandas e cantores europeus e americanos como The Beatles e Bob Dylan tratavam de confundir dicotomias do tipo entretenimento/contra-cultura enquanto os movimentos norte-americanos e depois franceses reivindicavam pacífica ou violentamente mais liberdades. Na política, no Direito, no sexo e na arte. Nas palavras do filósofo Peter Sloterdjik ali, "as mil flores da radicalidade tiveram a sua última florescência plena".

    Foi em 1961, nos Estados Unidos, que Hannah Arendt publicou seu Entre o passado e o futuro, no qual dedica um capítulo à pergunta que é liberdade? Após reconstituir a história da aparição do termo na tradição filosófica ocidental, a autora afirma que o campo em que a liberdade sempre foi conhecida, não como um problema, mas como um fato da vida cotidiana, é o campo da política. A liberdade que admitimos como instaurada em toda teoria política, segundo Arendt, é o próprio oposto da “liberdade interior”, o espaço íntimo no qual os homens podem fugir à coerção externa e sentirem-se livres. Nem o coração nem a mente, mas a interioridade, como região de absoluta liberdade dentro do próprio eu, foi descoberta na Antiguidade tardia por aqueles que não possuíam lugar próprio no mundo e que careciam de uma condição mundana. Hannah Arendt explica como a ‘liberdade interior’ justificou a existência do escravo no mundo, livre e soberano no recolhimento de seu eu.

    Atormentada pelas promessas não cumpridas de uma infância de segregação e de luta por liberdade, Nina Simone não a alcançará em esfera nenhuma, seja em sua interioridade ou em seu engajamento político. O documentário de Liz Garbus seleciona e tenta reconstruir as memórias de uma artista em conflito permanente com seu tempo, em dívida insanável com o passado e com o futuro.

    Com exceção das 3 horas que sucederam o nascimento de sua única filha, não há uma só lembrança de Nina Simone que lhe permita uma memória feliz, apaziguada ao menos. “Nas três primeiras horas após o nascimento de Lisa, eu amei o mundo”. E é só. Gradualmente, todos os instrumentos que lhe acenaram em algum momento na direção da liberdade vão surgindo em sua narrativa como seus próprios algozes. O talento vira obrigação, o amor se converte rapidamente em guerra e a família se torna um fardo pesado. Nina os abandonará, a todos, em fins da década de 1970.

    Ao impacto dos testemunhos se somam as próprias canções e interpretações. I Wish I Knew How It Would Feel To Be Free, Little Liza Jean, Little Girl Blue, My Baby Just Cares For Me, Ain't Got No/I Got Life, Don't Let Me Be Misunderstood, Mississippi Goddamn… Cada apresentação inspira uma verdadeira confusão mental. A erudição ao piano nas gravações em preto e branco fazem pensar em tempos mais remotos do que realmente são. A voz de Nina Simone não tem gênero definido, seus olhos grandes se erguem em glória, mas também com raiva, e suas emoções não são mapeáveis, não possuem roteiro ou destino. Ela sorri de vez em quando, sutil, para logo explodir em fúria, não há um afeto central pelo qual ela possa ser mais ou menos definida. Sua pele brilha de suor, irresistível. Ela provoca o público em seus sentidos, desperta empatia e reverência, quer atingi-lo, tirá-lo de sua frequência comum. Mas também é capaz de desprezar seus ouvintes rejeitando-os como se não merecessem estar ali. Um olhar mal interpretado ou um assobio inoportuno eram suficientes para que a pianista pudesse manifestar a violência de um silêncio tantas vezes auto-imposto.

    Grosso modo, na versão de seu ex-marido o imenso talento e energia de Nina Simone foram desperdiçados quando ela se tornou parte do movimento pelos direitos civis dos negros americanos.

    Na narrativa dos amigos que a encontraram abandonada nos anos 80, na França, destaca-se a doença que causava mudanças bruscas e violentas de humor e comportamento. Nina tornou-se maníaco-depressiva e se submeteu ao tratamento que foi gradativamente comprometendo seus reflexos e sua voz.

    Quando a filha Lisa Simone Kelly fala, porém, todos os outros precisam se calar. “Ela era brilhante, mesmo na velhice ela era brilhante”, afirma Lisa após contar como era surrada pela mãe quando as duas viveram juntas na Libéria. “Ela me espancava, olhava nos meus olhos e dizia que era melhor eu chorar, que eu devia chorar. Eu não podia fazer isso. Eu não chorava”. 

    De grande impacto é a narrativa de Nina, cantando, em entrevistas ou quando se expressa em recortes e páginas de cadernos. “Não tive escolha”, ela afirma quando lembra sua infância isolada da comunidade negra na Carolina do Norte. Lá, nascera Eunice Waymon em 1933, a sexta dos oito filhos de um marceneiro com uma religiosa e empregada doméstica. Todos os dias ela atravessava as divisórias entre as partes branca e negra da cidade para estudar piano.

    “Não tive escolha”, ela repete em entrevistas ao falar da música como um trabalho necessário para ajudar a sustentar a família.

    “Não tive escolha”, eu me apaixonei e ele foi tomando conta de tudo, afirma ao narrar sua história com o ex-policial Andrew Stroud, que se tornou seu empresário e, depois, marido. “Eu gosto de apanhar. Ao menos é o que ele diz”, Nina Simone escreveu em seu diário após uma das surras cruéis que levou de Andrew, seguida de estupro.

    “Não tive escolha”, ela repete quando inquirida sobre seu engajamento na questão racial norte-americana: “Não há como viver essa época, nesse país e simplesmente não se envolver”.

    O título do longa se deve a Maya Angelou, escritora e poeta negra norte americana que entrevistou Miss Simone em novembro de 1970, ocasião na qual perguntou: “Mas o que aconteceu, senhorita Simone? Especificamente, o que aconteceu com seus olhos grandes que rapidamente se esconderam em grande solidão? Com a sua voz que ainda flui como um compromisso com a batalha da vida? O que aconteceu com você?”. Liz Garbos juntou os fragmentos de memórias, cartas, diários e entrevistas, gravações e fotografias para que a Nina que ela - a diretora – enxergou, pudesse então responder.

    Talvez o momento mais livre de Nina Simone tenha sido mesmo o da revolução. Talvez a subjetividade revolucionária tenha lhe permitido instantes mágicos de uma liberdade perdida desde a infância. Ela circula entre Martin Luther King, James Baldwin e Stokely Carmichael, o futuro primeiro-ministro honorário do Black Panthers Party. Ainda na década de 1960, Miss Simone faz shows abertos para o público negro, inicia uma temporada em que só executa músicas políticas e convoca a multidão para a guerra, para a violência, caso seja necessário. Na luta antirracista, a violência tornou-se cívica: “Eu nunca fui a favor da não violência. Nunca fui não violenta. Achava que deveríamos conquistar nossos direitos por todos os meios necessários. [...] Era arrebatador participar daquele movimento naquela época porque eu era necessária. Eu podia cantar para ajudar meu povo e isso se tornou o principal esteio de minha vida. Nem o piano clássico, nem a música clássica, nem mesmo a música popular, mas a música dos direitos civis”, Nina Simone afirma em trechos do documentário.

    Em 1963, um incêndio criminoso promovido pela Ku Klux Klan em uma igreja na cidade de Birmingham, no Alabama, resultou na morte de quatro crianças. Em 1965 Malcolm X foi assassinado e em 1968 foi a vez de Martin Luther King ser baleado por um extremista branco e morrer. Enquanto tragédia social, Nina Simone acompanhou a ascensão e a queda do movimento dos direitos civis, a derrota do black power, a persistência do racismo e da opressão sobre as mulheres negras nos Estados Unidos das décadas de 1970 e 80. Muitos de seus amigos, como Langston Hughes e Lorraine Hansberry, expoentes da cultura negra norte-americana, haviam morrido. Pessoalmente, a radicalização política havia trazido represálias por parte das gravadoras, abandono de certos públicos, a ruína financeira e o isolamento.

    Nina havia se apresentado nas maiores casas de shows dos Estados Unidos, mas recusou o papel de ‘estrela’ que a indústria cultural tentou impor, incluindo sua participação em festas como as da Playboy. Ela fazia música clássica negra. Ao lado dos principais líderes da luta contra a segregação racial, ela recusou o papel liberal moderado. Apesar de todo o respeito, não deixou de tecer críticas ao caminho pacifista dos discursos promovidos pelo “King do amor”. Também não foi a esposa nem a mãe que talvez tivesse imaginado ser. Segundo Maya Angelou, Nina tinha em si as eternas contradições de uma artista genial.

    O filósofo e escritor Kwame Anthony Appiah afirma que a representação imaginária de formas diferentes de fazer as coisas nos filmes, nas pinturas, na poesia ou na música é uma das formas pelas quais aprendemos o que é possível em determinado tempo. Nesse campo, alguém resolve a coisa antes que ela ocorra, de fato. “A arte é crucial, porque a imaginação é crucial”, explica. Segundo Kwame, antes que possamos transformar o mundo, é preciso imaginá-lo diferente do que é, e essa capacidade de entender, por exemplo, a condição psíquica de alguém num determinado tempo, de alguém oprimido num determinado tempo, que pode ser ou não o meu próprio, jamais pode ser vista simplesmente olhando para os lados, ou porque ela nos é externa, ou porque estamos imersos nesta mesma condição. Mas é preciso pensar sobre ela.   

    What happened, Miss Simone? é pergunta e resposta sobre o estado de alma que nos atinge e mobiliza.

     

    Nashla Dahás é pesquisadora da Revista de História da Biblioteca Nacional

     

        

        

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