Vantagens de ser invisível

Filme narra a trajetória de Charlie, um adolescente tímido que tenta fazer amigos no ambiente hostil do segundo grau da escola. Ao enfrentar a dor de um amor não correspondido, o menino amadurece e se livra de traumas da infância

Alice Melo

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    I, I will be king/ And you, you will be queen/ Though nothing will drive them away/ We can beat them, just for one day/We can be Heroes, just for one day (Heroes, David Bowie)

    Lançado em 1999, o livro As vantagens de ser invisível logo se tornou sucesso de público entre os jovens nos Estados Unidos. De alguma maneira, a forma como o autor captou o espírito opressor das relações sociais que preenchem os corredores do chamado High School - e a sensibilidade daqueles que não estão exatamente no topo da pirâmide do que hoje foi diagnosticado como bullying - o colocou no hall dos clássicos juvenis contemporâneos. Em 2012, a obra foi adaptada para o cinema justamente em uma época em que ser excluído virou moda. Nada mais popular do que ser nerd: a chamada cultura geek é cada vez mais consumida. Um panorama um pouco diferente dos anos 1990, quando os desajustados ainda não encontravam na mídia uma representação heroica de sua condição de vida. Mais do que hoje, quando o bullying é podado pelo politicamente correto, há 20 anos a escola era lugar de encarnação de estereótipos e campo de sobrevivência.

    O longa-metragem é bonito de se ver. Com atuações marcantes de jovens talentos – tem Emma Watson num papel bem diferente do que encarnou durante dez anos (a Hermione de Harry Potter) – o filme conta a história de Charlie (Logan Lerman), um calouro do Ensino Médio tímido, inteligente, sensível, que tenta fazer amigos em um ambiente hostil. Já que o seu antigo se matou com um tiro, poucos meses antes. Nessa jornada, se apaixona por Sam (Emma), uma veterana que na verdade gosta de um cara mais velho. Mesmo com o contratempo, ficam amigos por intermédio de Patrick (Ezra Miller), também terceiranista, objeto de chacota da corja dos “populares” (líderes de torcida e jogadores de futebol americano, como dita o clichê). Após uma brincadeira em sala, Patrick passa a ser chamado de Nada.

    Na contagem regressiva dos dias até o momento em que se formarão, os três habitam um mundo a parte. Recheado de drogas, música alternativa e amigos esquisitos, que se enquadram em papéis bem demarcados do cenário estudantil constituído por rótulos das mais variadas espécies. Tem Alice, loirinha que curte vampiros e pretende virar cineasta; Mary Elizabeth, CDF de cabelo raspado que é meio punk, meio budista. Bob, o maconheiro que vive numa realidade paralela. Durante a narrativa que, segundo Stephen Chbosky,  diretor, roteirista e também autor do livro homônimo, é meio autobiográfico, Charlie enfrenta o amadurecimento pessoal e cresce enquanto sujeito, enfrentando seus problemas e lidando com o amargor do amor não correspondido. Ao fim do ano, os novos amigos vão para a faculdade e ele precisa aprender a lidar, novamente, com a perda. Charlie teve uma vida marcada por tragédias e identifica em Sam traços de sua tia falecida, da qual era muito próximo.

    Em entrevista a um site de crítica de cinema, Chbosky conta que As vantagens de ser invisível nasceu quando tinha vinte e poucos anos e estava passando por um período triste de sua vida. Após terminar um relacionamento amoroso. Queria contar uma história que começou a surgir na adolescência, sobre um menino que olha fixamente para uma menina e se apaixona por ela. No momento difícil de sua vida, queria saber “porque pessoas boas se deixam ser tratadas de forma tão ruim”, uma ideia que, inclusive permeia todo o filme. A resposta, segundo ele, que, aliás, é incorporada na fala do professor de literatura de Charlie, é que “as pessoas aceitam o amor que acham que merecem ter”.

    Assim como Charlie, Chbosky tentou se convencer da máxima enquanto escrevia a obra: estava passando por um momento difícil, após o término de um namoro.  Para algumas pessoas, o fim de um vínculo amoroso é um evento sombrio de que resulta em um longo período de extremo amargor. Momento de tristeza profunda, no qual há uma “perda de interesse pelo mundo externo”, como observou Freud no pequeno porém denso ensaio Luto e melancolia. Segundo Freud, a melancolia – o sofrimento que sucede à perda de uma pessoa amada  – é semelhante ao do luto, compartilha do mesmo estado de espírito “penoso” e da “incapacidade de adotar um novo objeto de amor”. Faz parte do processo de superação, tanto de um quanto do outro, a elaboração do trauma. Tanto Chbosky quanto Charlie encontram na literatura uma forma de expressar o sofrimento e se recuperar dele, em momento de extrema dificuldade. No caso de Charlie, mesmo depois de anos, ardia com a morte da tia amada. Depois, o sentimento veio à tona quando rejeitado por Sam.

    Tentando se livrar do trauma passado e da angústia doentia subsequente, Charlie se esforça para mostrar à Sam que ela merece ser tratada de forma doce. O caminho é longo, acompanha o amadurecimento juvenil e cria laços fortes com quem experimenta a narrativa. As vantagens de ser invisível é profundo, divertido, real. Desperta a simpatia de toda uma geração que presenteava a pessoa amada com fitas de música gravadas à mão; ou da geração que, mesmo sem ter passado por isso, entende como são ardilosos os dilemas existenciais da puberdade.

     

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