Um filme sobre celebridade

‘The Bling Ring’, de Sofia Coppola, critica a cultura gângster nos EUA e causa incômodo ao contar história real de grupo de jovens que assaltava casas de famosos em Hollywood

Rodrigo Elias

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    Your clothes are all made by Balmain

    And there’s diamonds and pearls in your hair (yes, there are)

    Peter Sarstedt, “Where do You Go To (My Lovely)”

    Imagino que um filme, assim como um livro, não deva existir para as pessoas se sentirem confortáveis. É claro que é bom quando isso acontece e talvez seja este o grande motivo pelo qual as pessoas continuam a ler livros, ver filmes, ouvir histórias ou se interessar por qualquer tipo de fofoca – a capacidade de entreter e de afastar os sujeitos da própria realidade imediata tem garantido, entre os indivíduos da nossa espécie, um sucesso aparentemente universal ao ato de narrar. 

    Em certas ocasiões, entretanto, acrescentamos uma outra dimensão a esta exposição a uma obra tão envolvente como pode ser um filme. Eu, por exemplo, nunca me senti exatamente confortável diante de um trabalho da Sofia Coppola, que tem sido minha diretora favorita há uma década – eles me agradam enquanto narrativa e estética, mas acabei atribuindo-lhes outros sentidos. Além disso, acredito, ultimamente, que a recepção de uma obra (sobretudo de uma obra narrativa, categoria em que boa parte dos filmes se encaixa) pode dizer alguma coisa sobre uma época (o que não deixa de ser meio óbvio), e a divergência na recepção de uma obra em uma determinada época pode indicar a convivência, em um mesmo período, de diferentes formas de perceber o tempo. Além disso, a percepção de uma obra é afetada por questões de ordem individual (uma trajetória pessoal) e coletiva (qualquer generalização possível no que diz respeito àquilo que se entende por uma dada "cultura").

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    Comecei a ficar encucado com este problema no início deste ano, quando precisei, em um mal-disfarçado esforço de autoanálise, escrever sobre um álbum do Arcade Fire lançado em 2010. Mas... e daí? Acontece que fui ver o novo filme da Sofia Coppola, The Bling Ring, e tive sentimentos confusos em relação a ele. É claro que os leitores da RHBN, bem como os meus editores,  não têm nada a ver com meus sentimentos em relação aos filmes da Sofia Coppola.  Mas eu gostaria, mesmo assim, de usar este espaço para dar seqüência, de forma um tanto quanto caótica, a uma reflexão sobre geração, época, narrativa e tempo que já abordei por aqui e que, a princípio, afetou algumas pessoas  - fez sentido para umas, soou como bobagem para outras. Vou usar, para isso, a experiência de uma pessoa que – em tese – conheço bem: eu.

    Sou uma pessoa prestes a completar trinta e cinco anos. Minha família é pobre e de instrução mediana, mas meus pais foram inteligentes o suficiente para defender a educação formal dos seus filhos como algo prioritário - não que os filhos tenham correspondido a esta ideia de uma maneira plena, como o leitor deste texto já deve ter notado. Fui criado na região metropolitana do Rio de Janeiro, estudei a maior parte da vida em escolas privadas e tive a oportunidade de frequentar uma universidade pública que, no final de alguns anos, me forneceu um documento com a alegação de que sou professor. Acredito que este enquadramento geral faça de mim um tipo sócio-cultural bastante recorrente dentro dos meus parâmetros históricos e geográficos de existência. Minha vida seguiu, a partir daí, rumos que não previ (mesmo que eu não tenha me afastado muito do Rio de Janeiro, cidade onde vivo há dez anos, por vários motivos, sendo a inércia um dos determinantes). Estes rumos imprevistos (nada espetaculares) dizem respeito, em grande medida, a questões pessoais e profissionais, sempre de forma entrelaçada, a partir basicamente do ano de 2003, pouco antes do lançamento, no Brasil, de Encontros e Desencontros (lançado em 2003 e exibido por aqui em 2004), segundo filme da diretora.

    Cena do filme Maria Antonieta, também dirigido por Sofia CoppolaA sensação de deslocamento, de descontrole sobre os planos feitos para a vida e de como os maiores afetos podem não estar relacionados ao rumo da existência mais concreta foram os elementos mais evidentes para mim naquele filme. Topei, depois disso, com opiniões profissionais sobre a obra, todas afirmando, de início, que se tratava de um “filme sobre celebridades”, o que seria daí em diante um rótulo aplicado a todos os seus filmes. Sempre acreditei, entretanto, que este consenso não fazia muito sentido. Sofia Coppola tem sido uma celebridade desde o seu nascimento, e acho que é até certo ponto natural que seus filmes autorais tenham como pano de fundo a vida das pessoas que habitam o seu universo. Entretanto, os temas com os quais trabalha são muito mais complexos e, talvez, potencialmente universais do que a estrutura básica mais aparente.

    Maria Antonieta, lançado em 2006, foi recebido de forma ambígua pela crítica, entre outras coisas por conta de “anacronismos”,  sendo o mais grave deles levar para o passado o mesmo universo de celebridades no qual ela mesma (a diretora) vivia. Eu acredito, entretanto, que Maria Antonieta trata do isolamento, da dedicação a um compromisso, da frustração em relação a aspectos muito básicos e muito fundamentais da vida, além de ser um ótimo exemplo de humanização de um personagem histórico.  Costumo passar o filme para os meus alunos e as discussões sempre são muito enriquecedoras (pelo menos para mim). 

    Não vou falar muito de Um Lugar Qualquer (2010), ironicamente, por motivos muito pessoais. Vou dizer apenas que minha experiência em relação a este filme, que trata basicamente da rotina de um ator famoso de Hollywood com a sua filha, a sua Ferrari e sua vida frenética de ator famoso de Hollywood, é tão central, em tantos níveis, que todas as vezes que o assisti, no cinema ou em casa, fiquei algumas horas sem ação.

    É claro que eu não sou um ator famoso de meia-idade em fim de carreira trabalhando por dinheiro em Tókio, ou uma rainha da França cercada de luxo em sua dispendiosa corte absolutista, ou um ricaço das telas com um corpo atlético e muito assediado por mulheres maravilhosas de Porn Valley. Sou um cara de São Gonçalo, professor de História e abaixo da média em vários aspectos. Entretanto, cada um destes filmes entrou em minha vida em um momento muito específico, e consegui enxergar neles pessoas que viviam dilemas profundos enquanto tentavam se conectar com o mundo mais imediato, lutando batalhas interiores em busca de amor ou aceitação, lidando desesperadamente com ausências ou reprimindo de forma quase doentia determinados sentimentos.  Assim, como acho que está bem claro, nunca consegui descolar muito a percepção dos filmes da Sofia Coppola das minhas próprias experiências. Não sei muito bem até que ponto escolhi ver estes filmes deste modo, mas foi isto o que aconteceu.

     

     

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    A esta altura, você deve imaginar que fui ver The Bling Ring com um razoável nível de expectativa. Imaginou certo. Mas, para a minha surpresa, Sofia Coppola fez um filme sobre celebridades.  E eu não sei muito bem o que senti a respeito disso. Vou tentar deixar claro, entretanto, como fiquei confuso a respeito desta obra, e como esta confusão pode ter alguma relação com a questão do tempo associado à narrativa.

    Filmes sobre celebridades existem desde que existem filmes e desde que existem celebridades. Alguns são muito bons, e acabaram virando clássicos sob a direção de nomes como Federico Fellini e Woody Allen.  Outros são muito ruins. Acontece que, aparentemente, filmes que falam sobre cinema ou sobre a vida em torno do cinema têm uma boa reputação no meio, e este tipo de produção tem ganhado muito espaço nas produções independentes e nos grandes estúdios (o que é muito compreensível, afinal, quem escreve filmes vive a maior parte do tempo cercado pelo mundo... dos filmes). Entretanto, acho chatos filmes que falam sobre o próprio cinema de forma muito central ou elogiosa. Assim como geralmente acho chatos historiadores que escrevem sobre como a História é muito importante, ou escritores que escrevem textos dizendo que a Literatura é absolutamente indispensável (gostei muito, ultimamente, de O Artista, melhor filme no Oscar de 2012, que até na forma trata da questão cinematográfica, mas cujo enredo envolve problemas mais profundos. Por outro lado, me senti particularmente lesado quando paguei uma entrada inteira para assistir A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, que levou cinco dos nove prêmios Oscar para os quais foi indicado naquele mesmo ano). Não que estes profissionais estejam errados ou que aquilo que eles fazem seja essencialmente ruim. Apenas não tenho muita paciência para este autocentramento de forma muito explícita em algumas narrativas profissionais (falou quem está escrevendo em primeira pessoa). Por isso eu nunca achei, antes de hoje, os filmes da Sofia Coppola maçantes. Nunca os vi como filmes sobre celebridades. Eram filmes cujos personagens centrais, por acaso, eram celebridades.

    Coppola com o elenco de Bling Ring

    O que vi na primeira metade de The Bling Ring, entretanto, foi uma sequência muito frenética do que seria a vida de jovens do Vale de São Fernando, na área metropolitana de Los Angeles, absolutamente obcecados com o estilo de vida dos astros do cinema e da TV – estes personagens não são exatamente celebridades, mas cultuam a própria ideia de celebridade do nosso tempo. Alimentados de cocaína, maconha, oxidina e grandes quantidades de álcool ingerido nos tradicionais copos vermelhos usados nas festas de fraternidades, postando cada passo no Facebook, um grupo desses meninos deslumbrados passa a invadir casas de famosos e furtar roupas, sapatos, joias e dinheiro. Estima-se que o prejuízo dado pelo Bling Ring verdadeiro tenha sido de três milhões de dólares – entre as vítimas estão Paris Hilton e Lindsay Lohan. A história foi contada em uma matéria de Nancy Jo Sales na revista Vanity Fair, em 2010, e Sofia Coppola achou que a trama desvendada pela polícia de Los Angeles com ampla repercussão na imprensa televisiva e digital poderia render um bom “filme pop”.

    O roteiro, assinado por Coppola e Sales, é bem fiel à reportagem. De pequenos detalhes, como diálogos e objetos, à caracterização psicológica dos personagens, o filme consegue elaborar de uma forma dramaticamente muito rica os dados relativos a esta quadrilha de pós-adolescentes de classe média alta do mais rico estado norte-americano, que atuou entre 2008 e 2009.

    Em apenas 90 minutos, a diretora consegue contar a aproximação dos membros da gangue (bling é uma onomatopeia que faz referencia a máquinas registradoras e, portanto, ao estilo de vida ostentatório, demonstrando riqueza), o tipo de relação que mantinham entre si, as motivações para a invasão das residências, a adoração a determinada forma de viver, o primeiro desfecho legal dos acontecimentos e a postura bizarra dos integrantes após a descoberta dos roubos. Tive a impressão de que este é o primeiro filme de Sofia Coppola no qual realmente há ação. As seguidas festas, as incursões em casas noturnas exclusivas, o avistamento de celebridades, a entrada furtiva em mansões, a manipulação de objetos caríssimos, um tiro acidental, os furtos de carros, a normalização de uma extensa lista de atitudes ilegais de forma sucessiva e até concomitante, além de um humor muito sutil me mantiveram muito alerta durante boa parte da exibição. Ou seja: minha percepção é a de que acontece muita coisa neste filme, em um curtíssimo espaço de tempo.

    Emma Watson em Bling RingNão me pareceu que nenhum ator tenha atuado de forma muito espetacular, embora todos os protagonistas tenham desempenhado suas partes de forma bem convincente. Leslie Mann mais uma vez está no papel de mãe dirigindo uma SUV e tentando manter a sanidade familiar de forma propositalmente caricata (ela desempenha este papel até mesmo nos filmes produzidos pelo marido, Judd Apatow).  Ainda não me acostumeicom o fato de que o vocalista do Bush, Gavin Rossdale, seja ator . De qualquer modo, lhe caiu muito bem o papel de pilantra profissional, com muito gel no cabelo e cara de mau, mesmo que sua participação tenha sido pequena (da última vez que o vi em um filme, ele interpretava um diabo, ou anjo, ou coisa do tipo).

    Além disso, o filme traz a idolatrada Emma Watson na pele de uma das peças-chave da quadrilha. Ela parece superficial quando precisa parecer superficial e  falsa quando precisa parecer falsa, sempre no tom certo – a bandida juvenil que interpreta, assim como a do mundo real, depois do escândalo e da atenção que ganha da mídia, chega a dizer, em um dos grandes momentos de humor involuntário: “Deus não me deu estes talentos e este visual apenas para que eu ficasse sossegada sendo uma modelo ou sendo famosa. Eu quero liderar uma grande organização de caridade. Eu quero liderar um país.” Entretanto, além destes momentos mais surreais, não acho que Emma Watson seja, neste filme ou em geral, tão especial (sou velho demais para gostar dela pelos motivos usuais e novo demais para gostar pelos motivos heterodoxos).

    Os personagens centrais, aqueles que faziam parte do núcleo da gangue, parecem ter saltado direto de uma música do Magnetic Fields, principalmente as meninas, a maioria do grupo, no filme composto por cinco delas e um rapaz (“See them on their big bright screen / Tan and blonde and seventeen / Eating nonfood keeps them mean / But they’re young forever [...]/ They breathe coke and they have affairs / With each passing rock star / They come on like squares / Then get off like squirrels / I hate California girls...”).

    Talvez o estereótipo satirizado pelo Magnetic Fields não seja exatamente um estereótipo. As moças, tanto no filme como na matéria que o originou, parecem muito “superficiais” (esta é uma palavra ruim, pois ninguém consegue ser realmente superficial), atraídas especialmente pela fama, por objetos e pela convivência com pessoas que tenham esta fama e estes objetos . O motivo inicial para a invasão das casas não é “apenas” enriquecer, no sentido clássico de posse de dinheiro e propriedades reversíveis em dinheiro, mas ter acesso a roupas e acessórios caros de pessoas que eram símbolos da vida que gostariam de levar (em certa ocasião, cheiraram a cocaína que encontraram na casa de Paris Hilton, fato não mostrado no filme, em parte rodado na residência da própria, além de beberem sua vodca especialmente cara).

     

  • Aquelas pessoas queriam, no fim das contas, compartilhar os aspectos que julgavam positivos de pessoas famosas, consumir a imagem que estas difundiam (e, de certo modo, levaram ao extremo a própria idéia de consumo: se Lindsay Lohan usa sapatos Prada – estou apenas chutando –, diz que os sapatos Prada são legais, tem muitos sapatos Prada, os quais recebe da própria Prada, para quem faz propaganda, e eu acho que preciso ter sapatos Prada, embora não possa arcar com o preço, eu vou tentar me apropriar dos sapatos Prada da Lindsay Lohan – que são tão legais que foram usados pela própria Lindsay Lohan. É uma satisfação perfeita do fetiche consumista de matriz erótica, que tem na base a ideia lacaniana de “desejo”, poderia dizer Peter Sloterdijk) .

    As atitudes de algumas delas após a exposição na mídia, até certo ponto, confirmam esta motivação – a obsessão pelo estilo de vida dos grã-finos hollywoodianos. É claro que, ao longo dos vários meses de furtos, a atividade se tornou um bom negócio, com o roubo de dinheiro e cartões de crédito – usados para comprar produtos de grife. Talvez este seja um bom exemplo dos mecanismos ocultos de uma economia de consumo, só regulada por conta da laicização da culpa e da vigilância do Estado (roubar é feio e é crime).

    O único personagem que mereceu um desenvolvimento psicológico um pouco mais denso foi o do rapaz, cujas falas em off (que simulavam, na verdade, entrevista para a matéria da Vanity Fair) conectam partes importantes do filme. Ele também aparece como deslumbrado pelo mundo das celebridades, suas extravagâncias, seu estilo de vida, sua aparência, suas roupas, o que rende algumas boas piadas (que também podem ser resultado de uma percepção sexista e heteronormativa de minha parte). Entretanto, o rapaz, que chega a declarar que amava a líder do bando como uma irmã, e se sente duramente atingido quando é rejeitado, é o único personagem cuja dimensão humana é relativamente reconhecida e explorada pelo filme.  Isto talvez decorra de sua trajetória posterior, uma vez que confessou minuciosamente o crime sem fazer nenhum acordo com as autoridades e, aparentemente, não tentou explorar midiaticamente sua desventura para se tornar, ele próprio, uma pessoa célebre, parecendo estar realmente arrependido e envergonhado. Durante a entrevista para Nancy Jo Sales, ele usava um calçado de trinta dólares (o que, aliás, enfatiza algumas piadas do filme). De todo modo, o roteiro reconheceu na atitude dele, que parece ser o único realmente desconfortável naquele meio, algo mais próximo do que pessoas adultas e conservadoras considerariam um comportamento aceitável.

    Casa de Paris Hilton serviu de cenário para as gravações do filme

    Muitos dos eventos narrados no filme podem ter parecido, para alguém melhor inserido em uma nova ordem do tempo, com seus novos meios, valores e velocidades (por exemplo, pessoas da mesma idade ou do mesmo estrato social dos protagonistas), como trivialidades, fatos tão comuns que chegam a ser não-fatos. Pessoas muito mais jovens do que eu ou pessoas que tenham amadurecido emocionalmente com acesso muito maior a informações mais detalhadas sobre este tipo de mundo, em geral através da internet ou da TV a cabo, mas também que tenham vivido uma vida próxima às vidas dos personagens ali retratados, necessariamente perceberão um ritmo diferente no filme - alguém poderá dizer que durante aqueles noventa minutos nada aconteceu. Não que estas pessoas concordem ou pensem ou se comportem daquela maneira, mas elas devem estar mais expostas a este tipo de comportamento ou evento, na vida “real”  ou através dos meios de comunicação recentes, de modo que reconheçam aquelas coisas que se passam no filme como fatos relativamente banais.

    Minha percepção do tempo contido no filme e mesmo de detalhes importantes para a densidade da obra só pode ser outra. Há, do meu ponto de vista, uma sucessão de eventos notáveis, fora de um padrão reconhecível, acontecendo em uma velocidade muito diversa daquela do mundo no qual cresci e na qual deveria me sentir mais confortável - mesmo a profundidade das relações humanas parece ser diferente, e eu jamais teria notado o drama de uma amizade excluída do Facebook de um dos personagens se não tivesse sido alertado por uma entrevista da diretora (à qual, aliás, tive acesso por meio de uma pessoa doze anos mais nova,  muito mais capaz de lidar com uma enorme quantidade de informações em um formato próprio deste tempo do que eu). Não que eu não consiga usar o Facebook ou que ele não tenha sido mesmo um ponto problemático na minha vida, mas há nuances linguístico-afetivas disponíveis nesta plataforma virtual de interação humana que simplesmente não consigo perceber e que, por outro lado, causam mais dor do que causariam a uma pessoa que foi capaz de normalizar este tipo de tecnologia intelectual.

    Em texto famoso de 2011, pronunciado em uma formatura, Jonathan Franzen argumentou que a lógica da descartabilidade contida no tecnoconsumo – sempre precisamos de celulares novos – estava migrando para as relações sociais, e o maior exemplo seria o próprio Facebook, onde “curtimos” coisas ou pessoas, bem como “descurtimos”, como um ato de consumo. Em 1990, logo após o governo francês introduzir computadores nas salas de aula de adolescentes, Pierre Lévy argumentava de uma forma muito clara que a própria experiência subjetiva do mundo poderia ser reestruturada pela máquina de informação – trocando em miúdos, ele falava de uma alteração de sensibilidade. No momento em que escrevo este texto, ouço no rádio (no rádio!) a notícia de que, pela primeira vez, a venda de smartphones ultrapassou a de celulares comuns no Brasil. Esta reestruturação, portanto, ainda está em curso, de forma radical e cada vez mais profunda.

    Estas duas percepções (o gosto e o desgosto, o tudo e o nada) em relação ao filme não me parecem auto excludentes. Elas são complementares e até necessárias entre si, pois uma percepção de tempo poderia contribuir para a consciência da outra, alargando a possibilidade de se aproveitar um número maior ainda de narrativas, compreendendo nuances ou fazendo com que as pessoas estejam mais abertas ao diálogo, ou mesmo percebendo de forma mais efetiva uma certa angústia muito presente em nossos dias e que decorre de uma dificuldade de comunicação entre regimes narrativos distintos. Isto pode ter soado ingênuo demais ou, como diria O Rei, otimista demais. Dou, então, um outro exemplo pessoal.

    Os maiores estímulos ao aprendizado que recebo diariamente – não que eu os busque deliberadamente –  chegam de pessoas de idades muito diferentes da minha, para mais ou para menos, e que se relacionam com o tempo de formas muito diversas, o que me obriga a mudar a maneira como olho para o mundo e para os meus próprios preconceitos. Nos transformar a partir da relação com pessoas de outras gerações não é algo sobre o qual nunca pensamos. Mas, talvez, este “aprendizado” não diga respeito apenas ao compartilhamento de experiências diversas, mas também ao fato de precisarmos colocar nossa própria noção de tempo (que tem relação com a percepção do mundo e de nós) em perspectiva.

    Um filme às vezes é mais do que um filme. Ele pode ser, para usar uma imagem muito grosseira, uma janela diante da qual eventualmente nos posicionamos para espiar a vida. Alguns vão se sentir mais confortáveis, ver velhos amigos ou ouvir o reconfortante som da chuva. Outros, inversamente, diante da mesma cena vão se incomodar com o burburinho do mundo ou com os respingos gelados. As sensações, essas variáveis, nunca são responsabilidade exclusiva do mundo-lá-fora, mas podem acabar dizendo muito sobre quem está aqui dentro – e o mais divertido da história é que podemos compartilhar a janela.

    Afinal, eu amei o filme da Sofia Coppola. Embora o tenha, em certo sentido, odiado.

     

     

     

     

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