Tão forte, tão perto

Após perder o pai, o menino Oskar, que tem síndrome de Asperger, trava uma batalha pessoal para superar o luto e se reconectar com o mundo. O filme é um drama que trabalha bem a saudade e a esperança

Agnes Alencar

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    Extremely Loud and Incredibly Close

    Dir. Stephen Daldry, EUA, 2012

     

    "Eis que aprendi

    Nesses vales onde afundam os poentes:

    Afinal, tudo são luzes

    E a gente se acende é nos outros.

    A vida é um fogo,

    Nós somos suas breves incandescências."

    (Mia Couto)

     

    Eu estava em casa quando minha mãe ligou a televisão depois de um telefonema no meio da manhã que lhe avisara que aviões tinham se chocado contra as Torres do WTC.  Lembro-me ainda do choque com que assistíamos as imagens. Eu tinha apenas 13 anos, estava assustada com aquelas cenas. Acompanhei tudo que se seguiu: Osama Bin Laden assumindo a culpa e lamentando o fato do mundo chorar um ataque aos americanos, mas não se solidarizar com os dramas cotidianos do Afeganistão; a ‘guerra ao terror’; a invasão ao Iraque; a mudança nas políticas de viagens aéreas.

    Esta experiência era algo distante para mim ainda que viva na minha memória. O filme do diretor inglês Stephen Daldry, Tão forte e Tão Perto (2011), conseguiu trazê-la à tona de forma inesperada, sobretudo por tentar mostrar o drama pessoal do luto sob a ótica de uma criança. Oskar Shell (Thomas Horn) é um menino de nove anos com síndrome de Asperger cuja ligação com o pai – Thomas, vivido por Tom Hanks - é uma das mais fortes que ele já conseguiu travar. Mas, ao perdê-lo no atentado terrorista, sua principal ligação com o mundo é abruptamente interrompida e, ao longo do filme, ele tenta de diferentes formas sair de sua "concha" - metáfora já sugerida pelo roteirista no sobrenome do garoto, Shell.

    Ao se fechar em si, ele deixa de fora não apenas o mundo do qual muitas vezes sente medo, mas também sua própria mãe – Linda, interpretada por Sandra Bullock –, com quem a relação está sempre tensa. Os dois parecem – e concordam com essa impressão – que não falam a mesma língua. A comunicação familiar era conduzida por Thomas e, com a sua morte, mãe e filho precisam superar a dificuldade com a linguagem.

    A atuação de Thomas Horn é encantadora e delicada; nos transporta muitas vezes para sua própria agonia e dor. O filme é contado quase sempre em primeira pessoa, o que nos permite, através do recurso narrativo, compreender o modo como Oskar enxerga determinada situação. Isso ocorre, por exemplo, um ano depois do atentado, quando, por um acaso, o menino quebra um vaso e encontra uma chave. Oskar, então, inicia uma expedição de reconhecimento para encontrar a origem da chave. Expedições eram mecanismos que seu pai tinha para o incentivar a sair, explorar e a ir além de seus limites, enfrentando seus medos.

     

    Filme reserva surpresas

    O filme, cujo enredo é belo ainda que clichê em alguns momentos, reserva algumas surpresas e deixa perguntas sem resposta. Mas essa não resolução de todos os enigmas é justamente um dos pontos fortes da obra. Ela trata da alma e do sentimento humano e seria uma enorme tolice esperar a resolução de todos os conflitos que a dor do luto pode provocar. Nesse sentido, acredito que o filme afina corretamente seu tom. Existem esperanças e amores profundos que podem nascer da dor, mas nem todas as respostas são encontradas em tempo, nem todas as respostas surgem ao cabo da busca, garantindo um ‘final feliz’. Alguns aspectos continuam angustiantes, continuam dolorosos, e continuamos lutando, como Oskar Shell, para manter acesas as centelhas de uma presença que aos poucos se desvanece.

    Eu diria que é um filme sobre saudade, sobre a dor do luto, seu processo de cura e os modos que podemos encontrar para superar. E eu acredito ainda que é um filme sobre esperança. Enquanto busca as respostas para suas muitas questões, Oskar encontra muitas pessoas; outras vidas, outras dores, outras experiências. Gostei imensamente de como os diversos fios da vida de alguém podem se entrelaçar com os fios da vida de outrem.  O filme nos faz lembrar que, por mais que pensemos que estamos isolados e sozinhos em alguns momentos, existem experiências compartilhadas que não podem ser ignoradas em nossa trajetória.  É uma lembrança de que não somos sem os outros.

    O encantamento dos encontros é um dos maiores argumentos do filme. Ao final da jornada, Oskar juntou uma coleção de experiências diversas, difusas, confusas. Também por elas e por seu pai, enfrentou seus medos, suas limitações. Descobriu outras limitações, mas venceu algumas que anteriormente pareciam intransponíveis. Similar aos nossos próprios trajetos, nos quais por vezes precisamos escolher entra o que seria mais relevante do que o medo. Uma das coisas mais importantes que nossos receios, eu acredito ser a esperança. A esperança de encontrar respostas, a esperança de manter vivo um amor, a esperança de conseguir conviver com a ausência presente e a presença ausente de alguém.

     

     

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