Show de horrores

Apesar de ser rotulado como um filme ultraviolento, Laranja Mecânica pode ser uma obra interessante para se entender as relações de poder na sociedade contemporânea

Janine Justen

  • Laranja Mecânica (1971)
    Diretor: Stanley Kubrick

    Entre copos de leite, manequins e sangue, escondem-se os meninos de Kubrick, Alex (Malcolm McDowell) e seus droogs, Pete (Michael Tarn), Georgie (James Marcus) e Dim (Warren Clarke) na chamada Korova Milk Bar. Adaptação do romance homônimo do britânico Anthony Burgess, escrito em 1962, o longa Laranja Mecânica (1971) marcou época e é apontado, ainda hoje, como um dos grandes títulos do cinema moderno pela crítica.

    Ambientada numa Grã-Bretanha de 1995, a trama gira em torno das desventuras de um sociopata carismático, o que confere à questão da identidade papel crucial na narrativa. Apesar dos crimes cometidos ao longo da história e da personalidade agressiva de Alex, o personagem é capaz de despertar pena e, até mesmo, compaixão à audiência. 

    Ainda que seus companheiros usem as mesmas roupas e se comuniquem em um dialeto próprio – o Nadsat, uma mistura de inglês, russo e gírias londrinas –, o respeito alcançado pelo medo e a imposição de valores e gostos denunciam claramente o posto de Alex como líder do grupo.

    Logo no começo do filme, o espancamento gratuito de um mendigo, o estupro coletivo de uma atriz e a invasão de uma mansão pela porta da frente, com direito a murros, ponta pés e roupas rasgadas. Em busca de uma "diversão sem limites" para lá de questionável, a gangue urbana não mede esforços para transgredir as leis e a ordem.

    Representantes da classe média britânica, os adolescentes ainda moram com os pais e estão matriculados em colégios regulares. São os famosos “rebeldes sem causa”, mas que de clichês e desinteressantes não têm nada. “Você tem um bom lar, pais carinhosos, seu cérebro não é ruim. É algum demônio que se apossa de você, Alex?”, questiona com ironia o advogado da família, que, neste momento, relembra ao protagonista suas estadias anteriores (vale dizer, ineficazes) em instituições corretivas.

    A guinada do filme se dá quando as coisas fogem do controle. Acidentalmente, uma das vítimas escolhidas pelo grupo é morta. Rapidamente a hierarquia se desfaz e os comparsas de Alex fogem amedrontados, o deixando para ser pego pela polícia. 

    Nas entrelinhas

    Laranja Mecânica geralmente é rotulado como um filme muito violento. Mas, para além disso, trata de maneira brilhante de relações de poder. Estão todas lá: família, escola, polícia, prisão, hospital, Estado, Igreja, imprensa, alta cultura, consumo. Um corpo social cuja hierarquia instituição-homem ora se inverte, ora se reafirma. Caso elegêssemos um fio condutor para a trama seria a competição entre estas instituições. Disputas entre lugares de fala, referenciais e autoridade, tangenciando, a todo custo, a curva da postura ética.

    A trama demonstra que as disputas de poder estão em todo lugar: desde relações de força travadas entre cidadão e Estado, até uma relação entre pai e filho, chefe e empregado, professor e aluno, marido e mulher. E mais: pode-se perceber que o poder não apenas coíbe e reprime, mas produz subjetividade, constrói identidades. Neste caminho, a disciplina aparece como maior e mais eficaz dispositivo de controle e instrumento de intervenção social.

    Durante a permanência de Alex na prisão, quando foi condenado a uma pena de 14 anos por assassinato, se tem o grande momento de introspecção do personagem. “Não tinha sido edificante, não mesmo. Ficar num infernal zoológico humano por dois anos sendo chutado e 'toltchocado' por guardas brutais e encontrando criminosos depravados e pervertidos prontos a babar por um jovem e formoso 'maltchique' como o que vos fala”, desabafa o rapaz, que, se comparando aos outros presos, valoriza seu próprio eu.

    Alex estreita relações com a religião e se aproxima do padre da cadeia para demonstrar bom comportamento. E seu interesse pelo “Bom Livro” (maneira irônica pela qual o personagem faz referência à Bíblia) não passa de um agente catalisador: aceleração do tempo e fuga da realidade. Travestindo-se de um verdadeiro crente, que fingia arrependimento de seu passado e devoção pela divindade cristã, Alex, na verdade, se via como os romanos que condenaram e crucificaram Jesus. Seu desejo genuíno de regeneração não ia além de uma eficiente representação, mas deu certo.

    É nesta conjuntura que surge um tratamento experimental com objetivo de transformar o mal em bem, sem que isso passasse pela vontade da cobaia. Aos olhos do nosso protagonista, a grande chance de “escapar” pela porta da frente. O candidato que se submetesse à intervenção psiquiátrica por 15 dias teria como recompensa a liberdade. Mas depois do tratamento, o paciente não teria mais a capacidade de escolher entre o certo e o errado, seria impelido ao certo sempre, sem qualquer livre arbítrio – o que, para Alex, não se apresentava, propriamente, como um problema.

    O caso ganha visibilidade nos jornais. A princípio, há a expectativa da cura e a opinião pública logo se mostra a favor do tratamento, já que a eliminação súbita de criminosos seria um bem para a sociedade. Depois, surgem acusações de tortura e violação dos direitos humanos. Há um impasse e o caso vira uma briga política.    

    De marginal à vítima, o protagonista, submetido a medicamentos fortes, correntes elétricas, tortura psicológica, retoma os cuidados médicos após uma tentativa de suicídio. O tratamento havia, de fato, funcionado, mas às custas de um sofrimento intenso do paciente. Depois de sair da Clínica Ludovico, quando se deparava com uma situação em que normalmente teria uma reação agressiva, Alex passava mal e era irrompido por uma sensação de vazio, pânico e repúdio. 

    A técnica Ludovico

    O nome da técnica usada no tratamento não partiu de uma escolha aleatória. Objeto de amor do personagem até a intervenção médica, a Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven era trilha de todas as atrocidades cometidas pelo protagonista. Estimulado pelas notas marcantes, o líder da gangue sentia-se em plena forma para praticar o que chamava de “ultraviolência”. Em uma das sessões do tratamento, a música é associada às torturas psicológicas sofridas pelo transgressor e, a partir daí, a canção passa a ser causa de uma profunda angústia. 

    Adaptada do poema “Ode à Alegria”, de Friedrich von Schiller, a letra da sinfonia se tornou tão emblemática que hoje é tida como o hino europeu. Escolhidos muito provavelmente pela conotação satírica conferida à produção, os versos dão vida e movimento à controversa trajetória de Alex, da satisfação à agonia. “Alegria bebem todos os seres no seio da natureza: todos os bons, todos os maus,seguem seu rastro de rosas”, diz a música. Talvez possamos atribuir essas conturbadas circunstâncias à ideia de falsa liberdade da era moderna, sob a qual temos a ilusória sensação de escolha e autonomia.

    Polêmica do início ao fim e em toda sua repercussão, a versão cinematográfica de Laranja Mecânica acabou sendo rechaçada pelo autor do livro que serviu de base para ela. Anthony Burgess reclamava de ter sido fadado à fama pela obra de que menos gostava. O filme levou diversas pessoas à porta de Kubrick para reclamar sobre o conteúdo violento, fazendo com que saísse de cartaz na Inglaterra antes do previsto, a pedido do próprio diretor. No Brasil, foi proibido durante o período do regime militar, mas, por aqui, as cenas de nudez eram a grande preocupação dos censores.

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