Rindo do totalitarismo

Unidos pela ironia, ‘O grande ditador’ e ‘A vida é bela’ retratam aspectos distintos do nazismo e mostram como é delicada a intenção de se fazer humor com a tragédia e o horror

Marcello Scarrone

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    Não sabemos se foi aquele bigode, tão parecido com o que usava para o seu personagem de vagabundo, ou a possibilidade de personificar o líder alemão com mais facilidade devido à curtíssima diferença de idade – já que Hitler era apenas quatro dias mais velho do que Chaplin. Ou se tudo se deve a uma precisa determinação de lançar ao mundo uma mensagem de fraternidade que, através dos instrumentos do riso e da ironia, sepultasse a trágica loucura do nazismo, com seus rituais caricaturais e suas proclamações alucinadas.

    Fato é que, em 1940, Charles Chaplin emprega capitais e energias no projeto de “O Grande Ditador”, sátira do imperialismo e do totalitarismo de Hitler, quando a guerra mundial ainda estava no começo, embora com uma França já derrotada e um Reino Unido humilhado e acuado diante da marcha triunfal dos exércitos germânicos. A delicada história do barbeiro do gueto judaico se entrelaça com a representação de Hynkel, ditador do Estado da Tomânia: os dois são tão semelhantes que, no final, acabam sendo confundidos um pelo outro. Os dois personagens são interpretados por Chaplin e o contraste entre eles se torna o fio condutor do filme, que apresenta vários coadjuvantes para dar vida à narrativa - seja ao mundo do gueto, seja ao palácio do poder, onde o ditador exibe sua vontade de potência.

    Nomes e símbolos, embora deformados ou oportunamente modificados, permitem identificar alusões ao alto escalão nazista, a Mussolini em visita à Tomânia /Alemanha, às insígnias do partido e a seus rituais. Cenas famosas estão na mente do espectador que já assistiu à película, como a dança de Hynkel / Hitler com um globo inflável; ou o inicialmente tímido e depois cada vez mais inflamado discurso final do barbeiro, casualmente agora como ditador, com sua mensagem de paz e fraternidade universal: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.”

    Além de certa retórica, é impressionante o contraste entre as palavras do proclama e a realidade que já estava se manifestando nos campos de batalha da Europa, as vitimas do conflito, e as perseguições raciais que o marcarão tragicamente. Caricatura e ao mesmo tempo grito de alerta, o filme abre o debate sobre o uso do humor e do riso para descrever e criticar situações tão dramáticas. Alguém afirma que o próprio Chaplin teria declarado que se, à época da realização da obra tivesse tido pleno conhecimento da inteira realidade que estava atrás do fenômeno nazista, e do horror do holocausto, provavelmente teria renunciado ao projeto ou não teria realizado aquele tipo de filme.  Rir ou sorrir de tragédias impõe perguntas sérias à consciência. Certamente, o poder e os poderosos sempre foram alvo da ironia e da sátira dos meios de comunicação e da voz popular, e é verdade também que o sorriso, em certas circunstâncias, permite retirar dos ombros, pesos de outra forma insustentáveis, assim como a capacidade de exercê-lo, é um dos sintoma da verdadeira inteligência. Mas resta a pergunta sobre sua legitimidade ética quando se trata da existência e do destino da pessoa, seja uma ou milhões. 

     

    Respeito à dor dos outros

    Um possível início de resposta talvez se encontre na atitude de respeito pela dor e o drama alheio que deve guiar o artista. O resultado atingido por Chaplin, julgado deste ponto de vista, é admirável. Tanto eficaz em sua sátira clownesca do ditador vilão, quanto brilhante em seu olhar atento aos aspectos mais simples e corriqueiros, e por isso, talvez mais significativos, da vida humana.

    Vários outros cineastas se debruçaram sobre o nazismo e os dramas por ele desencadeados através de uma chave de leitura irônica ou lançando mão do sorriso, às vezes um tanto amargo. Como o francês “Trem da Vida” (1998), narrando a fuga dos judeus de uma inteira aldeia para se subtrair ao campo de concentração, através de disfarces nazistas, incluindo um trem de deportação. Ou como “Bastardos Inglórios” (2009), de Quentin Tarantino, com suas pitadas de humor negro sobre um batalhão de judeus matadores de nazistas. Um dos mais célebres é, contudo, o poético “A Vida é bela” filme de 1997, dirigido e interpretado pelo italiano Roberto Benigni. Foram exatamente as polêmicas que levantou ao tratar de forma leve e engraçada eventos que se passavam num campo de concentração nazista que tornam importante discutir aqui o filme, três vezes premiado no Oscar de 1999. O longa narra a história do judeu Guido, que, deportado da Itália para um campo de extermínio junto com seu filho Giosué, de seis anos, consegue convencê-lo de que se trata de uma grande brincadeira no final da qual poderá ganhar um tanque de verdade, e desta forma o salva da morte, da qual, porém, ele mesmo não escapará.

    História de amor, de paternidade até o extremo, história repleta de “graça”, nos dois sentidos de humor (seja na vida civil como no campo de concentração as performances do protagonista são todas assinaladas por atitudes e verbalizações engraçadas) e de doação gratuita de si, o filme tem o sabor de uma fábula contemporânea, as tentativas e os esforços de Guido para proteger o filho sendo como as migalhas de pão deixadas na floresta para a criança reencontrar o caminho de casa. E como uma fabula tem que ser julgada, fábula na qual sabemos quem é o lobo mau e na qual torcemos para que a princesa seja salva, e que se torna ocasião para uma reflexão sobre o universo de valores com os quais cada um conduz sua vida.

    Aqui, como no filme de Chaplin, a esperança perfura as trevas da razão, obscurecida nesta negação do outro em quanto outro, a ponto de exterminá-lo simplesmente porque outro. Raiz do holocausto, o ódio pelo outro, a negação ao outro do estatuto de ser humano, valerá para qualquer outro extermínio da historia, antes de Hitler e depois dele, cometido em nome da raça, do partido, da etnia ou da crença religiosa.  “As raízes do genocídio judaico devem ser procuradas nos perseguidores, não nas vítimas, que sob os mais mesquinhos pretextos foram entregues aos assassinos” escrevia Theodor Adorno. A esperança, contudo, é o que permite encarar o carrasco, como Guido que ouve os comandos gritados pelo soldado alemão e finge traduzi-los para o filho como instruções de uma gincana coletiva.

    Um pai que protege um filho, escondendo-lhe uma demasiadamente dura realidade: licito até que ponto esse ato de “distração” diante do mal, e licita até que ponto essa transformação artística da dor em sorriso, cansado e triste, mas sorriso? O debate fica aberto. Mas, de novo com Adorno, acreditamos que diante de uma dor extrema, como foi a do holocausto, mais do que o relato racional do historiador, talvez a forma artística seja a única capaz de expressa-la adequadamente. Até através de um sorriso.   

     

    A vida e bela

     

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