O barulho que segue “O som ao redor”

Filme aponta a câmera para extremos da sociedade e é aclamado pela mídia. Longa de Kléber Mendonça arrecada pouco em bilheteria e expõe um racha antigo no Brasil: o que há entre o pensamento crítico e a vontade do público

Ronaldo Pelli

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    Há ao menos dois fenômenos sociais expostos com o início da exibição de “O som ao redor” no Brasil. Um que parte do filme para tentar entender a sociedade. E outro, quase em sentido inverso, que parte da população em geral, passa pelo filme, e ricocheteia em direção aos espectadores. O filme, de toda forma, já tem por si só um grande mérito: espelhar facetas nem sempre mostradas de nosso corpo social. Comecemos pelo segundo caso, que, talvez, explique de maneira pouco tradicional o primeiro.

    Poucos filmes brasileiros, desde o início da Retomada, tiveram uma projeção internacional como esta produção do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho. Podemos nos lembrar dos indicados ao Oscar ou de quem recebeu prêmios nos principais festivais de cinema do mundo, como Cannes ou Berlim. O primeiro longa de Kleber, que já tinha rodado vários curtas, além de trabalhar como crítico de cinema, seguiu outro caminho. Foi escolhido pelo jornal “The New York Times” como um dos dez melhores filmes de 2012. Essa foi a deixa para uma onda de críticas positivas ao filme na terra brasilis.

    Não que o filme não mereça todos os elogios – ao contrário. Ao retratar um microcosmo da sociedade brasileira raramente exibido no cinema – a classe média – a história traz um frescor incomum para as telas.  O filme se passa em Recife, mas, como destacou o crítico do jornalão americano, “nós poderíamos estar em qualquer lugar”. Kleber respeitou o velho conselho de falar sobre o seu universo particular para ser universal. Não há uma grande trama, mas pequenos esquetes do cotidiano, mostrados com uma intimidade às vezes desconcertante. Lembra, nesse aspecto, o cinema da argentina Lucrecia Martel.

    O grande acerto de Kleber, é bom ressaltar, ficou na escolha de seus personagens: são todos factíveis. Você pode apostar que conhece alguém parecido com João, Sofia, Bia ou mesmo seu Francisco, o grande latifundiário que ainda mantém seu poder quase intacto, ou Clodoaldo, o segurança miliciano da rua. Em alguns momentos, são engraçados. Em outros, dão raiva. Em todos, são múltiplos, ambíguos, estranhos. São humanos, enfim. Fazer um filme não necessariamente realista, mas sobre a realidade é um fato cada vez mais raro entre nossas produções.

    Contudo essa percepção positiva por parte da crítica não refletiu em uma boa bilheteria. Apesar da boa-vontade geral de certa intelligentsia liberal que ri de situações constrangedoras, como a citação depreciativa aos leitores da revista “Veja”, “O som ao redor” tinha levado cerca de 60 mil espectadores para os cinemas, em suas cinco primeiras semanas de exibição. Como efeito de comparação, “De pernas para o ar 2”, uma comédia leve e despretensiosa focada no público feminino, em seis semanas tinha feito quase 4,5 milhões de espectadores. Isso não prova muita coisa, já que há outros elementos envolvidos nos números frios de uma produção do cinema hoje em dia. Tratado como produto, esta equação respeita muito mais elementos como distribuição, propaganda e outras formas de marketing, que a simples qualidade do filme. As críticas positivas se tornam apenas uma peça dentro dessa estratégia.

    É exatamente aí que “O som ao redor” começa a mostrar uma das facetas da nossa sociedade. Há um racha que existe há muito tempo e que, aparentemente, só tende a se ampliar: o pensamento crítico não representa a vontade do público. Não há diálogo entre essas duas instituições. Muitas vezes há exatamente o oposto: o público que escolhe o filme entre os piores criticados; e o crítico que esnoba as grandes bilheterias. Assim, acontecem bate-bocas públicos, como o exposto pela “Folha de S. Paulo”, entre o próprio diretor Kleber Mendonça Filho, pelo lado dos críticos, do cinema cult, da “alta cultura”; e o diretor-executivo da Globo Filmes,  Cadu Rodrigues, pelo lado do público, do cinema de massa, popular, tendendo ao popularesco.

    O curioso disso, dessa discussão, e finalmente adentrando o segundo tópico, é que a vontade declarada de Kleber ao rodar esse filme era, de certa forma, atualizar o tema freyreano da casa-grande e senzala, da divisão entre senhores e escravos. As cenas iniciais são mais claras nesse aspecto: após mostrar uma sequência de fotos antigas que exibem essa disparidade social e de poder, ela mostra que não houve tantas mudanças até hoje, com um condomínio lotado de babás negras tomando conta de crianças brancas. Em entrevista à revista Carta Capital, ele reclama do desprezo que temos em relação à História: “O Brasil só pensa no presente e no futuro. Esquece que o passado é o manual de instruções de uma sociedade”, desabafou Kleber.

    Ou seja, apesar de tentar e, na opinião de muitos especialistas, conseguir mostrar a classe média brasileira, e, de certa forma, a mundial – por ser cada vez mais parecida em seus consumos e gostos – o cineasta apontou sua câmera para os extremos da sociedade brasileira. Como se ele conseguisse mostrar o estrato mediano, ao mirar no alto e no baixo, dessa sociedade. Ao mesmo tempo, porém, o filme, ao se levar em conta os seus números, não consegue se comunicar com essa mesma classe média, que é, provavelmente, a maior consumidora de cinema no Brasil.

    Qual será o motivo dessa dissonância? Será que não vemos o cinema como um espaço para espelhar e problematizar a nossa sociedade? Será que enxergamos a sala escura apenas como um lugar para escapar do que acontece fora dela? Será que não temos, em geral, as ferramentas para interpretar filmes que fogem de uma estética televisiva? Ou será que finalmente estamos chegando ao mercado dividido em nichos específicos em que cada um tem, deve ter, e terá o seu espaço para trabalhar?

     

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