Lembranças abertas

Novo longa de Lúcia Murat, "A memória que me contam", chega à telona trazendo os dilemas de uma geração que viu suas utopias se desmancharem no ar

Aline Salgado

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    Filme estreia nesta sexta-feira nos cinemasO que pensa, como vive e com que sonha a geração que pegou em armas nos anos de chumbo para ver concretizada a utopia de um país livre e com justiça social aos moldes das letras de Marx? É na sala de espera de um hospital, frente ao drama de uma amiga no leito de morte, que um grupo de companheiros e ex-militantes voltam a se deparar com lembranças de um passado ainda aberto. Dor, culpa, revolta e a dúvida, se suas lutas e riscos valeram realmente a pena, norteiam a nova, e instigante, trama que Lúcia Murat traz para os cinemas, a partir deste fim de semana.

    Tendo a ditadura civil-militar como pano de fundo, tema recorrente e sensível à diretora - militante e vítima de tortura nos anos de chumbo - "A memória que me contam" gira em torno da figura de Ana, ou melhor, Vera Silvia Magalhães, amiga e companheira de causa que participou do sequestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick, em 1969. Assim como Vera, a personagem Ana, que ganha vida por meio da sensível atuação de Simone Spoladore, luta contra um câncer e se encontra em estado grave no hospital. 

    Reunidos pela dor da despedida de uma companheira símbolo da luta armada, os amigos, hoje não tão jovens e menos idealistas, voltam a se encontrar e repensar um passado cada vez mais vivo no presente atual. Observadora atenta do conflito, externo e interno que se passa com cada um dos amigos, inclusive consigo mesma, Irene, interpretada pela atriz Irene Ravache, tem na aparência e no espírito elementos autobiográficos da diretora, Lúcia Murat. E foi justamente por meio das inúmeras e repetidas cenas do seu cotidiano que saiu a inspiração para rodar "A memória que me contam".
     
    A diretora, Lúcia Murat, em set de filmagem / Foto: Divulgação
    "O longa é ficcional, apesar de ser inspirado em fatos reais. A base foi escrita em 2008 e rodado em 2011. Parte dos conflitos que se desenham com os personagens naquela sala de hospital foram vivenciados por mim e por todo o grupo quando das recaídas de saúde de Vera. Mas esta é uma obra ficcional que retrata situações e preocupações reais que finalmente chegaram ao público. A Ana somos todos nós, uma geração que viveu a luta armada", destaca Lúcia Murat.
     
     
    É usando justamente o atraente jogo entre ficção e realidade que a diretora explora às críticas à formação das Comissões da Verdade e os entraves que ainda envolvem a abertura de arquivos secretos do período da ditadura civil-militar, sob a posse das Forças Armadas. Lúcia, inclusive, voltou a ser personagem da História, quando deu seu depoimento à Comissão Nacional da Verdade, em maio deste ano, sobre as sessões de tortura que sofreu no Doi-Codi - quartel do Exército, localizado, ainda hoje, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, Rio de Janeiro.
     
    A atriz Irene Ravache vive a personagem Irene, inspirada na própria diretora / Foto: Divulgação"Fiquei  muito impressionada com a repercussão nas redes sociais. Pela primeira vez vivenciei a internet do bem. Meu depoimento atingiu pessoas que não tinham a menor ideia do que tinha se passado comigo e naquele período. E é essa a importância da Comissão da Verdade: revelar o passado. Mas é preciso que os torturadores deponham também para que tenhamos a real dimensão do que aconteceu nas Casas da Morte", defende Murat. 
     
    Mesclando cenas reais como a Passeata dos Cem Mil, a volta dos exilados e arquivos fotográficos pessoais, "A memória que me contam" toca o documental e de forma dramática, sensível e crítica constrói uma trama onde valores do presente e do passado se chocam a todo o momento. Para quem viveu em uma geração cheia de idealismos e apostas em um mundo mais justo, será que toda a luta valeu a pena? Até mesmo a armada? 

    Para Lúcia Murat, talvez essa seja uma pergunta ainda sem resposta. "Tem coisas que fazem parte da sua vida. E ver o passado sob uma perspectiva deslocada do seu tempo, é tarefa difícil de julgar", afirma Lúcia, deixando o desafio de entender a geração dos anos de chumbo nas mãos do próprio espectador.
     

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