Isto é a Inglaterra

Filme que se passa nos anos 1980 dá uma aula de Tempo Presente, ao retratar o movimento skinhead na Grã-Bretanha de Margareth Thatcher. No início, movimento não tinha ligação com ideário fascista

Nashla Dahás

  • This Is England (2006)

    Shane Meadows

     

    “Nós éramos amigos”. É assim que o skinhead Combo descreveu sua relação com Milk, o único negro membro do movimento de ‘cabeças raspadas’, antes de espancá-lo até a morte. No filme Isto é Inglaterra, Combo, interpretado por Stephen Graham, retorna à vida social após três anos na prisão, cumprindo pena por outro crime.

    O desfecho trágico permite variadas interpretações. O longa-metragem que se passa no início dos anos 1980 ilustra por duas horas um cenário skinhead feito de muito reggae, companheirismo e orgulho de uma classe trabalhadora que se diferencia pela aparência impecável, com direito a suspensórios, “camisas Ben Sherman”, e “botas Doc Martens”, apesar da grave crise econômica e do desemprego na Inglaterra da época. Na primeira delas, marca-se um momento de transformação no movimento skinhead, a partir do qual a inocência das primeiras décadas do movimento vai cedendo lugar à ideologia nacionalista cada vez mais racista e xenófoba. Isso ocorre ao mesmo tempo em que a política liberal conservadora de Margaret Thatcher surte efeito positivo na economia, o que traz mudanças poderosas à auto-imagem nacional, sobretudo, após a vitória na Guerra das Malvinas, em 1982.

    A Inglaterra, nesse caso, não estaria imune a um processo verificado em escala global e entendido hoje como parte de uma reação às liberdades políticas e comportamentais reivindicadas durante as décadas de 1960 e 70. Lemas associados à “paz e ao amor” dos hippies passariam a ser rejeitados culturalmente através da incorporação da estética que acompanhara as experiências nazistas e fascistas na primeira metade do século XX. Ao mesmo tempo, governos conservadores ditariam as regras do jogo internacional com medidas de austeridade e repressão violenta dos movimentos estudantis, sindicais e de oposição em geral. Era o mundo mostrando à História que a aceleração do tempo deve estar à mercê da capacidade de compreensão que os homens têm para interpretá-la, e que mudanças drásticas não ocorrem ao largo de uma digestão lenta e imprevisível.

    Por outro lado, ao assistir à cena do espancamento, o personagem principal do filme, um garoto de 12 anos que perdeu o pai na Guerra com a Argentina, escolhe a solidão e a liberdade ao pertencimento ultranacionalista. Iria se revelar, desse modo, a essência e a peculiaridade da Inglaterra diante da Europa. No berço do liberalismo, não haveria espaço para a ideologização perniciosa da sociedade contra o Estado, mas uma classe operária orgulhosa de sua posição no “processo de produção material”, reivindicativa de melhorias das condições de trabalho e da economia nacional, mas conscientemente produtora de seus próprios sonhos, discursos e imagens. Se na política ficaria consagrada a frase da Primeira-Ministra segundo a qual “não existe essa coisa de sociedade. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem as famílias”, a explicação para a irrupção social do ódio ao imigrante seria também individual, partindo de casos isolados de desestruturação familiar e distúrbios emocionais associados à falta de perspectiva econômica. Combo é apenas um skinhead entre um grupo muito mais amplo que percebe a tentativa de manipulação política de um movimento social e cultural; dá sentido a este processo no momento em que ocorre e faz suas escolhas individuais pelo consenso ou pelo desprezo, sempre disfarçado de boa educação ou de civilização.

    De todo o modo, quase pressentimos a proximidade do passado representado no longa. Talvez a saudade também seja comum, ainda que não o tenhamos vivido. Elementos tradicionais da narrativa audiovisual, como a utilização de imagens de época intercaladas com a construção de cenas nos subúrbios ingleses, onde fermentava um modo de viver, de vestir e de se comportar próprios, privilegiam a contingência que marcou o período. A simultaneidade de um conjunto de imagens que ilustram as décadas de 60 e 70, convivendo com especificidades inglesas dos anos 80, como a utilização da palmatória nos colégios. A desvinculação do movimento skinhead de uma imagem neonazista um tanto habitual nos dias de hoje é acompanhada pela desconstrução de um imaginário do “depois de maio de 68” europeu como um tempo homogêneo e previsível.

    O longa

    O filme começa exatamente em 1983 num bairro de trabalhadores da Inglaterra. O independente Shaun (Thomas Turgoose) se defende como pode dos deboches escolares que recebe em razão de sua calça com bocas de sino herdadas do pai. É acolhido por um grupo de Skinheads que se sensibiliza com a angústia do menino e aos poucos o faz sentir parte da “família”. Inicia-se a construção desse personagem, o skinhead inglês nascido da consciência de classe que o compartilhamento das experiências mais comuns do dia a dia permite a um grupo, independente do sexo, cor ou etnia. Embalados pelo som de origem jamaicana trazido pelos muitos imigrantes que a Inglaterra recebeu de sua colônia independente apenas em 1962, os jovens dividem uma expectativa de futuro indefinida e desanimadora. Encontram segurança nos laços de amizade e respeito, mas especialmente na capacidade de vivenciar experiências de identidade, de criar códigos de comportamento e de aparência que asseguram o reconhecimento e a própria historicidade.

    Shaun abandona as calças do pai e veste outras mais justas, com camisa social, suspensório, botas militares e cabelo raspado. A mãe do menino reclama do penteado, mas confia a ele a responsabilidade por suas escolhas, afinal, “ele se sente bem com essas roupas e com os novos amigos”. Indício de que compreende a socialização como constituição de individualidade que o tornará capaz de movimentar-se melhor ao longo da vida, nos campos da linguagem, da imagem e principalmente do trabalho. Não há a possibilidade aberta de ideologização ou manipulação geracional. Não há este perigo aqui, isto é a Inglaterra, parece nos dizer.

    Isso não significa que a Inglaterra não tenha tido o seu 68, com estudantes marchando contra a Guerra do Vietnã ou contra as leis anti-imigração. Greves operárias e movimentos sindicais reivindicaram melhorias nos salários e condições de trabalho, feminino, inclusive. E um ano antes, Stuart Hall, Edward Thompson e Raymond Williams haviam lançado o “Manifesto de Maio”, um dos primeiros produtos da chamada nova esquerda britânica, crítica dos modelos neoliberais e de modernização conservadora. Ocorre que aquele foi um momento de coexistência de variadas linguagens políticas, absorvidas ou não pelos grupos cuja vivência nunca teremos acesso irrestrito. Além disso, a simultaneidade também se deu no campo das temporalidades, justapostas de maneira específica em cada lugar. Em This is England o telespectador encontra não apenas uma representação do que aconteceu, mas uma instigante problematização da memória socialmente construída sobre as décadas de 70 e 80 na Europa e, mais especificamente, uma reflexão sobre a generalização do movimento skinhead como filho de uma estética nazista e de uma apologia da violência.

    As recentes ondas de conservadorismo racista, em grande medida mobilizadas eleitoralmente, não apenas na Europa, mas na América Latina, Oriente Médio e Ásia, denunciam a necessidade de se repensar o léxico, os conteúdos simbólicos e as apropriações teóricas desse tipo de acontecimento, para além das ferramentas deixadas pela tragédia nazi-fascista. A filósofa alemã, Hannah Arendt, por exemplo, apontou o esvaziamento do sentido da ação política como chave de compreensão para a eclosão de movimentos que, nos anos 60, e em todo o mundo ocidental, teriam visto na violência a única forma de atuação possível.

    Vale pensar em que medida o arrefecimento quase total dessa disposição para a utopia se deu em conformidade com a resolução de sua questão de fundo, qual seja a forma de participação política que o jovem de hoje encontra ao alcance das mãos. Por outro lado, dificilmente, jovens brasileiros que hoje raspam a cabeça e tatuam a suástica no braço para assassinar a base de pauladas grupos de homossexuais estão ressignificando os símbolos e o discurso dos anos 30 alemão. No campo da história, talvez seja necessário passarmos de uma posição de “atribuição de sentidos” para a compreensão das coisas que acontecem em nosso e n’outros tempos, de modo semelhante ao que podemos ver no filme sobre os skinheads ingleses. A despretensão de reconstituir o período de forma hegemônica permite a formulação de variadas interpretações, ao mesmo tempo em que relativiza memórias construídas a posteriori e esclarece didaticamente aspectos de uma história factual. Desses casos em que menos dá vontade de quero mais.

     

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