Ideias são à prova de balas

Lançado em 2005, ‘V de Vingança' revisita antigos ideais anarquistas, como a destruição dos símbolos de poder de uma sociedade

Gabriela Nogueira Cunha

  • V for Vendetta

    Dir. James McTeigue, EUA/ Inglaterra/ Alemanha, 2005.

     

    Remember, remember, the 5th of November

    The gunpowder, treason and plot;

    I know of no reason, why the gunpowder treason

    Should ever be forgot.

    “Um prédio é um símbolo, assim como o ato de destruí-lo. Símbolos ganham poder através das pessoas. Sozinho, um símbolo é insignificante, mas com a quantidade suficiente de pessoas, a explosão de um prédio pode mudar o mundo.” Um sorriso congelado pode esconder muitos rostos, mas por si só revelar uma única ideologia. Não é do homem por trás da máscara que o mundo se lembrará, mas de suas ideias e do que ele fez para honrá-las.

    V de Vingança (2005) conta a história de um homem que viveu, e morreu, por seus ideais. Um homem que, escondido atrás de uma máscara, podia ser ninguém ou todo mundo. No trecho acima, V – o codinome, o homem, a máscara, a ideologia – explica a motivação por trás do mirabolante plano de explodir o prédio do parlamento britânico, numa Inglaterra fictícia da década de 2020.

    Dossiê Anarquismo:

    De braços e dedos cruzados

    Sonhar também muda o mundo

    Utopia de máscara nova

    Ocupar com k

    Era uma casa muito livre

     

    Sua inspiração vem de Guy Fawkes (1570-1606), o mítico personagem histórico inglês que, em 5 de novembro de 1605, teve participação na chamada “Conspiração da Pólvora” (Gunpowder Plot), que pretendia assassinar o rei protestante James I da Inglaterra, assim como todos os membros do parlamento, mandando o prédio pelos ares. Fawkes era o responsável pelos barris de pólvora que seriam utilizados para explodir a edificação. Ele foi capturado, torturado e executado na forca por traição. Sua captura é celebrada até hoje no Reino Unido: “lembrem-se, lembrem-se, do dia 5 de novembro”, ecoa a rima no imaginário popular.

    Um homem pode ter falhado, mas 400 anos depois uma ideia ainda pode mudar o mundo. É neste embalo que o filme – baseado na HQ homônima de 1985, escrita por Alan Moore e desenhada por David Lloyd, num período em que a Inglaterra era liderada pela “Dama de Ferro” Margaret Thatcher (primeira-ministra entre 1979 e 1990) – apresenta o dramático e teatral V. O anti-herói que, motivado por um sentimento de vingança pessoal e munido de um forte ideário anarquista, explode prédios e assassina membros do governo como principal forma de resistência e luta contra o fascismo, aqui encarnado na figura do alto chanceler Adam Sutler (John Hurt), que domina seu país e oprime seu povo.

    Como que numa espécie de retrato caricato e futurístico da Alemanha nazista de Hitler (ou mesmo da Itália fascista de Mussolini), V de Vingança traz um cenário sombrio, onde negros, homossexuais, esquerdistas e outros “indesejáveis” são perseguidos e executados em campos de concentração. Um Estado ultraconservador e totalitário, apoiado pela Igreja, cuja imagem é mantida através da manipulação midiática da rede estatal de TV britânica e que tem a seu serviço uma polícia secreta que aterroriza a população diariamente.  

    A trama cinematográfica se desenrola a partir do encontro entre V e Evey Hammond (Natalie Portman). Após resgatá-la das ameaças do braço armado do governo, numa noite em que a garota havia saído de casa depois do toque de recolher e acabou sendo pega pelos “dedos” da polícia (como são chamados no filme). Numa das cenas de maior apelo cômico do longa, o homem por trás da máscara se apresenta como mero personagem de uma vendetta orquestrada por ele, mas que só poderá ser protagonizada pelo povo, aí resumindo toda a simbologia que o acompanhará até o final de sua história.

    Voilà! Eis aqui um humilde veterano vaudevillian, jogado no papel tanto de vítima, quanto de vilão, pelas vicissitudes do destino. Este rosto, não um mero entalhe de vaidade, é um vestígio da voz do povo, agora vaga, sumida. No entanto, esta valorosa visitação de uma vexação passada agora é vivificada e jurou vencer esses vermes venais e virulentos que salvaguardam o vício e protegem a violação, violentamente viciosa e voraz, da vontade. O único veredicto é a vingança, uma vendetta, mantida como um voto, não em vão, pelo valor e pela veracidade dos que um dia irão vindicar o vigilante e o virtuoso. Na verdade, esta vichyssoise [sopa]de palavras se tornou um tanto prolixa, então me deixe simplesmente acrescentar que é uma honra conhecê-la e você pode me chamar de V.” 

    Findada a sessão de trava-línguas, o tresloucado V carrega Evey até um telhado de onde assistem a destruição do edifício Old Bailey, o tribunal de justiça de Londres, seu primeiro alvo, no badalar dos sinos da meia-noite de um cinco-de-novembro. “Lembrem-se, lembrem-se, do dia 5 de novembro. Da pólvora, da traição e da conspiração. Não vejo razão para que o levante da pólvora seja esquecido”, recita, enquanto o prédio arde em chamas, ao som da “1812 Overture” de Tchaikovsky – afinal, como já havia ensinado Stanley Kubrick, em Laranja Mecânica (1971), caos e música clássica formam algum tipo de combinação perfeita.

    O evento, que coincide com a celebração do desmonte da Conspiração da Pólvora de 1605 – que para V é claramente recordado pelos motivos errados pelos líderes britânicos –, seria apenas o início da instauração do caos milimetricamente arquitetado por ele. Fazendo aparições bombásticas na TV com o corpo cheio de explosivos e matando, um a um, os membros do parlamento envolvidos num esquema que executou um sem número de pessoas vinte anos atrás, o herói e seus ideais anarquistas e libertários (de uma sociedade igualitária, sem autoridades, governantes, partidos ou parlamentos) conquistam a população, que toma as ruas.

    “Um povo não tem que temer seu governo. O governo tem que temer seu povo.” É na figura de Evey que o longa desenvolve esta peça fundamental da narrativa. Presa, torturada e interrogada sobre o paradeiro de V, supostamente, pela polícia secreta do comandante Creedy (Tim Pigott-Smith), ela se nega a entregar o mascarado, enquanto é sentenciada a execução no paredão de fuzilamento. Ao invés disso, a garota é libertada e tudo não passa de uma farsa elaborada pelo próprio V, para que ela – assim como o povo que se reergueu a sua volta, incitados a adentrarem numa espécie de guerrilha urbana contra o poder vigente – perdesse o medo de lutar (e morrer) pelo que acredita.

    “Embaixo desta máscara há uma ideia e ideias são à prova de balas.” De mera referência da cultura pop, V de Vingança tornou-se, também, uma forte representação de um ideal político. Vítima de um Estado repressor, o personagem V, assim como o sorriso congelado em sua máscara de Guy Fawkes, encarna a importância da manutenção das liberdades individuais dos cidadãos, criticando a ignorância e a ganância daqueles que detêm qualquer tipo de poder absoluto e autoritário. Ao fim e ao cabo, é um filme que nos questiona se estamos preparados, e até onde iríamos, para lutar por um mundo livre, ainda que agindo fora dos limites da lei e do que se considera moralmente aceitável.

    Em tempos de assembleias legislativas pegando fogo, congresso nacional e câmaras municipais sendo ocupados e prédios de emissoras de TV depredados, o discurso final de Evey Hammond, pouco antes de explodir o parlamento inglês, cai para a gente como uma luva: “Este país precisa de muito mais do que um prédio agora. Precisa de esperança”.

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