Andarilho do bem

Clássico dos anos 1990, Forrest Gump narra a saga de um rapaz que, sem perceber, é testemunha dos grandes momentos da história dos Estados Unidos na segunda metade do século XX

Bruno Garcia

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    Pra quem não sabe, ou não lembra, Forrest Gump é de 1994. E talvez porque se trata de um desses clássicos instantâneos, surpreende que tenham se passado quase vinte anos de sua estreia. Na época, o filme foi recebido pelo críticos como um sucesso absoluto. Roteiro ousado, protagonista carismático, um enredo que cruza personagens e eventos decisivos da história recente dos Estados Unidos com a ajuda de efeitos especiais inéditos, além de contar uma a trilha sonora inesquecível. Tudo parece ter conspirado a favor do longa de Robert Zemeckis, que levou o Oscar de melhor diretor, acompanhado do prêmio de melhor filme, ator e outros três naquele ano.

    O longa-metragem conta a história de um sujeito simples com, digamos baixo QI, mas com as mais nobres vocações éticas. Sentado num banco de praça e contando sua história para um monte de estranhos que não lhe perguntaram nada, Forrest, narra de forma despretensiosa uma trajetória extraordinária.  O garoto, que aprendeu desde cedo a correr para fugir das encrencas que lhe colocavam, assiste de camarote a alguns dos eventos mais decisivos do seu país na segunda metade do século XX. Servindo no Vietnã, faz amizade com Bubba, um pescador do Alabama que sonhava voltar para casa e comprar um barco para pescar camarão. Ao retornar da guerra sem o amigo, Forrest acaba por realizar ao sonho do companheiro fundando a famosa frota Bubba-Gump, referência em frutos do mar nos Estados Unidos até hoje. É apenas o começo dos cruzamentos entre ficção e realidade.

    Condecorado como herói de guerra e milionário, Forrest ignora absolutamente fama e fortuna. O gosto pela simplicidade e pelas poucas pessoas com quem se conectou o leva a gestos inusitados que surpreendem tanto pela ingenuidade quanto pelos resultados. Ao longo de sua trajetória, conhece e aperta a mão de alguns presidentes americanos, sugere a John Lennon, em uma conversa num Talk Show, um mundo sem nações e religiões, após descrever a China que visitara para jogar ping-pong. Ensina Elvis a dançar e denuncia Watergate, um dos maiores escândalos políticos dos Estados Unidos. Tudo isso sem ter qualquer noção do que estava fazendo.

     Nada disso importa muito para ele. Sua história é de uma generosidade quase altruísta que inconscientemente tem um papel decisivo na vida de quem cruza seu caminho. Porém, mais do que as grandes celebridades que ele acaba por acidentalmente influenciar, o filme gira em torno das pessoas que ele realmente ama. Bubba, o companheiro que ele perde na guerra, Dan, o tenente a quem ele serviu por quem guardou um respeito e amizade incondicional por toda vida, sua mãe, e especialmente Jenny, a amiga de infância que se torna o amor de sua vida.  É ela o contraponto de Forrest e do brilhantismo do filme.

    Não que o personagem seja irrelevante ou mal construído. Pelo contrário, Jenny parece ser a síntese da geração da contracultura. O sonho de se tornar cantora, como Joan Baez, leva a menina a um passeio pelos movimentos da década de 60 americana. Enquanto Forrest está no Vietnã, Jenny é uma linda hippie circulando por todos os estados. Se encontram por um acaso na capital, em uma das cenas mais bonitas do filme, quando ele recebia uma medalha de honra e ela participava do que era, provavelmente a Marcha sobre Washington. Ela segue viagem para São Francisco, enquanto ele cumpre a promessa ao amigo e compra um barco para pescar camarão. Ela se envolve com drogas e com o submundo enquanto ele reza (literalmente) pelo sucesso de sua empreitada, prospera  e inspira pessoas.

    O encontro inevitável gera um filho, só revelado no final do filme. Naquela altura Jenny admite uma doença, ainda sem nome no momento. Forrest então se casa, finalmente, com Jenny , e vive com eles na casa que fora da mãe até a morte precoce da mulher. Tudo isso acompanhado por trechos da incrível música que Allan Silvestri compôs para o filme.

    Apesar da beleza da obra, há um pequeno desconforto que merece ser mencionado. Jenny, operando como contraponto de Forrest, termina reforçando uma mensagem cruelmente moralista. A ideia é simples. A moça é a representação perfeita de uma geração revoltada, imersa em um conjunto de atitudes que desejam por em cheque o tradicionalismo norte americano, que taxam constantemente como uma hipocrisia institucionalizada. Muito já se disse sobre os hippies e a profundidade do fenômeno da contracultura norte-americana, mas no filme eles aparecem quase sempre de uma forma simplista e negativa. Enquanto Forrest é a representação última de como um sujeito, mesmo longe de suas capacidades cognitivas, é capaz de prosperar e vencer na vida se mantiver intacta sua fé em Deus, no trabalho duro e servir com ética e disciplina instituições como as forças armadas.

    Em outras palavras, trata-se do elogio inconteste do sonho americano, a apologia moralista em absoluta oposição à geração hippie, punida no filme por sua libertinagem. Para aqueles que, como Jenny, se perderam na vida por esses anos, o casamento foi uma ilusão de redenção. O filme pune a personagem, símbolo de sua geração, quase imputando a Aids como consequência merecida por seus excessos. Algo que nem a pureza de um Forrest, poderia resolver. 

     

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