Intimidade

Dossiê da edição de fevereiro da Revista de História traz à tona aspectos da vida privada no Império: da alimentação da Princesa Isabel às relações amorosas na corte

Vivi Fernandes de Lima

  • Normalmente, a culpa é do mordomo. Mas, no caso da chamada história da vida privada, o que está em jogo não é a culpa, e sim o mérito do mordomo Albert Latapie, que serviu à família Orléans e Bragança durante o exílio na França. Por causa de suas anotações em um diário é possível saber como era o dia a dia do conde e da condessa d’Eu, de seus filhos e de seus netos, com direito a trapalhadas numa geleira, como conta a reportagem de Gabriela Nogueira Cunha.

    Mas a quem interessa a vida particular das pessoas? O sucesso dos  reality shows está aí pra provar que isso interessa a muita gente. A “divisão entre o domínio do público e o lugar da intimidade” é relativamente recente, coisa do século XIX, como aponta Rodrigo Elias em seu artigo que abre o dossiê Vida Privada no Império. Já Mary Del Priore, destaca a dupla piano e charuto: “a mocidade abandonara o rapé, preferindo olhar a fumaça com volúpia”. O tipo de alimentação, a moda, as brincadeiras infantis e as relações amorosas muito têm a dizer de como era o Brasil imperial. O mesmo Brasil onde Eufrásia Teixeira Leite incomodou com sua verve liberal, como conta a historiadora Eneida Queiroz. Afinal, uma mulher não poderia oferecer dinheiro ao noivo no século XIX, mesmo tendo boas intenções. Não é mesmo de boas intenções que o inferno está cheio?

    As atitudes dos invasores holandeses no século XVII eram ainda mais incompreendidas, segundo João Azevedo Fernandes. Bons bebedores, eles consideravam a embriaguez um ato nobre, com direito a levar suas companheiras às tavernas. Mas ao convidar luso-brasileiras para banquetes, receberam uma resposta bem malcriada. Já o artigo de Fábio Duarte Joly levanta uma discussão curiosa: teria sido Nero vítima de interpretações anacrônicas? Mais um incompreendido? Que falta faz um mordomo.

     

    Veja aqui o que mais está em pauta na edição deste mês.

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