Carta do Editor - Edição 124

Rodrigo Elias

  • Do ponto de vista formal, a condição de refugiado só ganhou uma configuração jurídica no plano global em tempos recentes. É do século XX o conjunto de codificações que confere o status de refugiado às pessoas que saem das suas terras de origem de modo forçado como último recurso para sobreviver. Também é do século XX a Organização das Nações Unidas, um esforço mais efetivo para tentar evitar cataclismos humanitários globais – vale lembrar, depois de já terem havido os tais cataclismos.  

    Foi em tempo ainda mais recente que saltou para o primeiro plano o drama das pessoas que chegam aos milhares, semanalmente, à Europa, vindas em uma onda desencadeada, entre outras coisas, pelas consequências desastrosas do intervencionismo ocidental liderado pelos Estados Unidos e por países europeus no Oriente Médio. Intervencionismo este que criou as condições para o surgimento de grupos extremistas expansionistas e a liberação de tensões territoriais dentro de países da região.

    As intervenções com interesses geopolíticos – cada vez mais movimentados por cálculos econômicos – acabam deixando em segundo plano as vidas de indivíduos, famílias, etnias, sociedades inteiras. Estas, com menos liberdade de movimentação do que o capital que precipita a guerra, acabam sendo arrancadas pelas raízes e jogadas em um movimento de fuga cujo desfecho é imprevisível: podem encontrar uma nova vida de acolhimento e oportunidades, mas também podem ser encurraladas entre cercas de arame farpado e receber pontapés xenófobos, ou morrer no mar e serem recolhidas em praias distantes.

    O momento é oportuno para pensarmos, mesmo que seja tarde, sobre as instabilidades que geram as novas diásporas. Da mesma forma, é urgente o acolhimento daqueles que buscam abrigo – personagens humanos que, como vemos nesta edição, têm suas próprias histórias.

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