Pedras, bombas e machismo

Além dos confrontos entre policiais e black blocs, grandes manifestações foram marcadas por discriminação às mulheres

Esther Solano Gallego

  • Manifestantes, policiais, advogadas, jornalistas: durante o ciclo de protestos de 2013 e 2014 no Brasil, as mulheres foram atuantes de diversas formas. Enquanto a indignação coletiva e os confrontos com a polícia impactavam toda a sociedade, que assistia confusa e inquieta às cenas de caos urbano, outra agressão mais sutil percorria as ruas, entre cartazes e gritos de ordem: sob os tentáculos do patriarcado, foram vários os episódios de abuso policial, assédios vindos dos próprios manifestantes e atitude de uma suposta proteção das ativistas mulheres, tratadas como “frágeis” ou “emotivas”. 
     
    Em busca de entender a agressividade que permeava as manifestações, uma pesquisa de campo realizada pela Universidade Federal de São Paulo foi às ruas acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, entrevistando ativistas, policiais, integrantes dos Black Bloc e profissionais da imprensa. Nas avenidas da capital paulista, a violência teve variadas representações. Estava no rosto dos policiais militares que jogavam spray de pimenta ou bombas de gás lacrimogêneo sobre os manifestantes e na expressão de ódio dos homens da tropa de choque. Aparecia também no semblante dos garotos da tática Black Bloc, a grande maioria motivada por uma vendetta pessoal contra esses policiais, segundo seus próprios relatos. 
     
    O protagonista das manifestações que encheram as ruas do país era o enfrentamento: depois de cada protesto, os jornais se concentravam nas cenas de confronto e na contabilização dos feridos e detidos, deixando em segundo plano as motivações dos manifestantes. Para os adeptos do Black Bloc, a violência é encarada como um espetáculo destinado a chamar a atenção de uma população considerada adormecida em relação aos abusos do poder instituído. É uma forma de se comunicar, de aparecer na imprensa, de passar um recado para os detentores do poder. “A gente utiliza a violência como forma de expressar nossa raiva, como forma de lutar contra um poder público que não respeita o cidadão”, explicou um deles. “É um jeito de dizer que nós não somos os vândalos. Eles, que estão sentados lá em Brasília, eles que não se importam com o povo, que roubam, que maltratam o cidadão, eles são os vândalos, os criminosos. Quando a gente joga pedrada num banco, picha um prédio público, é um espetáculo, queremos chamar a atenção sobre os verdadeiros criminosos: os bancos e a política que só serve a eles”, completou.

    Para os policiais, o confronto era uma resposta derivada de seu dever de proteger o patrimônio, estabelecer e preservar a ordem e impedir que as ruas virassem “bagunça”. A cada bomba atirada e a cada bala de borracha disparada, eles estariam cumprindo seu papel de braço armado do Estado, respeitando o modelo hierárquico de comando característico da Polícia Militar. “Nosso dever é preservar a ordem pública, claro, e para isso temos os meios que o Estado nos legitima a usar. Nós utilizamos uma violência legítima, eles não. Eles podem se manifestar, a gente concorda com muitas pautas, claro, nós também não aguentamos mais os políticos. Mas baderna, desordem, não, não tolero isso”, afirmou um policial militar durante uma das manifestações contra a Copa do Mundo, em julho de 2014. 

     No registro de manifestação em São Paulo (2013), é possível ver a presença de mulheres mascaradas e com rosto aparente. [AGÊNCIA BRASIL/MARCELLO CAMARGO]

    Desta divergência de visões e demandas eclode a agressividade, como uma mercadoria que vende jornal. Alimenta-se o monstro de forma consciente, porque ele é lucrativo. “Na verdade, nós sabemos que a violência vende. Poucos vão cobrir um protesto pacífico. Agora, se tem pedrada, se tem bomba, aí sim, aí vira notícia. Criamos um monstro, sim, a imprensa é partícipe dessa violência, não posso negar. É um jogo muito perigoso, mas aí entra a ótica das vendas, do capitalismo... Voltamos sempre ao mesmo”, confessou o jornalista de um grande veículo de comunicação.

    Tornada pública e disseminada pela mídia e pelas redes sociais, essa violência tornou-se a imagem final dos protestos de 2013 e 2014. Mas outras expressões violentas daqueles eventos mantiveram-se quase invisíveis, parte de um tecido fino, sutil, imperceptível para muitos por serem agressões do cotidiano, naturalizadas, incorporadas ao senso comum. Seu alvo foram as mulheres. Em diversos relatos, manifestantes, advogadas, ativistas, jornalistas e outras figuras femininas disseram se sentir agredidas ou discriminadas durante os protestos.

    Houve situações de assédio por parte de policiais e violência física contra algumas manifestantes. Casos em que jornalistas acabaram preteridas porque seus colegas homens seriam mais “aptos” para cobrir as manifestações, por se tratar de ambientes violentos. Tentativas de flerte e paquera, quando a mulher deixava claro que não estava interessada. Toda mulher já presenciou a intimidação machista que se repete no cotidiano – como uma cantada no metrô, o salário menor pago a trabalhadoras femininas e as atitudes que sexualizam a mulher como mercadoria. Deslocadas da rotina, essas violências se reproduziram na dinâmica das manifestações.

    Dentre as situações de discriminação, três sobressaíram nos depoimentos das mulheres que participaram dos protestos: a sexualização, manifestada por meio de adjetivos que não seriam utilizados no mesmo contexto para se referir a um homem (“minha linda”, “gata”), a categorização da mulher como um “ser frágil que devemos proteger” e a mulher ativista que é encarada como “desequilibrada, que sempre enxerga tudo como machismo”.

    Em todos os casos, há a presença de rótulos, etiquetas que difamam. “Eu posso falar de tudo isso: às vezes os policiais me tratavam como uma menina frágil, querendo me proteger, me cuidando porque sou branca, classe média. Não represento uma ameaça para eles. Outras me tratavam como uma louca, uma desequilibrada, porque sou advogada e tentava defender os garotos, ia às delegacias para proteger o direito deles. Também rolava muito ‘bonita, coisa linda’ por parte dos manifestantes, quando nunca tinha dado qualquer abertura. Acha que eles falariam isso para um homem? Muito machismo nos próprios protestos. (...) Brigava muito por isso. Ficava puta e me sentia muito mal. Pensava: ‘Do lado de quem estou lutando se é sempre o mesmo assunto? Vai mudar alguma coisa se eles continuam sendo machistas e não estão nem aí?’ (...) Ah, claro, houve também episódios de assédio por parte de policiais militares, isso foi no Rio de Janeiro... [Teve] de tudo”, relatou uma ativista.  

    Apesar de sofrerem todo tipo de violência apenas por sua condição feminina, as mulheres não deixam de participar ativamente das manifestações, como as que aparecem no evento que ocorreu na avenida Paulista, em setembro de 2013. [AGÊNCIA BRASIL/MARCELLO CAMARGO]

    Talvez o mais preocupante seja a incapacidade de alguns (e algumas) de perceber esta rotina de desigualdade, ignorando que estas são engrenagens de um sistema que perpetua a violência. Daí resultam discursos de ódio como o deste ativista: “Ah, também não é isso. Vocês mulheres têm uma obsessão com essa coisa do machismo. Porra, tudo é machismo, a gente não pode falar mais nada. Aí já é demais, não? Vira uma paranoia”. Os dados oficiais mostram, no entanto, que não se trata de exagero. Há, sim, um cenário sombrio no país: são 50 mil estupros denunciados por ano, uma estatística provavelmente bastante inferior aos números reais. Nos relatos sobre os protestos apareceram tentativas de violência sexual. Os espaços de reivindicação deveriam ser lugares privilegiados de empoderamento feminino.

    A distinção entre eles e elas existe nas manifestações e existe nas estruturas das instituições públicas. É o caso da polícia, único rosto visível do Estado em muitos protestos. Para as agentes femininas de segurança, a situação está longe de ser a ideal. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 39,2% das policiais mulheres já experimentaram assédio moral ou sexual dentro da corporação. E 47,8% delas declararam não haver mecanismos formais de registro de violência de gênero.

    Nos protestos, uma linha divide as mulheres manifestantes das mulheres policiais. Separadas simbolicamente, como se pertencessem a mundos antagônicos, elas na verdade estão juntas em pelo menos uma realidade social: a da discriminação de gênero.

     

    O meu próprio relato

    Durante os protestos, eu mesma, como pesquisadora, tive inúmeras experiências desagradáveis. Cada vez que aparecia na TV ou nos jornais tentando explicar minha pesquisa sobre a violência nas manifestações, cada vez que tentava colaborar para um debate de alto nível, recebia sempre mensagens pela rede social. O conteúdo? “Que bonita, que sexy”, e outras frases na mesma linha. Tudo por minha condição feminina. Porque, para alguns, não sou uma acadêmica que procura rigor científico: sou uma mulher e, portanto, passível de ser sexualizada, transformada em objeto. (Esther Solano Gallego)

    Esther Solano Gallego é professora da Universidade Federal de São Paulo e coautora de Mascarados: A verdadeira história dos adeptos da tática Black Bloc (Geração Editorial, 2014).

    Saiba mais

    BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

    DUPUIS-DÉRI, François. Black Blocs. São Paulo: Veneta, 2014.

    MOURA, Tatiana. Rostos invisíveis da violência armada: um estudo de caso sobre o Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: 7 letras, 2007.

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