A imagem da capa

Não é de hoje que manifestações populares tomam as ruas do Brasil. Tanto no presente quanto no passado, ideais anarquistas movem uma parcela da multidão. Confira o que está em pauta na edição de agosto da Revista de História

Marcello Scarrone

  • Não é só de hoje que multidões invadem ruas e praças das cidades brasileiras como forma de protesto contra injustiças e abusos da vida coletiva e contra privilégios e maus costumes da classe política nacional. Dezenas de milhares de operários de fábricas cruzaram os braços no Rio de Janeiro e em São Paulo em vários momentos no biênio de 1917-18. Suas reivindicações de condições de trabalho mais humanas e seguras e de um salário digno foram transformadas em grito de revolta contra patrões e autoridades, e assustaram os pacatos moradores das cidades. Greves amplas ou até gerais como aquelas nunca tinham sido vistas até então, sinal de uma consciência que estava se formando entre os trabalhadores urbanos.

    Nos comitês organizadores dos protestos, muitos anarquistas. A doutrina que eles pregavam dizia respeito a uma sociedade sem leis nem reis, sem autoridades ou governos, sem partidos ou parlamentos. Uma sociedade de igualdade e plena liberdade.  De difícil realização, pelo menos imediatamente. As experiências tentadas, até no Brasil (como a Colônia Cecília), tiveram duração efêmera e sempre complicada. O empenho nas organizações de fábrica pareceu a alguns anarquistas a forma mais direta para difundir seus ideais no mundo do trabalho, embora outros discordassem, convictos de que entrar nos sindicatos significava aceitar a lógica das estruturas sociais e dos mecanismos políticos e econômicos. Vários entre eles preferiram se dedicar com mais afinco a criar escolas, organizar cursos e palestras, promover atividades culturais, publicar jornais.

    Mas a representação dos anarquistas misturados com os demais trabalhadores nas greves da Primeira República resta como retrato do grito de justiça lançado onde reinavam arbítrio e exploração. Assim, a imagem da capa deste mês evoca aqueles protestos e seus símbolos, como as bandeiras negras desfraldadas. Negras, porque justamente não queriam identificar nenhum Estado ou nação; negras, porque negação de qualquer sistema político existente. (Mas quando grupos anarquistas hospedassem em seu seio princípios oriundos do socialismo ou do próprio comunismo, a bandeira adquirirá um corte diagonal, dividindo-se numa banda vermelha e outra negra).

    Dossiê Anarquismo:

    Sonhar também muda o mundo

    Era uma casa muito livre

    De braços dados e cruzados

    Ocupar com k

    Utopia de máscara nova

     

    E o símbolo vai atravessando as décadas e chega aos dias de hoje. Passa pela crise do anarquismo diante da maré do movimento comunista internacional das décadas de 1920 e 1930, encontra lugares e experiências onde se afirmar com mais intensidade (como na Catalunha da guerra civil), acompanha os movimentos libertários dos anos 1960 e 1970, ressuscita em formas novas de rebeldia e protesto social na sociedade do pós-moderno, do no-global, do occupy. Assim, a letra A inscrita no círculo (a letra O) volta a assombrar e a fazer sonhar. “A sociedade busca a ordem na anarquia”, escrevia Proudhon, e as iniciais das duas palavras, Anarquia e Ordem, foram se juntando, sobretudo a partir da década de 1930, no mais célebre dos símbolos anarquistas mundo afora.

     

    Marcello Scarrone é pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.

     

       

     

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