Voluntários sem pátria

O retorno dos veteranos da Guerra do Paraguai não foi nada heroico: soldados precisaram reconstruir a própria vida na terra natal, com pouco dinheiro e muitas promessas

Rodrigo Goyena Soares*

  • Projeto de um monumento que seria levantado no Rio em homenagem aos soldados que voltavam da guerra [Fonte: FBN]A volta dos veteranos da Guerra do Paraguai foi ardilosa e pouco heroica para o que se espera do retorno à pátria de um exército vitorioso. Quando, em 1870, depois de um entusiasmado verão no Rio da Prata, os soldados tiveram que desembarcar no Brasil, longos anos haviam transcorrido desde o início da guerra, e as tropas tiveram que mergulhar no desafio de reconhecer suas cidades, em um país afetado pela inflação. Assim como reencontrar a família e redescobrir a própria intimidade.

    Nas embarcações que trouxeram, entre fevereiro e junho de 1870, dois terços dos veteranos de volta, conviveram personagens tão díspares, socialmente, quanto generais, jovens praças pobres recrutados à força e libertos de guerra; e tão distintos, regionalmente, quanto baianos, gaúchos e pernambucanos. Personagens tão diferentes quanto o Duque de Caxias (1803-1880), Benjamin Constant (1833-1891) e Deodoro da Fonseca (1827-1892) foram veteranos da guerra. Cada qual teria de fazer valer seu esforço de guerra usando a capacidade reivindicatória e, não por coincidência, a posição social.

    Embora os primeiros meses de 1865, quando realmente começou o combate, tivessem sido marcados por algum entusiasmo patriótico, não deixaram de pesar na decisão de alistamento as promessas trazidas pelo decreto que formalizou a criação dos Voluntários da Pátria. Os aliciados para a árdua tarefa seriam gratificados com 300 réis diários e mais 300$000 réis quando dessem baixa – cerca de um sétimo do valor necessário para se comprar uma chacarinha no morro da Providência, conforme lia-se nos classificados do Jornal do Comércio em setembro de 1866. Também foram prometidas terras de 22.500 braças quadradas nas colônias militares e agrícolas, equivalente a pouco mais de dez hectares ou 100 mil metros quadrados, assim como empregos públicos, soldos dobrados para voluntários aleijados e pensões para viúvas e órfãos.

    No início, o negócio de entrar na guerra parecia valer a pena. Somando os soldos às gratificações, a expectativa de quem se alistasse era que, em três ou quatro anos de combate, poderia acumular algo em torno de 1:000$000. Isso sem contar as bonificações do exército e da marinha, caso o voluntário viesse a ascender na hierarquia militar por ato de bravura no teatro de guerra. Em setembro de 1865, quando houve a rendição de Uruguaiana, e se encerrou a primeira fase da guerra, com o recuo das tropas paraguaias, as agências privadas de recrutamento na Corte se multiplicaram, já que a guerra se mostrava favorável aos Aliados. Temerosas de ver seus filhos nas trincheiras do Paraguai, as famílias brasileiras mais abastadas ofereciam, por intermédio de um agente privado, recompensas de 400$000 réis a 700$000 réis a substitutos que quisessem ir ao Paraguai no lugar de seus entes queridos. Ao todo, quem sabe, o jovem fluminense alistado na Corte poderia acumular nada menos que 2:000$000 – exatamente o valor da pequena chácara. Seria uma conquista social para um jovem pobre do interior fluminense. Para o escravo, as esperanças eram ainda maiores. Não só ganharia a liberdade, mas poderia juntar um dinheiro e comprar o que bem entendesse.

    Soldados que participaram da guerra participando de uma procissão em homenagem a Santo Antonio [Fonte: FBN]Houve quem não topou a empreitada. O medo da morte falava bem alto. Dos 139 mil brasileiros que foram ao Paraguai, em torno de 50 ou 60 mil faleceram em combate ou acabaram derrotados por pestes e cóleras. Outros tantos desertaram e fugiram, ora para localidades brasileiras, ora para a Argentina e para o Uruguai, onde, inevitavelmente, foram recrutados pelos exércitos daqueles países. Para os que voltaram ao Brasil na hora devida, no entanto, chegava o momento de recolher o esforço de guerra, o que foi verdadeiro ofício de frustrações. O primeiro passo era cobrar as gratificações e os soldos ainda não recebidos, o que não era de todo fácil, considerando-se que o liberto de guerra ou o quitandeiro de São Paulo deveriam saber ler e escrever para formular um requerimento nos moldes legais. Da mesma forma que em 1866 as agências privadas de recrutamento enxugavam parte do capital prometido ao substituto; na década de 1870, advogados especializados em reivindicações de guerra cobravam parte do soldo do veterano ou da pensão do inválido como prêmio por arrancar da Justiça o que era de direito para o egresso do Paraguai.

    Os soldos, assim como as pensões às viúvas e aos órfãos, foram outorgados em sua maioria, mas as demais promessas permaneceram só na lembrança, pelo menos para os mais pobres. A inflação, especialmente no Rio de Janeiro, rapidamente corroeu os valores das pensões, o que ampliava o tamanho das frustrações. Benjamin Constant apressou-se, pouco depois de assumir o Instituto de Meninos Cegos, em 1869, em propor com êxito ao Conselho de Estado a criação da Associação de Socorros à Invalidez. O veterano José Luiz Gomes tentou criar a Associação Beneficente e de Socorros Mútuos dos Homens de Cor, mas fracassou. Gomes pensava não só nos libertos de guerra, que permaneciam em estado de miséria, mas também nos escravos da Corte, que poderiam comprar sua liberdade com o dinheiro acumulado pela associação.

    A criação de sociedades filantrópicas parecia ser comum na década. Aumentou o número de afiliados à Sociedade dos Montepios para Servidores do Estado e à Sociedade da Santa Cruz dos Militares, assim como dobrou o número de petições para criar outros tipos de beneficências.

    Soldados em Vila do Rosário, no Paraguai, em 1870 - os oficiais cumprimentam chefe das tropas, conde D'Eu [Fonte: FBN]Ao mesmo tempo, surgia uma espécie de sistema previdenciário privado com participação pública, não por acaso, quando Bismarck (1815-1898), chanceler do Império alemão de 1871 a 1890, dava os primeiros passos no sentido de formalizar a previdência social na Alemanha. Tornava-se claro ao veterano que tinha ele capacidade para cobrar do Estado o que lhe era devido. Não se tratava mais de ir somente de encontro ao Estado, mas também de valer-se dele, para aumentar suas reivindicações. Num Rio de Janeiro que havia duplicado de tamanho de 1850 a 1870, chegando a pouco mais de 500 mil almas na década de 1870, cabia aos egressos do Paraguai encontrar seu lugar não só no espaço físico da cidade, mas também na hierarquia social. E assim fizeram.

    Houve quem manteve a farda. Esses alinharam-se à cúpula do Exército, mais coesa, após a guerra, em seu espírito de corporação e francamente descontente com o sistema político-partidário do Segundo Reinado. Houve quem contestou nas ruas as reformas administrativas entabuladas pelo gabinete do Visconde do Rio Branco (1871-1875) e prosseguidas durante as gestões de Caxias (1875-1878) e de Cansanção de Sinimbu (1878-1880). Foram eles os veteranos que não faltaram às insurreições do Quebra-Quilos, série de levantes populares ocorridos no Nordeste, entre 1874 e 1875, com vistas a contestar a adoção do novo sistema métrico-decimal, às insubordinações contra a Lei do Recrutamento Militar de 1874 e a Revolta do Vintém. Houve, enfim, quem transitou pelos asilos de mendicidade, pelos hospícios e pelas casas de detenção e de correção, num momento no qual surgia a tese das classes perigosas.

    Aos poucos, formavam-se os cidadãos do Segundo Reinado. E cidadania, naquele então, passava a significar, para além da participação eleitoral, ter um emprego e uma moradia. Expectativas frustradas, portanto, essas dos veteranos brasileiros. Traumático, enfim, o regresso dos combatentes, como bem ilustrado no olhar desolado de La Paraguaya, na tela do pintor uruguaio Juan Manuel Blanes, capa da Revista de História deste mês.

    Rodrigo Goyena Soares é cientista político, especialista em História da América latina, e autor da dissertação “A importação de instituições de crescimento econômico nos países do Sul e seus impactos sobre o desenvolvimento” (SciencesPo. Paris).

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