Vamos nos queixar ao Bispo

Artigo de historiadora fala sobre a desocupação da centenária casa no subúrbio carioca que é uma das sedes do Instituto de Arqueologia Brasileira

Tífani Albuquerque

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    Capão do Bispo em foto do Instituto de Arqueologia Brasileira - Centro de Estudos Arqueológicos Capão do Bispo - http://bit.ly/capaodobispoA Casa do Capão do Bispo, em Del Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro, é uma importante edificação do século XVII onde funcionam laboratórios do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), biblioteca e, até recentemente, uma exposição de peças arqueológicas. A construção imponente, entre toda a modernidade que a cerca, mantém a história viva entre objetos e pesquisadores que nela trabalham.

    Ali funciona o Centro de Estudos Arqueológicos, que tem em seu acervo ossadas inteiras localizadas entre as regiões do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além disso, há urnas funerárias em cerâmica de diversas regiões brasileiras, mas principalmente do estado do Rio, peças esculpidas em pedra (lâminas de machado, batedores, polidores e etc.) por habitantes das terras que hoje são o Brasil, e lasca de pedras recolhidas em sítios arqueológicos. Ainda possuem cerâmicas (de diferentes tradições), materiais líticos (instrumentos feitos em rochas), malacológicos (conchas), ósseos e poucos vegetais (madeiras, frutos, etc.). Do material mais recente, há cerâmica neobrasileira (indígena, com influência europeia, como um cachimbo de tribo indígena de aproximadamente 900 anos) cerâmica colonial, grés (a garrafa e o tinteiro, por exemplo), louça, metal e vidraria. Também possuem milhares de reproduções de painéis de arte rupestre (pinturas feitas nas paredes de cavernas) e inúmeros exemplares de ossos humanos (encontrados em sepultamentos, durante as pesquisas). Para dimensionar o trabalho do IAB, apenas de um sítio que a equipe trabalha no Espírito Santo foram analisados 26 mil cacos de cerâmica. Entre as milhares de peças, há artefatos que vão de 8 mil anos de idade até objetos que datam do final do século XIX.

    Recentemente os profissionais do IAB, depois de 37 anos ocupando o casarão tombado pelo Instituto Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), foram notificados, sem maiores explicações, que deveriam sair da propriedade.

    O Capão do Bispo é uma das mais antigas propriedades rurais do estado do Rio de Janeiro e sua casa, sede da fazenda, é o que sobrou da sesmaria doada por Estácio de Sá aos Jesuítas. A concessão foi confirmada pela Corte de Lisboa em 10 de julho de 1565 e abrangia as freguesias de Inhaúma, Engenho Velho, Engenho Novo e São Cristóvão. Com uma área de duas léguas de testada e duas de fundo (13.200 metros X 13.200 metros). A propriedade começava no Vale do Catumbi, junto ao Rio dos Coqueiros, hoje Rio Comprido, que servia como divisa natural desde a nascente até desaguar no mangue da Cidade Nova, e seguia pelo litoral, atravessando a bica dos Marinheiros, São Cristóvão e Benfica até a Tapera de Inhaúma, rumo noroeste para o sertão, rumo sudoeste nas áreas férteis e saudáveis dos terrenos do Engenho Velho, Andaraí e Engenho Novo entre outros.

    A fazenda ficava na planície suburbana com diversos vales ligeiramente acidentados por baixas colinas, próximos ao Rio Jacaré, Faria e Timbó. Foi confiscada dos jesuítas em 1759, passando à Coroa, e depois leiloada, a partir de 1761. Um dos compradores foi o bispo D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas de Castelo Branco, que regeu a diocese fluminense de 1774 a 1805, e ergueu a casa grande da fazenda num capão sobre um outeiro de 20 metros de altura. Dom José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco foi quem introduziu as mudas de café no estado, além de ser o primeiro bispo nascido no Rio de Janeiro.

    Sua mãe, dona Ana Teodora Ramos de Mascarenhas Castelo Branco, gozou das atribuições de conselheira privada e suprema nos assuntos ligados ou não à diocese. Ela exercia forte influência política no período, e foi graças a ela que seu filho conseguiu tornar-se bispo da cidade. Por isso a expressão “vá queixar-se à mãe do Bispo” tornou-se muito popular como sinônimo de tentar alcançar determinado fim indo pedir ajuda de alguém influente. Na década de 1980, Ana Teodora recebeu uma singela homenagem, do decorador paulista Júlio Senna. Ele nomeou o platô natural, onde morava, situado na Pedra da Urca, de “Largo da Mãe do Bispo”. Em 1989, o jornalista e crítico musical Ricardo Cravo Albin adquiriu o imóvel e manteve o nome. No ano de 2001, o “Largo da Mãe do Bispo” foi incorporado ao recém-criado Instituto Cultural Cravo Albin e passou a receber diversos eventos musicais. Outra curiosidade é que a Rua do Bispo, no Rio Comprido, deve-se a este mesmo clérigo que estamos tratando.

    Mas o bispo morreu em 28 de janeiro de 1805 quando a propriedade passou ao seu sobrinho Jacinto Mascarenhas Furtado de Mendonça. De 1862 a 1868 a casa grande foi repassada por escritura a Joaquim José Palhares Malafaia e a Domingos José de Abreu. Em 1914, foi vendida a Francisca Carolina de Mendonça Ziéze e depois a Joaquim Alves Maurício de Oliveira, dono até 1929, passando à Clara Ziéze de Oliveira. A 18 de setembro de 1937 passou para Simão Daim e em 1947 estava em nome de Jacob Armin Frey. Esses levantamentos foram feitos pelo historiador Noronha Santos (1876-1954).

    Em 30 de agosto de 1947, foi tombada pelo Iphan, com Florentino M. Guimarães responsável pelo canteiro de obras e coordenando o levantamento arquitetônico. Desapropriada em 1961 e passando ao governo do estado da Guanabara, sendo a emissão de posse dada em 1969. Nas décadas de 50 e 60 foi invadida por 30 famílias que fizeram do patrimônio histórico uma cabeça-de-porco chegando a estar ameaçada de desabar. Edgard Jacinto da Silva, arquiteto do Iphan, fez um trabalho de restauração na sede que durou dois anos, de 1973 até 1975, e instalado um Museu Rural e Centro de Estudos Arqueológicos, do IAB, que funciona lá até a presente data, agora com risco de ter que sair do local.

    A Casa do Bispo funciona como um arquivo de informações vindas dos laboratórios e, também, como núcleo de dados e assistência às demais fases de trabalho de reconstituição pré-histórica. Fazem parte do acervo livros técnicos sobre arqueologia, história, biologia e outras áreas afins. Constam ainda mapas de diversos períodos e regiões brasileiras. O Instituto de Arqueologia Brasileira possui mais de 2 mil publicações, subdividas da seguinte forma: a) Documentação de Periódicos (arquivo) b) Biblioteca; c) Mapoteca Documentação Fotográfica - Acervo fotográfico de pesquisa de campo e de laboratório (durante e após a recuperação da peça). É formada de slides (em preto e branco e colorido). Todas as fotos são fichadas e catalogadas de acordo com a prospecção, escavação, ano e local.

    O IAB é uma das mais tradicionais instituições de pesquisas arqueológicas no Brasil, pioneiro na luta pela preservação cultural do país. Criado em 1961, o instituto é presidido por Ondemar Dias, um dos mais renomados arqueólogos do país. A instituição presta serviços de arqueologia a instituições públicas e tem estado à frente das mais importantes descobertas registradas nos últimos 20 anos no Rio. Entre elas, a de uma paliçada (espécie de cerca que constituía uma fortificação), achada em 2007, no subsolo da igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Praça XV, no Centro do Rio, a primeira prova material da presença europeia no Rio antes mesmo da fundação da cidade, em 1565.

    O IAB tem grande importância, ainda maior nesse caso por estar inserida em uma região tão urbanizada, com comunidades com pouco acesso ao patrimônio histórico. Qual uso poderia ser melhor para uma edificação que é patrimônio histórico, do que uma instituição que lida com ele como seu objeto de trabalho? Quem estaria mais apto a cuidar da edificação com o carinho e respeito que ela merece, do que aqueles que fazem disso sua profissão? Além disso, o IAB, que também funciona como um centro cultural, já que recebe estudantes e visitas guiadas, não pode apenas mudar de sede e deixar uma construção tombada e rica em sua história fechada ao acesso ao público.

    O Capão do Bispo tem sua imagem indelevelmente associada às importantes ações do IAB em prol da arqueologia brasileira, associação esta impressa na memória da história do desenvolvimento da arqueologia no Brasil. Nada mais condizente, portanto, para um lugar de memória, que continuar essa histórica associação com o IAB.

    Tífani Albuquerque é historiadora pela UFRJ. Trabalha com Pesquisa em Acervo e Projetos Culturais no "Jornal do Commercio", e, colaboradora da "Folha do Comércio".

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