Repressão e autoritarismo

Nathália Fernandes

  • Como fizemos com o protesto de 17 de junho de 2013, juntamos alguns depoimentos de historiadores e jornalistas da Revista de História sobre o protesto na noite de 20 de junho, em que segundo estimativas, 300 mil pessoas teriam tomado a Avenida Presidente Vargas, uma das mais importantes do Rio de Janeiro, onde fica a prefeitura da cidade e a Central do Brasil, e via de ligação para outras áreas da cidade, como a Zona Norte. Se da primeira vez, o sentimento geral era de esperança, agora, parece que houve uma mudança no enfoque, uma certa perda da inocência.

     

    “A Polícia é o socorro imediato para o indivíduo para a sociedade. É protetora e guia. Conduz, ampara e castiga. Ensina e reprocha. Preceitua ao povo a maneira de andar pela rua, de se manter nos veículos de se acomodar nos logradouros públicos... É a vigília perene nos esgotos sociais da Cidade e dos logradouros públicos da Escola. É a guarda continua dos bancos, das casas comerciais, dos lares, dos repositórios de arte e de cultura. É a sentinela anônima expedita, que tudo fareja sem ninguém saber, que tudo perscruta sem ninguém desconfiar. É a bandeira segura da proteção e do amparo do indivíduo e do Estado. Ele sabe (referência a Hitler) que a Polícia, é a primeira segurança do poder público, é o sinal contínuo do silêncio ou do alerta. Bem sabe que a Polícia, antes do exército, levanta os argumentos reais e concretos para a defesa da Guarda do Estado.”

    Leia também:

    O espetáculo da Falácia, por Roberta Souza

    Estado policial, por Ronaldo Pelli

    Relatos sobre 20 de junho

    Extraída do Livro da historiadora Elizabeth Cancelli, O Mundo da Violência: A Polícia na Era Vargas (1994), a citação ajuda a estabelecer uma relação entre os instrumentos de repressão do governo durante o período do Estado Novo (1937-1945) e a recente ação da polícia nos protestos ocorridos no Brasil, em especial, o do dia 20 de junho, quinta-feira passada. No que diz respeito à instituição durante o governo autoritário de Getúlio Vargas, me debrucei sobre a forma como ela lidava com manifestações religiosas, como a umbanda e o candomblé. Mas para compreender de forma mais profunda o tema busquei, primeiro, entender a ideologia que embasava a regra de conduta da Corporação, no período. Elizabeth Cancelli indica que a polícia foi principal aparato repressor durante o governo Vargas, se colocando a serviço de seu projeto político. À época, a violência permeava, não somente a ideologia estatal, mas a ação policial a fim de manter a ordem social e o controle dos indivíduos. 

    No dia 20 de junho, fui testemunha da ação policial agressiva durante a manifestação. Acredito que pela primeira vez entendi, na prática, o significado do termo “repressão policial”. Vi uma Polícia Militar fortemente armada usando estratégias para encurralar  manifestantes na Cinelândia, na Lapa e na Praça XV. Vi o confronto desigual entre a Tropa de Choque e os manifestantes. Vi que uma das principais vias da cidade, a Avenida Presidente Vargas não possuía sinal de celular, isolando de informações e contatos as pessoas que se encontravam na manifestação. Na tentativa de fugir da confusão e chegar em casa, ouvi as bombas de efeito moral e senti de longe os efeitos do lacrimogêneo. Ouvi o conselho de dois guardas municipais na Avenida Rio Branco que diziam: “Corre, que eles estão chegando!”.  Vi o comboio da Tropa de Choque da Polícia Militar passar pela Lapa jogando bombas nas calçadas, por onde andavam pessoas que, inclusive, não estavam envolvidas na passeata. Vi pessoas desesperadas nas ruas, além de bloqueios policiais que impediam a circulação de ônibus.

    Durante a madrugada, vídeos que registraram ações desmedidas da polícia se multiplicavam na internet. Parecia que aquele Estado autoritário em construção durante a década de 1930 - e boa parte da década de 1940 - se materializava no presente. A violência continua permeando as ações estatais em relação à população, coibindo, em alguma medida, a liberdade de expressão. A polícia parece manter a mesma linha do momento em que foi institucionalizada, a qual atende aos interesses privados e defende o patrimônio de grupos que detém o poder. Ainda agem em nome da “ordem social”. Ainda que em menor escala. Nada justifica a violência empregada pelo Estado sobre nós na semana passada. A mensagem foi passada de uma forma muito clara e extremamente audível. Não podemos pensar em voz alta. E se fizermos isso seremos agredidos e viveremos o trauma dessa violência. 

    Nada tira da minha cabeça uma frase que li na madrugada de sexta-feira sobre a manifestação: “E hoje a PM mostrou ao mundo como sempre se comportou na favela”.  Espero, sinceramente, que esse não seja o cerne da nossa indignação e consternação dos últimos dias: boa parte da classe média foi tratada como “favelado”. Espero que a nossa inquietude venha de outras contestações e que essas ações de violência não fique impunes, não só nas manifestações como nas ações nas favelas e em vielas longe das câmeras. Mas que reflitamos cada vez mais sobre a sociedade em que vivemos, sobre o Estado que nos governa, sobre as relações de poder que permeiam as nossas vivências, sobre o silêncio forçado com balas de borracha e bombas, sobre as (des)informações que as mídias nos impõem.

     

    Nathália Fernandes é historiadora

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