Reflexões sobre Arcade Fire e 'Reflektor'

Novo disco da banda canadense confirma a trajetória ascendente do grupo de Montreal e aponta para o ápice da cadeia da música pop

Ronaldo Pelli

  • Agora que já se passaram alguns dias do lançamento extra-oficial do novo disco do Arcade Fire, "Reflektor", já é possível se chegar a uma conclusão direta e pouco surpreendente em se tratando da banda canadense: que disco, meus amigos, que disco!

    Seguindo uma tradição recente de fazer um grande suspense para o lançamento, que talvez tenha atingido o seu perigoso ápice com o duo de eletrônica francês Daft Punk e o seu mais recente disco, "Random access memories", lançado no já longínquo 21 de maio, os não mais tão meninos e nem tão meninas do Arcade Fire também foram divulgando as músicas em conta-gotas, nas últimas semanas.

    Daí veio a faixa título, num vídeo dirigido pelo craque Anton Corbijn (que criou a estética de muita banda da década de 1980, de U2 a The Cure) e a excelente "Afterlife", que faz uma homenagem ao filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, por sua vez inspirado na peça de Vinicius de Moraes, entre tantas outras músicas. Mas, de alguma maneira, apesar dessas duas músicas citadas terem clipes interessantes (o de "Afterlife", com imagens do filme de Camus, é lindo), parecia que alguma coisa ali "atrapalhava" a fruição da música. Agora, sem a imagem para "competir", podemos ver que, sim, Win Butler, Régine Chassagne e cia. acertaram. De novo.

     

     

    Se fosse necessário escolher apenas uma banda para mostrar o ápice da música pop mundial no momento atual, o chute mais provável cairia sobre os ingleses do Radiohead. Mas o Radiohead não é exatamente da geração de quem nasceu no fim da década de 1970, início da de 1980, gente que já se enquadra na categoria dos 30 e poucos anos. Estes, via de regra, até teriam idade para acompanhar o quinteto de Oxford desde o início das suas carreiras, mas não teriam idade mental para percebê-los lá pela metade da década de 1990 em toda a sua complexidade que mistura um rock mais cru, filhote do grunge, mas que vai se complexificando com elementos do rock progressivo, da chamada música erudita e até da eletroacústica. Já o Arcade Fire é a banda para quem faz parte dessa geração do entorno dos 30, e que gosta de música que é categorizada vagamente como pop internacional, acompanhou desde o primeiro disco. Viu crescer, por assim dizer.

    O grupo da francófila Montreal, no Quebec (o que, por si só, já dá um caráter mais global às outras bandas de sua geração) apareceu no radar numa segunda onda de bandas independentes de rock do século XXI, após a primeira enxurrada que trouxe, entre outros, os americanos Strokes e White Stripes. O Arcade Fire chegou com diversas outras bandas e, apesar da competência das demais, foi a única que conseguiu se manter num auge contínuo (como se fosse viável), se renovando sempre, mas sem perder à conexão com eles mesmos.

    Eles já tocaram no Brasil no saudoso Tim Festival (uma mutação do Free Jazz), em um dos melhores shows da edição de 2005. Eles eram ainda meninos e meninas e quase desconhecidos no mundo inteiro - imagine no Brasil. Quem ainda tinha algum tipo de pé atrás com eles, entretanto, foi conquistado logo de cara, antes mesmo dos primeiros acordes. Eles subiram todos ao palco e ficaram em silêncio encarando a plateia por alguns míseros segundos, suficientes para hipnotizar quem estivesse embaixo. Começaram a entrada da música "Wake up", do primeiro e único, então, lançado disco, Funeral, uma das mais catárticas. Ainda estava escuro, ainda era baixinho, ainda estava calminha, ainda sem nervosismo. Mas quando veio o momento "Oooooh, ooooh, oooooh, oooooooh, ooooooh..." e as luzes se acenderam numa explosão... eles já tinham ganham completamente o jogo. Momento arrepio imediato, que só de assistir de novo arrepia novamente. A partir disso, o que fizessem ali - e eles fizeram muito, os caras chegaram a escalar a estrutura do palco! - era extra. O vídeo abaixo não dá nem um triscado do que realmente foi. Mas já dá para sacar:

     

     

    Desde então, ficou inevitável acompanhar tudo o que eles fizeram. Quando críticos mais puristas reclamaram da soberba por eles terem gravado seu segundo disco Neon bible em igrejas, com a desculpa de que queriam usar a acústica perfeita, o raciocínio, após ouvir o resultado, era que o mundo, então, precisava de mais soberba - deste tipo de soberba que entrega o que promete. Quando lançaram The suburbs ninguém precisou defendê-los de nada porque era um álbum irretocável - como aliás, o chefe da pesquisa da RHBN, Rodrigo Elias, mostrou aqui num texto primoroso.

    Aliás, se há algo que se repete a cada disco com o Arcade Fire é que eles não fazem, quase que como um milagre, música ruim. Não conseguem. Ao ouvir e assistir aos vídeos deste novo Reflektor parecia que, finalmente, tinham errado. Não era um alívio, nem uma decepção, era uma aceitação de que ninguém acerta sempre. Nem mesmo o Radiohead.

    Capa do novo disco, Reflektor [Imagem: Divulgação]Mas aí que, talvez, more a grande diferença entre as bandas - além de todas as outras. Enquanto o Radiohead quer sempre experimentar, o Arcade Fire quer fazer canções bonitas. O nível do que pode ser chamado de "coeficiente de boniteza" em suas músicas é muito, muito alto. Sempre é de uma beleza tão impactante, envolvente, quente, gostosa, feliz. Daí, talvez, a crítica pela soberba em Neon bible. Pareciam estetas, sem sangue nas veias. Mas se para fazer músicas bonitas assim é preciso ser um pouco divino, e menos humano, o simples ouvinte, autoriza. Que assim seja, então.

    Às primeiras audições de Reflektor, já sem as imagens para desviar o foco, o pensamento, a percepção oscila entre achar que era o disco mais rock 'n' roll deles, com direito até a riffs de guitarra, e o disco mais de pista, para dançar, com batidas mais retas, linhas de baixo mais evidentes. Como se fossem o elo perdido entre Joy Division e New Order, mas sem as nuvens pretas que cobriam o céu dos ingleses de Manchester. Como poderiam? A resposta para estas dúvidas, então, apareceu no nome do imenso (no talento) James Murphy. Ele, o homem por trás de nada menos que LCD Soundsystem, a principal banda da onda electropunk de Nova York, já no fim da década de 2010, que, como o nome do estilo sugere, misturava exatamente o punk com a eletrônica, foi o produtor do disco. Tudo agora se explicava. Eles são rock E também são dançantes. E também continuam produzindo músicas lindas, lindas, lindas que você não vai acreditar que são possíveis.

    O que faz essa beleza toda, na humilíssima opinião deste mais que humilde escriba, é a utilização, sem medo de parecerem grandiosos - e aí, novamente vamos nos aproximando de uma outra característica do Radiohead, que também não tem medo da grandeza - de inúmeros e diferentes instrumentos. Cordas são presença garantida em todos os álbuns, mesmo nesse, mais rock, mais dançante.

    Outra vantagem dos canadenses logo de cara é a mistura das vozes masculina inglesa do californiano que cresceu no Texas Win Butler e da feminina francesa quebequense filha de haitianos Régine Chassagne. É um contrabalanço entre alto e baixo. Grande e pequeno. Grave e agudo. Força e delicadeza. E as metáforas poderiam continuar. Na música título deste último disco, por exemplo, ela canta em francês um pedaço, e faz o backing vocal para ele. É uma camada perfeita para ele se exercitar.

    Na segunda faixa do disco, "We exist", além de barulhinhos eletrônicos, guitarra econômica, um baixo que parece saído de uma música do Michael Jackson, você encontra os violinos, ali. É como se eles juntassem o pueril, do entretenimento, do querer se divertir numa pista, sem se importar com o dia de amanhã, com uma necessidade de tocar mais fundo, com a vontade de emocionar. O final dacanção, em crescendo, com os violinos sustentando toda a música, é capaz de emocionar e fazer dançar - ao mesmo tempo - a mais dura das pedras.

    Mas se você ainda tem espaço para se emocionar um pouco a mais, a sugestão fica com "Afterlife", a penúltima música do disco. Tecladinhos saídos de uma música disco da década de 1990. Bateria seca, simples, nada demais. Entra o frontman Win Butler: "Afterlife / oh my god, what awful word". Parece uma música simples, até que, ao fim da primeira estrofe, ele pede: "I've gotta know" - e aí ela começa de verdade. Percebemos que a simplicidade inicial é apenas a base para a música, o tecladinho jamais vai sumir, mas ele vai ficar embaixo de uma camada de guitarras, de um coro simples, que tornam a música imensa, enorme. "But you say / Oh / When love is gone / Where does it go? / And you say / Oh / When love is gone/ Where does it go? / And where do we go? / Where do we go? / Where do we go? / Where do we go?"

    "Afterlife" não é exatamente sobre a vida após a morte - ou não apenas. Mas sobre aquele momento em que estamos saindo de um amor e perguntamos: e agora? Como recomeçar? O clipe mostra isso bem.

     

     

    Bem, é possível falar coisas bonitas de cada uma das canções desse disco, que virou uma pequena obsessão desde que foi lançado, pela primeira vez, oficialmente, nesta semana e sendo considerado por vários críticos como o melhor da banda. Mas talvez seja possível resumir, cogitando uma mudança na resposta para a pergunta "qual é a maior banda da atualidade?". Que o Radiohead se cuide.

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