'Justiceiros' de ontem e de hoje

Do Mão Branca aos Justiceiros do Flamengo, passando por Cabo Bruno e grupo Killing, o Brasil cultiva tradição de violência incorporada por criminosos que se dizem defensores da lei

Alexandre Leitão

  • Correio da Manhã / 1970 / Conforme se aproximava o fim do regime militar, o processo de abertura política revelava grandes tensões sociais no país, sobretudo nas regiões periféricas dos centros urbanos. Nestes locais, diante de altos índices de desemprego e acirrada corrupção policial, modalidades criminais violentas começaram a se alastrar, já no início do governo de João Figueiredo (1979-1980). Era o caso da Baixada Fluminense. Segundo dados da revista Veja, em edição de 7 de janeiro de 1981, só no ano de 1980 a região chegou a registrar 2000 assassinatos, quando recebeu da ONU o título de “a mais perigosa do mundo”. Durante este período ampliou-se a presença da figura dos justiceiros e dos grupos de extermínio: dez só na Baixada. O Killing, formado ainda no final dos anos 1960, era uma dessas organizações, integrado na época por policiais da ativa e da reserva e por soldados da PM. Foi responsável por 500 execuções durante a década de 1970.

    A popularidade e fascínio despertados pelos grupos de extermínio e mesmo pelo Esquadrão da Morte desempenharam papel estratégico no surgimento da figura conhecida como Mão Branca. Suposto justiceiro atuante na Baixada Fluminense, “Mão Branca” teria assumido a autoria de vários “despachos de presuntos” (termo utilizado por ele), atuando no “extermínio de bandidos”. Seu modus operandi, tal qual o Esquadrão, envolvia ligar para delegacias e redações jornalísticas, onde suas falas eram transcritas e reproduzidas na forma de discurso direto. Este personagem apareceria com certa intensidade em veículos como A Última Hora e O Dia, no decorrer do ano de 1980.

    Poderia tratar-se apenas de mais um matador, não fosse o fato de Mão Branca, como demonstram as pesquisadoras Ana Lucia Enne e Betina Peppe Diniz, ser um personagem fictício, criado e reproduzido por parte da imprensa carioca, ao qual seria arrogada a responsabilidade por uma série de assassinatos sem solução. De acordo com as autoras, a aura de justiceiro anônimo do personagem teria sido reforçada pelo jornal A Última Hora, através da publicação de cartas de leitores e enquetes com personalidades, as quais revelariam simpatia para com o falso justiceiro. Sua popularidade se alastraria até grupos de extermínio reais, que passaram a usar a assinatura Mão Branca para os assassinatos que cometiam. O executor renderia inclusive tema para um funk lançado ainda nos anos 1980, pelo compositor Gerson King Combo, intitulado “Melô do Mão Branca”.

    Cabo Bruno

    Também em 1982, nos bairros da zona sul de São Paulo, começaria a se celebrizar Florisvaldo de Oliveira, ex-cabo da PM paulista mais conhecido pelo apelido Cabo Bruno. Em pouco tempo o Cabo Bruno ganharia fama de justiceiro, executando mais de 50 pessoas e sendo suspeito de chefiar um importante esquadrão da morte na região. Segundo entrevista publicada no portal Terra, em outubro de 2012, Deisy França, viúva do ex-PM, considerava que o cinema norte-americano tivesse servido de inspiração para o marido: “ele imitava até o jeito de vestir do Charles Bronson. Ele queria ser igual. Ele achava (que podia fazer justiça com as próprias mãos). Não justifica, mas foi isso” – afirmou Deisy, fazendo referência ao ator norte-americano que se celebrizaria pela franquia de filmes Desejo de Matar, em que interpretava um justiceiro urbano.

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     Condenado a 113 anos de detenção pelos mais de 50 homicídios cometidos, Cabo Bruno seria detido a primeira vez em 1983, fugindo da prisão em três ocasiões distintas, nos anos seguintes. Recapturado em 1991, permaneceria na penitenciária Dr. José Augusto Salgado, em Tremembé (SP) por mais 21 anos. Em 2009, na tentativa de obter um indulto, escreveu uma carta ao então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em que contou a história de sua vida e tentou explicar os motivos que o levaram a tornar-se um matador. Obtida pelo Estado de São Paulo, a carta dizia: “Quantas vezes prendia ladrões, estupradores, etc, levava-os para o Distrito Policial e era comum depararmos com eles em liberdade (pois a corrupção era grande nas delegacias). Vendo o sofrimento das vítimas, essa revolta foi tomando vulto em meu íntimo até que em 1982 ela explodiu.

    Seguindo péssimos exemplos de outros companheiros de farda, inclusive oficiais, comecei a infeliz e trágica caminhada de fazer justiça pelas próprias mãos”. Convertido ao cristianismo evangélico, Cabo Bruno tornou-se pastor na cadeia, tendo adquirido o desejo, de acordo com a esposa, de pedir perdão aos familiares de suas vítimas, conforme afirmou ao programa Fantástico, em 2012: “Ele queria o endereço de todo mundo. Ele precisava pedir perdão mesmo que não aceitassem. Algumas perdoaram, retornavam com cartas. Algumas mandavam ele para o inferno, não queriam saber”. Em setembro de 2012, um mês após deixar a prisão, Cabo Bruno seria assassinado com 18 tiros, na porta de sua casa, em circunstâncias ainda não esclarecidas.

    A figura dos justiceiros no Brasil nem sempre esteve associada com a posição de agente do Estado. Tal foi o caso de Hélio José Muniz, conhecido também como Helinho ou “Pequeno Príncipe”, suposto justiceiro que atuou na cidade de Camaragibe, município localizado na região do Grande Recife, em Pernambuco. Aos 24 anos, Helinho já somava 65 assassinatos de ditas “almas sebosas” – título que ele imputava aos maus elementos que cometeriam crimes e assaltos na comunidade. A popularidade do Pequeno Príncipe em seu município teria levado parte da população local a realizar um abaixo-assinado, pedindo sua soltura. Sua vida seria tema do documentário O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas (2001), de Paulo Caldas e Marcelo Luna, durante o qual ele enuncia frases como: “A malandragem começa com um mas sempre termina com dez, e se matar um tem que matar todos”. Tal qual Lúcio Flávio (detentor da fama de bandido e não de justiceiro), Helinho seria morto a facadas por outros detentos, no presídio pernambucano Aníbal Bruno, em 2001.

    Em janeiro de 2014, jovem é preso pelo pescoço em poste no Rio de JaneiroBandido bom é bandido morto

     Reproduzindo métodos utilizados pelo Esquadrão (como a exposição de suas vítimas em local público), o ano de 2014 começou com o ação de grupos de supostos “justiceiros”, cujo aparecimento no Rio de Janeiro foi seguido por seu rápido alastramento em outros estados da federação. No dia 31 de janeiro, um jovem foi agredido por motociclistas e amarrado com uma trava de bicicleta a um poste, no bairro do Flamengo, ataque bem parecido ao que sofreu outro menor, de 17 anos, acusado de roubar um celular, na Rua General Polidoro, no bairro de Botafogo, no dia 26 de fevereiro. Agredido, e com mãos e pés amarrados por um grupo presente ao local, um dos homens teria chegado a colocar o menor no porta-malas de um carro, sendo demovido da ideia por pessoas que assistiam à cena. Segundo uma testemunha do ataque, alguns dos presentes teriam dito “bate mais, ladrão tem mesmo é que morrer”. Um vídeo postado no site do jornal capta ainda frases como “Dá logo um tiro na cara”.

     A exposição da vítima em um local público, como forma de punição pedagógica, objetivando dissuadir outros potenciais criminosos, somada ao claro uso de agressões físicas (demonstrado por meio de hematomas ou cortes pelo corpo), remonta ao modus operandi do Esquadrão da Morte. Este, por sua vez não foi criação dos policias que o integraram, remontando a práticas autoritárias de repressão ao crime, já então presentes na sociedade brasileira. 

    A comparação entre os supostos “justiceiros” de hoje e aqueles dos anos 1950 e 60 pode ser melhor frisada a partir do exemplo do próprio Cara de Cavalo.  Iniciado no crime ainda aos 16 anos de idade, por meio da venda de maconha na Central do Brasil, Manoel Moreira morava então na favela do Esqueleto, próxima ao estádio do Maracanã. Até os anos 1950, a comunidade era ocupada por professores, funcionários públicos e mesmo militares, mas nomes do submundo começaram a frequentá-la, causando desconforto junto aos moradores mais antigos. Alguns dentre eles resolveram formar um grupo autodenominado Os Homens de Boa Vontade, liderado pelo chefe local Antônio Emídio.

     Emídio tinha planos para melhorar a reputação da favela, chegando a pensar em rebatizá-la de Bairro da Graça. Entre as estratégias que esboçou para garantir a boa fama da comunidade estava um ataque punitivo a Cara de Cavalo, que havia assaltado um dos moradores. A ação envolveria pegá-lo, raspar seu cabelo, dar-lhe uma dose dupla de óleo de rícino (um poderoso laxante) e amarra-lo a um poste durante algumas horas. Sobre o delinquente, pensava-se colocar um cartaz, em que estaria escrito: “Este é o ladrão”. Emídio acabaria duplamente frustrado: não só Cara de Cavalo escaparia ao ataque, avisado por um olheiro, jamais regressando à favela do Esqueleto, como a comunidade despareceria do mapa, sendo posta abaixo pelo governador Carlos Lacerda, que em seu local ergueria a Universidade do Estado da Guanabara – a atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

     Portanto, ao se debruçar sobre o impacto político, social e cultural do Esquadrão da Morte, cabe colocar certas questões: quais seriam o papel e responsabilidade da mídia na divulgação dos crimes do Esquadrão? Em que medida suas práticas se inserem em um processo muito mais longo, de conformação de uma cultura de violência no interior das instituições policiais brasileiras?; até que ponto, o Esquadrão só pôde existir enquanto resposta aos anseios de diversos atores sociais (empresários, lojistas, comerciantes, profissionais liberais e mesmo setores populares), imbuídos de certa mentalidade de sítio, capaz de embasar, até hoje, o discurso de “bandido bom é bandido morto”?; Até quando a caveira permanecerá solta?

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