Hoje é um dia diferente

No ano em que a História foi para as ruas, o dia do professor tem um gosto especial. Pesquisadora da RHBN, que é professora da rede municipal do Rio de Janeiro, comenta a greve na educação e as dificuldades da profissão

Cristiane Nascimento

  • Foto: RHBN / Gabi Nogueira Cunha Hoje é um dia diferente. Não porque é feriado escolar e, por isso, nós, professores podemos ficar em casa em plena terça-feira. Ou mesmo porque seja o dia de receber cumprimentos pálidos daqueles que são capazes de se lembrar. 

    Quando se pergunta a qualquer professor de História para que serve a sua disciplina em termos “práticos”, a resposta vem quase que imediata: formar cidadãos críticos capazes de interpretar e transformar a sua realidade. Ao discutirmos democracia na Grécia, as revoltas no Brasil colonial, a revolução americana ou a redemocratização do Brasil sempre temos este “norte” na cabeça, mesmo quando formulamos alguns argumentos um tanto anacrônicos. Na sala de aula, não precisamos ser tão obsessivos com isso. 

    Neste ano, a aula de História extrapolou os limites da sala de aula, ela foi para as ruas, para redes sociais e para as nossas vidas. A crença nas mudanças e a disposição que, em muitas vezes, descrevemos em personagens históricos, tão distante da realidade, se materializaram.

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    Sempre me portei de maneira cética às utopias, mesmo dizendo aos meus alunos que devemos cultivá-las. Talvez isto ocorra por ter me alfabetizado em 1989, ano em que o muro de Berlim e a ideologia de um mundo igualitário desmoronaram, ou por ter vivenciado pessoalmente o poder devastador da desigualdade social como ex-moradora de uma favela. Desde cedo percebi que não é apenas a fé ou o otimismo que fazem as coisas acontecerem.

    Foto: RHBN / Gabi Nogueira Cunha Com 30 anos, sou fruto dessa sociedade em que tudo se desmancha no ar (que nos oxigena e oxida), do regime do presentismo e de um mundo em que tudo é tão relativo que o que é certo pode ser, ao mesmo tempo, errado. Pertenço a uma geração niilista com uma crença quase cega em acreditar em nada.

    Mas no segundo semestre muita coisa mudou. E como professora decidi aderir à greve de minha categoria. A adesão não se deveu à utopia, mas a uma revolta por um salário indigno para aquilo que estudei, por trabalhar em salas cheias, sem ar condicionado ou ventilação suficiente, no lugar mais quente do Rio de Janeiro. Por ver meus alunos oscilarem a atenção entre as incríveis incursões de Napoleão e a vontade incontrolável de beber água e respirar um ar mais fresco. Falar do inverno russo que derrotou as tropas francesas em minha aula sempre parece uma horrenda ironia.

    Aderi à greve por coerência pedagógica, por respeito aos meus alunos que se emocionaram quando lhes contei sobre a história dos movimentos operários, sobre a resistência africana e a luta por independência da presença opressora da Europa, por discutir em sala de aula os movimentos ocorridos neste ano no Brasil que reivindicavam direitos. Por estes e tantos outros momentos que aprendemos um pouco com a história dos outros e com a nossa, mesmo sabendo que a História em si não é mais mestra da vida.

    Aderi à greve por ver a coragem e a força dos professores de minha escola, que mesmo perto de sua aposentadoria foram capazes de tecer novas esperanças. Pelas merendeiras, pelo pessoal de apoio e por aqueles que realmente acreditam que juntos somos fortes.

    Fui às ruas protestar, mesmo de maneira tímida e sem jeito, coisa típica de uma geração que se tornou adulta na democracia e na crença do conformismo. Lá encontrei meus professores do ensino médio, do pré-vestibular comunitário, colegas de faculdade, conhecidos da rua, mães de alunos e muitas crianças, inclusive as de colo, que estão aprendendo que devemos lutar. É por isso que hoje vou às ruas de novo e é por isso que nunca o dia do professor fez tanto sentido para mim. Hoje é um dia diferente.

    Cristiane Nascimento é produtora executiva da RHBN, doutoranda em História, professora da rede municipal do Rio de Janeiro e grevista.

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