História da enfermagem

Sede da Cruz Vermelha no Brasil completa cem anos

Fernando Porto e Tânia Cristina

  • Há cem anos atrás, a Cruz Vermelha Brasileira (CVB) foi fundada no Rio de Janeiro. A inauguração contribuiu para a profissionalização da enfermagem no país, com a criação da Escola Prática de Enfermeiras em 1916. A primeira escola de capacitação profissional fora criada em 1890. Intitulada Escola Profissional de Enfermeiros e Enfermeiras, hoje ela se chama Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

    O idealizador da Cruz Vermelha Internacional foi Henry Dunant (1828-1910). Os princípios da instituição eram: humanidade, igualdade, proporcionalidade, imparcialidade, neutralidade, independência e universalidade. O símbolo adotado pela instituição foi uma cruz vermelha sobre um fundo branco, em homenagem a Suíça, nas cores invertidas da bandeira daquele país. Esse símbolo tem significado de inviolabilidade e respeito com as pessoas e instituições destinadas à assistência, principalmente, durante a guerra.

    Em 1911, a instituição recebe do Governo Federal um terreno para a construção de uma sede própria, abrigando o Dispensário para Assistência Médica gratuita e um local para ensino de enfermagem. Três anos depois, a CVB iniciou a formação de enfermeiras voluntárias, mas a necessidade de profissionais para a capital federal era premente.

    Em 1916, para atender a esta necessidade as Damas da Cruz Vermelha propuseram a criação de um curso de enfermeiras profissionais. A formatura da primeira turma ocorreu um ano depois. Mesmo assim, os cuidados dos doentes permaneciam sendo exercidos quase sempre por praticantes amadores e religiosos.

    A Escola Prática da Cruz Vermelha Brasileira, no Rio de Janeiro, funcionava anexa ao Dispensário para Assistência Médico-Cirúrgica da instituição, sob direção do Dr. Getúlio dos Santos (1881-1928), então Diretor do Serviço Médico da Cruz Vermelha Brasileira.

    Para o ingresso no curso de enfermeiras profissionais, as candidatas deveriam encaminhar um requerimento ao diretor da Escola; ser sócia da Instituição, saber ler, escrever e fazer as quatro operações aritméticas, além de apresentar os documentos de atestado de boa conduta, conferido por autoridade competente ou por pessoa idônea; certidão ou justificação de idade provando ser maior de 18 e menor de 30 anos; e atestado médico, declarando não sofrer de nenhuma moléstia crônica nem contagiosa e não ter defeito físico incompatível para o exercício da profissão. A primeira turma de enfermeiras profissionais teve trinta e seis mulheres matriculadas, mas somente oito enfermeiras se formaram ao final do curso.

    Na composição do uniforme, o véu chamava atenção. Este complemento da veste lembra as filhas de Maria, as noivas, algumas imagens religiosas, e as irmãs da caridade. O significado do véu pela ótica da moda é uma das maneiras de ocultar a identidade e enfatizar a moralidade. Ao lado do símbolo da cruz, ele reforçava a mensagem da instituição no apelo à caridade e bondade que as enfermeiras deveriam transmitir à sociedade.

    Tempos de guerra
    No período da guerra, não sabemos se a Cruz Vermelha Brasileira enviou enfermeiras para os hospitais na Europa, mas é possível afirmar que algumas esposas de militares acompanharam seus maridos e lá auxiliavam nos cuidados aos feridos nos campos de batalha. Ao mesmo tempo, no Brasil, a Revista da Semana publicava imagem de enfermeira em campanha para recolher donativos para as famílias dos soldados como um gesto de bondade humana.

    Com o término da I Guerra Mundial, o país foi marcado pela gripe espanhola e, no Rio de Janeiro, a Cruz Vermelha Brasileira foi transformada em um hospital. Durante a epidemia, as enfermeiras da instituição cuidaram dos acometidos pelo flagelo da gripe. Para se ter uma idéia da gravidade, a gripe espanhola levou ao óbito 15 mil pessoas, inclusive com a morte do presidente eleito à época Rodrigues Alves, deixando-a conhecida, na voz corrente, como gripe democrática.  A doença, apesar de causar danos à saúde da população, evidenciou que a Cruz Vermelha não se destinava apenas aos cuidados dos feridos de guerra, mas também para àqueles tipos de calamidades.

    Em 1919, foi aprovado o projeto para a construção do palácio da Cruz Vermelha Brasileira pelo Conselho Diretor e assentada a Pedra Fundamental para a construção. Apesar de ter ocorrido de forma simples segundo os documentos, este evento foi marcante pelo legado que a instituição deixaria no sentido arquitetônico e das ações sociais promovidas pela instituição.

    O ano de 1922 foi marcado pelas comemorações do Primeiro Centenário da Independência do Brasil, considerada como vitrine de modernidade do país. Nestas comemorações, a CVB lançou a campanha de captação de recursos financeiros, por meio da loteria do centenário do Brasil, para o término das obras do Palácio da Instituição. O cartaz da lotérica fazia apelo à sociedade para adquirir o bilhete e investir na bondade e caridade aos necessitados em momentos de guerra e calamidade.

    Livro para enfermeiras
    Ainda em 1916, foi lançado o livro intitulado “Livro do Enfermeiro e da Enfermeira – para uso dos que se destinam à profissão de enfermagem e as pessoas que cuidam de doentes” de autoria do Dr. Getulio dos Santos. Esse livro descrevia às qualidades exigidas à mulher para ser enfermeira para a prática na caridade e bondade, consoantes com os princípios da Cruz Vermelha.

    Getulio Santos esclarece que o motivo que o levou a escrever o livro foi à carência de literatura e de profissionais de conhecimento técnico e prático para exercer as atividades da enfermagem. O livro destinava-se aos professores, alunos e interessados em auxiliar os médicos no tratamento aos doentes. O livro foi editado em 1916, 1918 e 1928. Na sua última edição, foi composto de 376 páginas, 151 figuras distribuídas em 13 capítulos.

    Nas considerações gerais, sobre a profissão de enfermeira, Getulio dos Santos reconhece na mulher às qualidades indispensáveis ao exercício da profissão, considerando-a como sincera nas suas aspirações, mais constante nos seus surtos, de ação bem mais acomedida e mais capaz de exercer sem exorbitar dentro das suas atribuições o dedicado mister de enfermeira.

    As qualidades para uma mulher ser enfermeira, descritas por Getulio dos Santos, era que deveria transmitir a imagem de boa profissional, cuja prática se pautava na caridade e bondade, consoantes com os princípios da Cruz Vermelha.

    A mãe dos brasileiros
    Mas foi sem formação profissional que Anna Nery (1814-1880) fez história na enfermagem. Ela nasceu na Bahia, casou-se aos 23 anos e teve três filhos. Ficou viúva aos 51 anos e, ao vivenciar a partida de seus filhos e um sobrinho para os campos de batalha da Guerra do Paraguai (1864-1870), resolveu ser voluntária no atendimento aos feridos de guerra.

    Antes de partir, aprendeu lições e maneiras de como cuidar de doentes no Rio Grande do Sul, com as Irmãs de Caridade São Vicente de Paulo, com período de estágio para convalescentes da guerra, em Salto na Argentina. Ao retornar da guerra trouxe consigo seis órfãos do Paraguai para criá-los. Recebeu uma coroa de louros cravejada de brilhantes como homenagem e ficou conhecida popularmente como “Mãe dos Brasileiros”.

    Faleceu em 20 de maio de 1880, aos 65 anos de idade, no Rio de Janeiro. Após sua morte, ainda ocorreram diversas homenagens, dentre elas em 1919, pela Liga das Sociedades da Cruz Vermelha, em Paris, que a reconheceu como pioneira da Enfermagem Brasileira e precursora da Cruz Vermelha Brasileira.

    Em 1926, Anna Nery passa a ser nome da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, sendo então denominada Escola de Enfermeiras Donna Anna Nery, atual Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Essa escola foi criada em 1922, no início da Reforma Sanitária, liderada por Carlos Chagas, e subvencionada pela Fundação Rockefeller para implantação da enfermagem moderna no país.


    Fernando Porto é enfermeiro e professor da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Atualmente, faz pós-doutorado na USP.

    Tânia Cristina Franco Santos
    é enfermeira e professora da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Faz pós-doutorado na Espanha, via CAPES.

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