Faca na caveira

Quando o cenário político muda, outras facções criminosas surgem no Rio de Janeiro, como a Falange Vermelha. Esquadrões da morte passam a ser braço armado do tráfico de drogas

Alexandre Leitão

  • Emblema do BOPE / ReproduçãoO contexto que gerou as condições para o surgimento de um grupo de extermínio nos moldes do Esquadrão, formado por inspetores e delegados da Polícia Civil, começou a mudar no ano de 1969, quando o presidente Costa e Silva assinou o decreto 667, transferindo das extintas guardas civis para as Policiais Militares a função de patrulhamento ostensivo nas ruas do país. No mesmo ano, alguns nomes da Scuderie Le Cocq, como Mariel Mariscot, seriam chamados para integrar um novo grupo de elite da Polícia Civil, formado pelo Secretário de Segurança da Guanabara, Luís França: os 12 Homens de Ouro, que disporiam de carta branca para coibir os assaltos a taxistas, conduzidos pela quadrilha intitulada “Bandeira 2”. No livro Barra Pesada, questionado pelo jornalista Octávio Ribeiro a respeito de quantos criminosos teriam morrido a partir das ações dos Homens de Ouro, Sivuca respondeu: “Uns 12. Foram abatidos em tiroteios”.

    Ao longo dos anos seguintes, a Scuderie Le Cocq cresceria: algumas pessoas chegavam a colar adesivos com o símbolo do grupo nos para-brisas de seus carros como forma de afugentar ladrões. Em 1977, Sivuca declarou ao jornalista Octávio Ribeiro: “Existem cerca de 2500 sócios, entre eles policiais, jornalistas, médicos, advogados, militares e outros profissionais liberais. A Scuderie foi criada para perpetuar a memória de Le Cocq A vida do candidato é minuciosamente vasculhada. O associado tem que ser bom pagador. Não pode ser caloteiro”. Entre a primeira e a segunda metade da década, o Esquadrão passou a agir de forma decisiva na Baixada Fluminense, onde executou, apenas no município de Nova Iguaçu, 594 pessoas, entre 1970-76, de acordo com dados da antropóloga Márcia Regina da Costa.

    Novo mundo do crime

    Paralelamente, a desorganização e o abandono estrutural do sistema carcerário brasileiro, onde presos políticos e comuns eram colocados juntos sob condições desumanas em Ilha Grande, gerariam o contexto propício para a criação da Falange Vermelha. A organização criminosa foi fundada em finais da década de 1970 por nomes como William da Silva Lima (o “Professor”), José Carlos dos Reis Encina (o “Escadinha”) e Rogério Lemgruber (vulgo “Marechal” ou “Bagulhão”), cujas iniciais RL viriam a compor o nome completo da Falange, após esta ser rebatizada de Comando Vermelho (CVRL). Todos eles fugiriam do presídio em 1980, passando a ampliar o grupo não só dentro como também fora da cadeia, tomando pontos de vendas de droga em diversos morros do Rio de Janeiro.

     

    Especial - Esquadrão da Morte:

    A caveira está solta

    Os primeiros grupos de extermínio

    Vida e morte da Scuderie Le Cocq

    O Esquadrão no cinema

    Justiceiros de ontem e de hoje

     A ocupação de comunidades cariocas por grupos de narcotraficantes armados traria uma nova dinâmica ao mundo do crime, e causaria o reaparelhamento das instituições jurídicas e repressivas do Estado. A incursão sobre morros e favelas passaria então a ser conduzida por grupamentos militarizados, como a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil, criado em 1969, e pelo Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar, criado em 1978 – coincidentemente, ambas possuem a caveira como símbolo em seus escudos. Indubitavelmente, em um processo paralelo, grupos de extermínio continuariam a agir no subúrbio carioca e na Baixada Fluminense (além de estados como Acre, Amazonas, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e São Paulo).

     Paulatinamente reprimidos pelo próprio regime militar, que percebia a crise institucional que grupos como os Esquadrões da Morte estaduais poderiam produzir, alguns de seus integrantes receberam penas de prisão. Em São Paulo, no ano de 1970, o promotor Hélio Pereira Bicudo levantou inquéritos, nos quais foram denunciados inspetores da Polícia Civil como Sérgio Paranhos Fleury. Estes eram acusados de integrar o Esquadrão da Morte e beneficiar traficantes paulistas com suas execuções – os traficantes considerados “amigos” permaneceriam vivos, restando aos demais a execução sumária. Através desse sistema, o E.M. paulista tornava-se, efetivamente, braço armado de traficantes interessados em se livrar de concorrentes.

     No Rio, o detetive Mariel Mariscot de Matos seria encarcerado, tal qual Lúcio Flávio Vilar, no presídio de Ilha Grande (de onde viria a fugir), sendo mesmo expulso da Scuderie Le Cocq nos anos 70. Transitando entre a cadeia e a liberdade, Mariscot foi morto, em 1981, no Centro do Rio de Janeiro. Nas décadas seguintes, as ações do Esquadrão iriam reduzir-se, praticamente desaparecendo da crônica carioca. A única que sobreviveu foi a Scuderie Le Cocq, que, até a década passada, mantinha um prédio próximo à favela Paula Ramos, no bairro do Rio Comprido, no Rio de Janeiro. Em entrevista concedida à Folha de São Paulo, em 2006, seu então presidente Antônio Augusto de Abreu, afirmava que a Scuderie resumia suas ações a projetos sociais na região, além de dar pequenas contribuições a orfanatos e asilos. No mesmo artigo, o ex-deputado estadual Sivuca que afirmava que a ocupação da favela por traficantes teria desmotivado a entidade a lutar contra o crime.

    Emblema da Scuderie Le Cocq / ReproduçãoImpunidade aos justiceiros

      Para se compreender como o salto qualitativo no uso da violência consolidou-se enquanto parâmetro operacional, junto às forças policiais civis e militares brasileiras, é necessário não apenas reconhecer o impacto do Esquadrão da Morte, mas a ligação deste com o próprio Estado, em meio à Ditadura Militar. Por mais que esta, a partir de certo momento, tenha cerceado as ações do E.M., muitos de seus integrantes contaram com total impunidade por seus atos criminosos. A título de exemplo, dos 35 indiciados por envolvimento com o Esquadrão da Morte em São Paulo, na década de 1970, apenas 6 foram condenados. O delegado Sérgio Fleury morreria em liberdade, em 1979. Os delegados do SDE, Eurípides Malta, Itagiba José de Oliveira, João de Deus Dorneles e Salvador Correia de Oliveira, acusados do assassinato do motorista da TV Tupi no Morro São João, seriam absolvidos e reintegrados à força policial carioca na década de 1960 (Eurípides Malta viria mesmo a se tornar dono de um bar, na Barra da Tijuca, após se aposentar da polícia).

     Os delegados Luís Mariano e Sivuca, ambos integrantes da ação que redundou na morte de Cara de Cavalo, em 1964, seguiriam suas carreiras na Polícia Civil: Mariano, além de presidente da Scuderie Le Cocq, viria a tornar-se titular da Delegacia de Vila Isabel na década de 1990, e Sivuca ocuparia o cargo de professor da Academia de Polícia por duas décadas, elegendo-se ainda deputado estadual. O general Amaury Kruel, criador do Serviço de Diligências Especiais e acusado de corrupção, deixaria a posição de assessor militar do Brasil na ONU para assumir o Gabinete Militar da Presidência da República, nomeado por João Goulart, em 1961, e o Ministério da Guerra, em 1962, no contexto do regime parlamentarista (1961-63). Em 1963, assumiu o comando do II Exército, estacionado no estado de São Paulo (sua decisão de apoiar o golpe civil-militar de 31 de março de 1964, recusando-se a defender o governo constitucional de Goulart, pode ser encarada como o fator decisivo que propiciou a vitória dos golpistas).

    Ainda segundo a antropóloga Márcia Regina da Costa, no artigo “O Esquadrão da Morte em São Paulo”, escrito para o livro Sociedade, Cultura e Política: Ensaios Críticos, apenas em 1968, o Esquadrão da Morte carioca executaria 250 pessoas, enquanto seu equivalente paulista eliminaria 200 vítimas entre 1969 e 1971. Há, entretanto, que se reconhecer a presença de uma sólida base social para a ação dos Esquadrões. Vale lembrar que a criação da SDE se deu após um pedido da Associação Comercial do Rio de Janeiro para que ações mais enérgicas fossem tomadas na repressão a roubos e assaltos. Parte da imprensa, quando não adotou uma estratégia sensacionalista na cobertura do grupo, foi completamente solidária às suas ações, como pode ser exemplificado pela definição que o jornalista David Nasser deu, no programa “Diário de um Repórter”, aos integrantes do Esquadrão da Morte carioca, chamando-os de “os empreiteiros de Deus”. No livro Cobras criadas, biografia do jornalista escrita por Luiz Maklouf Carvalho, é relatado que, quando Nasser faleceu, em 1980, foi estendida sobre seu caixão a bandeira da Scuderie Le Cocq.

     Em 1970, uma pesquisa encomendada pela revista Veja à agência Marplan, conduzida nos estados de São Paulo e da Guanabara (atual cidade do Rio de Janeiro), e que entrevistou 210 pessoas, apontava que 60% dos entrevistados em São Paulo, e 33% na Guanabara, eram favoráveis ao Esquadrão da Morte. Ecos, talvez, de um profundo discurso autoritário, que encara na violência um dos únicos veículos de mediação das tensões sociais (em um país marcadamente desigual), pode-se identificar nos Esquadrões da Morte apenas uma das manifestações desta herança histórica, que atualmente realiza-se sob formas diferentes, envolvendo policiais e cidadãos sem vinculação direta ao aparato repressivo do Estado.

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