Fábrica centenária sambou

Implosão de cervejaria do século XIX desativada no Rio motiva artigo de pesquisador da RHBN sobre a preservação de construções dentro de uma cidade em expansão

Ricardo Pimenta*

  • O prefeito do Rio, Eduardo Paes, após ao acionar o dispositivo para a detonação do conjunto arquitetônico de pouco mais de 120 anos / Fonte: Prefeitura do RioO Rio de Janeiro tem em sua paisagem dezenas de chaminés. Antigas fábricas que compuseram o cenário urbano de fins do século XIX e início dos XX. Dessa vez, mesmo a chaminé não foi poupada. Não há intenção em se guardar qualquer vestígio, qualquer resto. Testemunhamos a todo o momento no cenário urbano a constatação de uma “história escolhida”. Ou seja, da deliberação do que merece continuar a fazer parte da história e o que se torna dispensável. E nesse caso abaixo a máxima de que o show não pode parar se mostra mais que adequada.

    A fábrica da Brahma, anteriormente chamada de “Manufatura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia”, localizada no centro da cidade do Rio de Janeiro, foi ao chão neste domingo, dia 05 de junho de 2011. A referida indústria cervejeira (uma das primeiras no Brasil) foi erguida em 1888, sendo registrada na junta comercial da capital do Império por seu fundador, um imigrante suíço, Joseph Villiger (1856-1903).

    De lá para cá, muita coisa mudou. O parque industrial se modernizou logo no início do século XX com a anexação de outras companhias cervejeiras próximas, mas o fato é que o local constitui parte da história urbana e sócio-econômica da cidade do Rio de Janeiro. Parte de um patrimônio que havia sido reconhecido pela lei nº 4.001 de 2002, a fábrica acabou por ter seu tombamento revogado pela lei nº 157 de 2011, na qual se discorre que tal medida seria necessária para “adequar a cidade ao Projeto Olímpico de 2016 e possibilitar melhorias para o carnaval fluminense” (Alerj, 2011).

    Paisagem dramática, sem dizer preocupante, quando nos deparamos com a constatação de que um patrimônio, um sítio arqueológico industrial, possa ser visto como empecilho à modernização de uma cidade como o Rio de Janeiro. Não que a preservação desvairada de tudo seja a ordem do dia. De fato, as cidades crescem e com elas muitos registros anteriores se apagam. No entanto, existem medidas para se aplacar o total apagamento do espaço; impedindo que esses vestígios, ainda são tão caros à memória coletiva e à história, desapareçam completamente.

    Estudos sobre as condições do patrimônio industrial vem se desenvolvendo, ainda de forma modesta, no panorama brasileiro. Sabemos, inclusive, que o processo de “desindustrialização” dos grandes centros urbanos desde meados dos anos 60 e 70 — como é o caso da cidade do Rio de Janeiro —, atingiu um número expressivo de antigas fábricas, empurrando-as para fora do cenário urbano da capital.


     
    Imagens do processo antes da implosão / Fonte.

    Nesse sentido, o primeiro e segundo encontros nacionais sobre patrimônio industrial, realizado pelo Comitê Brasileiro de Preservação do Patrimônio Industrial, têm apontado para este fenômeno. A carta assinada na cidade russa de Nizhny Tagil sobre o patrimônio industrial, escrita em julho de 2003 no âmbito da Comissão Internacional para a Conservação do Patrimônio Industrial (TICCIH, na sigla em inglês), apresenta-nos um pouco desta categoria patrimonial ainda pouco conhecida e valorizada no Brasil:

    O patrimônio industrial reveste um valor social como parte do registro de vida dos homens e mulheres comuns e, como tal, confere-lhes um importante sentimento identitário. Na história da indústria, da engenharia, da construção, o patrimônio industrial apresenta um valor científico e tecnológico, para além de poder também apresentar um valor estético, pela qualidade da sua arquitetura, do seu design ou da sua concepção.

    Embora a carta aconselhe a criação de programas de proteção ao patrimônio industrial integrados às políticas econômicas (e por que não à renovada indústria do turismo?), o fato é que, em se tratando dos sítios industriais, muito pouco foi feito e continua a ser realizado no Brasil. Fica nas mãos da iniciativa privada que pode deliberar de forma arbitrária sobre o assunto.

    No caso da antiga fábrica de cerveja, a disputa pelo espaço foi igualmente uma disputa de valores e de capitais simbólicos. Entre o patrimônio arquitetônico do projeto do Sambódromo de Niemeyer, a especulação imobiliária, o apelo comercial de expansão do sambódromo, e a arquitetura de origem alemã da antiga cervejaria, houve claramente um perdedor.

    Na cidade do Rio uma chaminé a menos, um lugar a mais para se sentar e assistir ao desfile no próximo carnaval e uma lacuna a mais para nós historiadores buscarmos aplacar.

    * Ricardo Medeiros Pimenta é doutor em Memória Social. Pesquisador da Revista de História e professor da Ucam e Uniabeu.

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