Entre o terror e a vida: Budapeste.

Relato pessoal de historiadora mostra como o Museu do Terror e a Árvore da Vida em Budapeste relacionam-se com os refugiados sírios.

Eneida Quadros Queiroz

  • Conheci Budapeste em setembro de 2012, exatamente há 3 anos. Que cidade maravilhosa!

    É dessas assim lindas como o Rio de Janeiro, ouso dizer. Verdade que a beleza natural não é tão dramática, como em terras cariocas, mas existem as montanhas de Buda (e nós sabemos que áreas altas fornecem vistas memoráveis), sobretudo quando lá embaixo corre caudaloso o Danúbio, cortado por pontes lindas, enfeitado numa de suas margens por um parlamento em estilo neogótico de embasbacar qualquer turista e encher de orgulho qualquer húngaro, além dos bares, restaurantes e demais atrações da vida social de Peste, e uma enxurrada de monumentos históricos por toda a cidade. Isso porque não falei da comida maravilhosa, do cuidado com as ruas, dos chafarizes, parques, esculturas aos tropeços e esbarrões, dos vinhos bons e baratos, das igrejas, e do castelo de Buda.

    E também não citei o primordial: estava hospedada em casa de amigos queridos que conheciam a cidade, me mimavam sendo guias turísticos e tinham o mapa da mina nas mãos: não embarquei em nenhuma furada. Rimos com eles, bebemos, comemos, contamos histórias, passeamos: uma viagem para nunca esquecer na vida!

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    Naquela época, para coroar a imagem positiva que tive do país e da cidade, o governo húngaro – embora já de direita – ainda não estava tentando impedir que milhares de refugiados sírios, fugindo das garras do Estado Islâmico, encontrassem abrigo na Europa.

    Para falar dos monumentos de Budapeste, é preciso lembrar que a história húngara é intrincada e distante da realidade brasileira, mas podemos fixar-nos numa informação que meu anfitrião me forneceu: a história húngara é uma contínua perda de territórios. Na Segunda Guerra Mundial, a aliança do governo húngaro com a Alemanha nazista se dava – além de afinidades do partido de direita húngaro Cruz de Flechas com o nazismo – também pela promessa de recuperar territórios. Com a Alemanha e demais países formadores do Eixo perdendo a guerra, a Hungria não só viu cair por terra seu objetivo de recuperar essas áreas, como passou para o controle de forças soviéticas. É dessa história que surge o Museu do Terror.

    Um prédio, imponente como quase tudo em Budapeste, localizado numa das ruas mais famosas da cidade, foi sede do partido fascista húngaro durante a Segunda Guerra (o Cruz de Flechas), que lá torturou e matou inúmeras pessoas. Quando os soviéticos liberaram a cidade e tomaram o prédio, encontraram ali dentro todo um aparato para “interrogatórios” (leia-se torturas), encarceramento cruel e assassinatos já montado. Como a polícia soviética também faziam uso dessas práticas, acharam excelente instalar sua sede ali mesmo. Dessa forma, por mais que pareça difícil acreditar, esse prédio foi a sede tanto do partido fascista quanto da polícia soviética.

    Divulgação

    No processo de esfacelamento da URSS no final da década de 1980 e início da de 1990, o governo húngaro volta a ter eleições livres e o país começa, lentamente, a criar memoriais referentes às suas dores históricas. Em 2002 é inaugurado o Museu do Terror, em cuja fachada é projetada a palavra terror em letras garrafais pela própria luz do Sol, além dos símbolos referentes à URSS (a estrela) e ao fascismo húngaro (a cruz de flechas, claramente inspirada na suástica nazista). Conforme a inclinação do Sol, o terror se associa a um dos dois símbolos. Ainda do lado de fora, impressiona que edifício seja decorado com fotos de pessoas que morreram ali dentro. Os retratos parecem fazer parte da rotina dos moradores da cidade, como um altar para entes queridos, pois há sempre flores e velas junto às fotos. É um passado de sangue muito recente.

    Toda a expografia do museu é moderna, misturando um acervo de uniformes, documentos, fotos e vídeos – que poderiam ser um amontoado chato de objetos – com tecnologia e um design arquitetônico sombrio, macabro e angustiante. Ela é performática em alguns espaços e recria ambientes de época em outros, com o objetivo de fazer os visitantes viajarem no tempo. Quando passamos da bilheteria, encontramos uma parede enorme, toda decorada com fotos de vítimas, bem na frente de um tanque de guerra que jaz sobre um tanque raso com um óleo preto e denso, que escorre por todos os lados.

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    O visitante entra em salas com o chão forrado por mapas da Segunda Guerra e cones multimídia fincados no mapa para mostrar-nos a importância de determinada cidade ou batalha, com fotos, vídeos-depoimentos e textos. Entramos em salas de propaganda soviética, vemos maquetes dos monumentos comunistas em Budapeste, e diversos outros ambientes que aqui não caberia descrever, até que entramos em um elevador. Pode-se ir de escada, mas recomenda-se ir de elevador, pois ele desce de forma assustadora até as masmorras do prédio, onde ficavam as celas, as salas de tortura e a sala onde eram executadas as penas de morte. No começo tudo parece normal naquele elevador, mas logo as luzes começam a piscar num clima de suspense, tudo fica escuro e surge um vídeo-depoimento de um sobrevivente, narrando como era a prisão e os preparativos para quem seria executado. Eu quis ir embora na hora, acho que é a sensação que acomete a maioria das pessoas. A sensação de ser você mais um preso político e de que o pouco tempo que nos resta será de torturas e uma morte estúpida. Mal quis olhar as celas e solitárias úmidas e frias, apertadas e cheias de fotos de quem ali padeceu. A forca de madeira simples com uma corda tosca me dava embrulhos.

    A verdade é que saímos chocados daquele museu e, nesse ponto, ele cumpriu o seu papel. Percebo que a Hungria tenta expiar sua culpa com aquele espaço museológico, um monumento a favor da democracia e dos direitos humanos, contra o autoritarismo e contra a violência policial.

    Foto: Eneida Quadros

    Existe outro espaço parecido com esse em Budapeste, trata-se da Sinagoga da rua Dohány. Construída em meados do século XIX, em estilo neo-mourisco e bizantino, ela inspirou até a sinagoga central de Nova York. Sim, é bonita, mas não é apenas por estética que a visitamos: ela esteve dentro do gueto judeu de Budapeste durante a Segunda Guerra. Os limites do muro daquele gueto, por sinal, passavam justamente pela área externa da sinagoga. Eu fiquei surpresa em ver que nos jardins atrás do templo estão enterrados mais de 2 mil judeus que morreram de fome e de frio no inverno de 1944-1945 dentro daquele gueto. Eu disse: 2 mil!

    No entanto, esse inverno e a brutalidade antissemita matou – na verdade – entre 8 mil e 10 mil pessoas dentro daqueles muros, 2 mil foram só as que eles conseguiram enterrar na sinagoga! E ao longo da Segunda Guerra, estima-se que 400 mil judeus húngaros foram executados, a maioria enviados de trem para campos de concentração em território alemão e polonês.

    Por essa razão, além do cemitério nos jardins da sinagoga, existe também um monumento em memória a esses mortos: a árvore da vida. Trata-se de uma escultura de metal, do artista húngaro Imre Varga, em forma de árvore. É um salgueiro chorão, daqueles que pendem seus galhos e folhas em direção ao chão, num lamento profundo. Para quem conhece as folhas de um salgueiro, finas e cumpridas, verá que o artista as recriou à perfeição. E gravadas em cada uma delas estão os nomes com as datas de nascimento e morte de cada um daqueles enterrados no jardim. 

    Foto: Eneida Quadros

    Olhamos para aqueles milhares de folhas, as quais podemos pegar na palma da mão, e mal podemos acreditar que cada uma delas era uma pessoa, com sua história de vida, sonhos e desejos. Antes eram só mortos, meras estatísticas de guerra e preconceito, mas ao virarem parte de uma árvore voltam a ganhar vida: ao terem seus nomes identificados e gravados, voltam a ser gente. E nos faz relembrar o óbvio, que somos todos iguais: gente, nada mais.

    E agora? Como o governo húngaro tem tratado milhares de refugiados sírios que fogem da brutalidade e caos do Estado Islâmico? A maior crise humanitária desde a Segunda Guerra Mundial: com muros, cercas, violência policial, leis para prendê-los e até repórteres que chutam pais carregando filhos no colo. Chegam a criar incidentes diplomáticos com os vizinhos, como a Croácia, ao fecharem mais fronteiras, levantarem mais cercas e baterem boca com os governantes vizinhos. Seus vizinhos, notadamente a Eslovênia e a Croácia – na verdade quase todos os governos europeus – estão dando um show de desumanidade. Quem tem ajudado é a população civil que embora dotada de toda boa vontade, nós sabemos, infelizmente, não deter o mesmo poder de ajuda de uma canetada governamental. O verão termina hoje no hemisfério norte, o inverno se aproxima, e só prevejo mais mortes.

    Um dia, com vergonha, Budapeste e demais capitais europeias talvez ergam mais um museu ou monumento aos sírios. É bonito, mas não ajuda ninguém.

     

    Eneida Quadros Queiroz é historiadora e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Museus.

     

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