Como se cria uma identidade?

Uma década após o golpe de 1964, autora norte-americana escreve sobre o que percebeu do Brasil. Republicado em revista literária hoje, texto ilustra um país para além daquele interpretado pelas teorias clássicas da historiografia

Nashla Dahás

  • Livro Casa-Grande e Senzala/ ReproduçãoMesmo décadas após o surgimento das três mais conhecidas interpretações sobre a nação brasileira, a tarefa de olhar para dentro, e para o todo, poderia ser comparada ao “despertar do torpor do sono, do repouso da selva, da aurora letárgica da natureza imperturbada”. A frase é assinada pela escritora norte-americana Elizabeth Hardwick, que, nos “anos de chumbo”, voltou de uma viagem ao Brasil com reflexões acerca da cultura e política do país. Hoje, o texto de Haedwick abre o número 16 da revista Serrote, que se dispõe a pensar os caminhos do “Triste Brasil”.     

    Nem Sérgio Buarque e sua “cordialidade”, o Gilberto Freyre da Casa Grande e da Senzala, ou Caio Prado Júnior com o capitalismo tropical. O atraso do país, diagnóstico comum a todos, não carece mais de explicação, tornou-se a própria “maldição da imaginação brasileira”; o atraso e o seu eterno par, “essa vastidão notável e promissora” que, favorecida escandalosamente, padece da morosidade do descomunal.

    Nem tão eterno assim, continua Elizabeth. Dez anos depois do golpe civil-militar de 1964, e de sua primeira estada nos trópicos, a escritora voltou ao país e viu governantes militares comandarem assassinatos, torturas e repressão em nome do “sonho grande”.  “A selva, os cafezais e os canaviais históricos e românticos, Manaus, a louca Babilônia da borracha, descambando para a ruína pelo caudal do Amazonas, os cacos de mármore de seu teatro ópera: tudo isso, parecem dizer os militares, é um disparate, a sesta de algum mestiço sonolento, a velha lerdeza tropical. [Aqui] Tudo parece desfilar como diante dos cegos”.

    Publicado na New Yorker Review of Books – revista que Elizabeth ajudou a fundar –, conta nota de rodapé que o ensaio foi reproduzido em 2013, quando compôs ontologia que marcou o aniversário da publicação. É possível que um dos critérios para a volta do texto tenha sido prático: a reunião de visões de colaboradores em viagens fora dos EUA. Por aqui, a presença de suas metáforas, imagens literárias e narrativa política parecem relacionar-se, sobretudo, à atualidade de uma evidente falta de memória cujo resultado é a sobrevida de um mito fracassado. “Pobre Brasil: o começo e o fim se encontram num caso trágico de colusão e colisão. Entretanto, há que ser como é. Na verdade, não existe outro caminho. Ninguém admitirá voltar atrás”.

    Impressões de uma estrangeira, o texto-relato não deixa de carregar a desilusão de quem ainda vê na natureza brasileira o paraíso perdido, a “colossal densidade verde” a criar almas ansiosas por símbolos “cinzas” do progresso: uma via expressa, a engenharia, um vasto ferro velho de Volkswagen. Ao que tudo indica, também não é simples para quem está do lado de fora compreender que o vício do subdesenvolvimento nem sempre é uma questão de escolha. Depois de tantos desencantos e fracassos políticos, é possível que não tenhamos respostas para o fascínio que a solução industrial e desenvolvimentista continua a exercer sobre os mais diversos setores sociais brasileiros. Por outro lado, quando esse projeto coloca abaixo “os estudantes, a cultura, o professor, o escritor, o padre, o radical, o democrata, o guerrilheiro, o humorista, o teatral, o escárnio, o generoso, o repórter, o passado político”, não há dúvidas de que mereça a mesma revolta de quem se vê diante de um sacrifício humano. “Sacrifício de purificação profano e secular, praticado em nome do progresso, do investimento e do sagrado “crescimento””.

    Capa do livro Tristes Trópicos / ReproduçãoNo mundo prático, Elizabeth nos apresenta aquele que considerou o símbolo maior dessa “Vontade militar”. Foi esta quem disseminou a devastação dos esquadrões da morte “com suas unidades motorizadas, cassetetes elétricos e “métodos” de interrogatório”, assim como foi o seu general aquele que se constituiu em personificação do espírito da repressão. Ernesto Geisel “é incolor, como gelo é incolor, um representante branco da Vontade. Ele ocupa seu lugar como uma enorme geleira se movimenta na banquisa. Vazio glacial, opressivo, sua esposa e a filha, impenetráveis, grandes, nenhum esforço para agradar”.

    O texto vai crescendo em angústia impotente, e, pelos rastros deixados pela escritora, somos levados ao destino da irrealização completa e irreversível de uma consciência histórica autocrítica. Em suas palavras, “grande parte da terra permanece silenciosa. Sua própria percepção de você mesmo é ameaçada aqui e ali, e, por isso, a descrição especulativa se apossa da mente, e de sua rendição a ela é que advém uma espécie de tranquilidade”. O inconsciente visceral haverá de escapar toda vez que o pensamento técnico e conceitual forjado naquele momento apresentar-se como única possibilidade de maneira de viver; o não-saber e o não-dizer são as suas bases de sustentação. Como na relação do sádico que busca um parceiro a aspirar infligir-lhe exatamente às humilhações que o atormentam, o Brasil havia se tornado cativo de sua obstinação, “imóvel – ou, quando em movimento, mexendo-se de um jeito árduo, girando num círculo que deixa a mente estrangeira tensa, provocando ideias de possibilidades, de sentido, de passado e de futuro”.

    Filiando-se aos Tristes Trópicos de Lévi-Strauss, a autora critica a profunda necessidade de reconhecimento como marca fundadora dos mitos brasileiros. A sensação que se tem é que tudo por aqui foi e continua sendo feito para agradar, para ser querido, para parecer potente; estragando o Novo Mundo sempre que ele tente renascer por si só. “Você pensa nisso quando o avião conduz à fantasia amarga chamada Brasília”, ela é a prova cabal do desejo brasileiro de viver sem história, o horror que os grandes centros demonstram pelo fardo de ter que carregar nas costas os ignorantes do Nordeste, dos sertões, das favelas.

    Brasília, “um lugar inteiramente novo – nu, cego e vazio”, escolhido para representar um país sem passado e um povo sem memória.

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