Cinquenta anos da Anpuh e 30 da RBH

Aniversários de associação e de revista sobre História fazem relembrar a luta pela valorização da disciplina no Brasil

Marieta de Moraes Ferreira

  • Revista Brasileira de História, número 56.Neste ano de 2011, a Anpuh (Associação Nacional de História) está completando 50 anos e a "Revista Brasileira de História" (RBN), 30 anos. Criada em 1961, por ocasião da realização do I Encontro de Professores Universitários de História, em Marília (SP), com o objetivo de promover um intercâmbio ente os professores e universidades, desde as sua origens a Anpuh se constituiu em um padrão nas faculdades de filosofia que estavam sendo criadas no país. Igualmente importantes para serem lembradas foram as lutas travadas pela melhoria da qualidade do ensino e da pesquisa histórica, bem como pela defesa dos princípios democráticos e contra o arbítrio e a repressão ao longo dos anos 60 e 70. A recuperação de sua trajetória é uma contribuição importante para a compreensão da formação do campo da História como disciplina universitária e para a própria memória das instituições de ensino e pesquisa no Brasil.

    Vinte anos após a criação da Anpuh, em 1981, foi lançado o primeiro número da "Revista Brasileira de História" com o objetivo de se constituir em um canal de divulgação da produção dos professores e historiadores brasileiros. Criada com o intuito inicial de suprir o vazio deixado pelo fim da publicação dos Anais dos Simpósios da Anpuh, que até 1978 divulgaram os trabalhos apresentados nos encontros, a RBH veio contribuir nas conquistas no campo científico e na sua própria necessidade de divulgação. De acordo com a apresentação da professora Alice Canabrava, sua primeira editora, uma parte do periódico deveria dar publicidade a artigos originais sobre pesquisas de História ou de seu interesse. A atualização permanente com respeito à bibliografia histórica seria objeto de outra seção. Foi considerada, de início, especialmente a produção dos periódicos consagrados à História, nacionais e estrangeiros, no sentido de proporcionar aos professores e pesquisadores uma contribuição que viesse suprir a carência das bibliotecas universitárias. Essa informação bibliográfica deveria ser ampliada para divulgar também comentários de obras históricas. Finalmente, o “Noticiário” deveria tornar mais conhecida a atividade dos Núcleos Regionais, “dar maior publicidade aos conclaves de História realizados no país e no exterior e a outros assuntos de interesse para os que militavam no campo da História.” (Rev. Bras. Hist. vol.01 no.01 São Paulo  1981, p.09).

    Com a periodicidade semestral, a RBH já publicou 61 números, com 764 textos, sendo 598 artigos e 166 demais contribuições (resenhas, entrevistas, apresentações, etc), atingindo mais de 4 milhões e 700 mil acessos no site Scielo (contabilizando de 1998 até a atualidade). A partir do número 59, a RBH iniciou uma nova etapa passando a ser somente digital e a oferecer uma versão em inglês. Essas inovações visam ampliar o escopo de circulação do periódico permitindo o acesso à nossa produção de um público não conhecedor da língua portuguesa, bem como agilizar a consulta dos volumes novos e antigos.

    Revista Brasileira de História, número 48.Um balanço dos acessos aos dez últimos números da RBH na internet nos mostra a dimensão e a repercussão que nossa produção pode alcançar na web. Nos últimos dez números, a quantidade de acessos por mês foi superior a 20 mil (mais de 240 mil/ano), uma abrangência impensável para os impressos, confirmando a grande importância do formato eletrônico na disseminação dos conteúdos da Revista e fazendo do meio virtual um instrumento precioso para a divulgação da historiografia produzida no Brasil e sobre o Brasil.

    Esse duplo aniversário, da Anpuh e da RBH, constitui um momento importante de comemoração. Como historiadores, sabemos que comemorar não é um ato sem maiores implicações, pois envolve escolhas e projetos. Comemoração é a cerimônia destinada a trazer de volta a lembrança de pessoas ou eventos, algo que indica a ideia de ligação entre os homens, fundada sobre a memória. Essa ligação também pode ser chamada de identidade. E é exatamente porque permitem legitimar e atualizar identidades que as comemorações públicas ocupam um lugar central no universo contemporâneo.

    As sociedades contemporâneas, preocupadas com a aceleração do tempo e com o aumento da capacidade de esquecer, têm demonstrado grande interesse em retomar o estudo da memória e de sua própria história. Assim, emerge a necessidade permanente de constituir novas formas de preservação, de memorização, de arquivamento. As modalidades de comemorações assumem formas diversificadas de acordo com os objetivos a ser alcançados: o sentido de muitas delas é o de reforçar concepções e valores, promover o consenso, a harmonia entre os grupos ou atores sociais, mas podem também desencadear conflitos ou tensões. Nesta virada do milênio, grandes desafios se colocam para a sociedade brasileira, especialmente para nós professores de História e historiadores. Olhar para trás parece ser útil para melhor descortinar o caminho à frente.

    Marieta de Moraes Ferreira é professora do Instituto de Historia  da UFRJ, editora da "Revista Brasileira de Historia" e pesquisadora do Cpdoc/FGV.

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