Amor em tempos sombrios

Amantes durante quase uma década, Hannah Arendt e Martin Heidegger foram separados pela Segunda Guerra Mundial. Em carta endereçada à pensadora, o filósofo se defende das acusações de antissemitismo

Bruno Garcia

  • Hannah Arendt conheceu Martin Heidegger ainda jovem, em 1924, quando assistia a uma classe ministrada pelo filósofo na Universidade de Marburg. Em pouco tempo, iniciaram um romance que se tornou uma das mais notáveis relações do século XX.  Casado, e com um filho, Heidegger manteve a amante até o começo da década de 30. Separados pelos eventos que culminaram na Segunda Guerra Mundial, ambos seguiram suas brilhantes carreiras separados. Ele, cada vez mais enclausurado em sua casa na Floresta Negra e ela como destacada pensadora política em Nova Iorque.

    Em 1933, a correspondência entre os dois é interrompida. Trata-se justamente o período de ascensão iminente do nazismo após a eleição de Adolf Hitler na Alemanha. Enquanto Heidegger era nomeado reitor da Universidade de Freiburg, Hannah, como boa parte dos judeus, fugia da Alemanha em busca de um exílio seguro.

    Abaixo, a última carta enviada por Heidegger, na qual o filósofo procura se explicar, sobre as acusações de antissemitismo.

     

    Cara Hannah!

    Os boatos que a inquietam são calúnias plenamente de acordo com as outras experiências pelas quais passei nos últimos anos.

    A prova de que não estou recusando convites para seminários vindos dos judeus pode ser retirada do fato de não ter recebido nos últimos quatro semestres absolutamente nenhum convite para seminários. A insinuação de que não cumprimento judeus é uma difamação tão baixa que a anotarei aliás para mim futuramente.

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    Como esclarecimento de como me comporto em relação aos judeus, cito apenas os seguintes fatos:
    Fui licenciado neste semestre de inverno e por isso mesmo já informei a tempo, no verão, que gostaria de ser deixado em paz e que não assumiria trabalhos e coisas do gênero.

    Apesar disso, quem se encontrou comigo, quem precisa urgentemente e pode inclusive defender sua tese de doutorado é um judeu. Quem tem a oportunidade de vir mensalmente até mim para relatar um grande trabalho em curso (nem dissertação de doutorado nem projeto de pós-doutorado) é uma vez mais um judeu. Quem me enviou há algumas semanas um trabalho extenso para uma leitura urgente é um judeu.

    Os dois bolsistas da sociedade beneficente, que foram alocados por mim nos últimos três semestres, são judeus. Quem conseguiu com minha ajuda uma bolsa para Roma é um judeu.

    Quem quiser chamar isso de "anti-semitismo furioso" pode fazê-lo.
    De resto, sou tão anti-semita hoje em relação a questões universitárias quanto há dez anos; tão anti-semita quanto era em Marburg, onde cheguei mesmo a encontrar o apoio de Jacobsthal e Friedländer para esse anti-semitismo.
    Isso não tem nada a ver com ligações pessoais com judeus (por exemplo, Husserl, Misch, Cassirer e outros).

    E não pode ainda por cima afetar meu relacionamento consigo.
    Se em geral me retraio há um longo tempo, isso se dá porque me deparei em todo o meu trabalho com uma falta de compreensão aflitiva e não pude ter mais do que umas poucas experiências pessoais belas em minha atividade docente. Já perdi aliás há muito tempo o costume de esperar dos assim chamados alunos um agradecimento qualquer ou mesmo uma meditação sincera.
    De resto, estou bem-disposto para o trabalho que a cada dia se torna mais difícil. Saudações cordiais.

    M.
    Inverno de 1932/33

     

    HeideggerNem a guerra ou distância impediu a constante troca de cartas entre os dois. O fato é que, de uma forma ou de outra, a condição de judia jamais impediu que Hannah se afastasse tanto do pensamento quanto da figura de Heidegger. Pela ocasião do lançamento de seu livro, A Condição Humana, Hannah decide agradecer ao filósofo pela contribuição decisiva que teve no seu pensamento, em especial no que diz respeito a esse livro em particular. Relembra rapidamente o antigo romance e menciona que o desejo era o de dedicar a ele a publicação, mas que não poderia, “tal como as coisas se encontram”, provavelmente pela associação do filósofo com o nazismo.

     

    Caro Martin,

    Instruí a editora a enviar-lhe um livro meu. Quanto a isso, gostaria de dizer algumas palavras.

    Você verá que o livro não contém nenhuma dedicatória. Se as coisas entre nós tivessem seguido algum dia os trilhos corretos – tenho em mente entre, portanto nem você nem eu -, então lhe teria perguntado se poderia dedica-lo a você. Ele surgiu imediatamente a partir dos primeiros dias de Freiburg e deve assim quase tudo a você em todos os aspectos. Tal como as coisas se encontram, a dedicatória me parecia impossível. De algum modo, porém, quis lhe dizer o fato nu e cru.

    Tudo de bom!

    28 de Outubro de 1960.

     

    Hannah Arendt e Martin Heidegger: Correspondencia 1925-1975. Relume-Dumará: Rio de Janeiro, 2000. (gentilmente cedido por Vittorio Klostermann GmbH)

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