A volta das que não foram

Para escolher a capa final da edição de setembro da Revista de História, a equipe de iconografia passou por mais de 25 opções. Confira algumas delas e suas contextualizações históricas

Nataraj Trinta

  • Colonos italianos em Caxias do Sul em 1988. Foto: Luis Abreu da Agência O GloboEstou trabalhando na pré-produção de um artigo sobre a influência cultural árabe na culinária ibérica e brasileira. Voltei ao refugo (imagem pesquisada, mas não publicada) da edição nº46, julho de 2009 “Árabes somos nós” para buscar uma foto do início do XX com todos à mesa almoçando, jantando e... Nada! Nenhuma imagem publicada e muito menos no refugo! Muito diferente dos registros de italianos e seus descendentes.

    O material visual de italianos no Brasil e de seus descendentes - tema da nossa edição deste mês - é bastante vasto, o que não significa que nossa missão era fácil. A maioria das imagens pesquisadas remetia, por exemplo, ora ao contexto de trabalho, seja no campo ou na cidade, ora a pessoas à mesa conversando, comendo, enfim: convidando o espectador a fazer parte de uma cena de confraternização.

    Mas não queríamos reforçar esses estereótipos. Até porque, a ideia do dossiê era tratar das muitas Itálias, de uma nação concebida a partir de uma unificação tardia e que compreende mais pluralidades do que costumamos imaginar. Ressaltar imigrações que mesclam características regionais que vão além do sul e do sudeste, deixando marcas não apenas para seus descendentes diretos.

    Assim, a preferência seria por uma capa que mostrasse, antes de uma cena de trabalho ou reivindicação social, os frutos da labuta. Que Evocasse a memória, um diálogo de gerações, o imigrante e seus descendentes, a saudade do lar e a esperança no Novo Mundo.

    Mas, antes de justificar nossa escolha, vejamos as capas que não foram!

     

     

    [À esquerda] Como opção, uma das telas mais conhecidas sobre a temática:  'Os imigrantes', obra de Antonio Rocco , 1910. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo

     

    [À direita] Fotografia, de autoria desconhecida, mostra o retrato da família de Valentina Mocelin de Santa Cataria cedida pelo programa ECIRS 

     

    Na pesquisa da edição, conhecemos dois acervos fabulosos: o Acervo Fotográfico do Programa Ecirs – Elementos Culturais da Imigração Italiana no Nordeste do Rio Grande do Sul, do Instituto Memória Histórica e Cultural da Universidade de Caxias do Sul; e o Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami, também de Caxias do Sul.

    Foi através de uma indicação do programa ECIRS que tomamos conhecimento de um bem tombado como Patrimônio Histórico do Município: o painel "Do itálico berço à nova pátria brasileira" de Aldo Locatelli.Este trabalho fica no prédio da Prefeitura de Caxias do Sul e possui 30 metros de comprimento por 2,8 metros de altura. As imagens de capa-teste foram realizadas com uma imagem sem boa qualidade. As cores do painel são mais vivas e partes significativas do mural foram publicadas no miolo da edição.

     

                

     

    Para finalizar, seguem os diferentes enquadramentos da foto de Dominico Mancuso que escolhemos como capa. A Residência da família Boff de 1904 é, originalmente, um registro em preto e branco e pertence ao Arquivo Municipal João Spadari Adami. Uma cena construída nos mínimos detalhes pelo fotógrafo para expressar o núcleo familiar dos imigrantes e seus modos de vida. Instrumentos de trabalho e frutos da colheita de forma singela e com orgulho.

    Junto com a imagem, o Arquivo nos cedeu clippings de jornais com matérias sobre a foto. Para dar um toque de originalidade, resolvemos colorizar e a inspiração foi uma tela a óleo baseada na imagem de Mancuso pelo artista José A. Bongiovanni Ribeiro, em 1999. O colorido foi realizado no bureau Trio Studio sob a nossa supervisão.

     

              

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