A máscara do ufanismo

Passadas as megamanifestações urbanas, o Rio de Janeiro permanece em um hiato de tensão política e social, no qual o governo aprova cada vez mais medidas para cercear as liberdades individuais, numa tentativa de impedir novos protestos

Bruno Garcia

  • Manifestações no Rio, em junho de 2013Existe certa crença entre nós brasileiros de que tínhamos tudo para sermos felizes e incríveis, mas não somos. A mesma crença que associa natureza, talento e diversidade à maldição eterna do subdesenvolvimento, como se, apesar de uma grandeza evidente, estivéssemos destinados a estragar continuamente nossas oportunidades. Infelizmente, parece que esse tipo de idiota nacional tem sido cada vez mais alimentado. Seja celebrando ou lamentando as ondas de protesto dos últimos meses, acabamos por dar uma ilusão de sentido à revelação mística ufanista e agarrando à bandeira como solução neutra ou consensual contra a imoralidade que nos acompanha.

    Já existe um burburinho de que desperdiçamos nossas ultimas oportunidades. O senhor Joseph Blatter, presidente da FIFA, tão logo acabou a Copa das Confederações, resolveu dizer que talvez abrigar uma copa no Brasil não tenha a melhor decisão.  Depois de vaias, quebra-quebras e (sejamos sinceros) comparações do preço inicial dos estádios com o prejuízo final, a construção entregue, não é grande surpresa que o sentimento seja de frustração – para todos (seria a decepção nossa vocação nacional?). E estamos só começando. O Papa apareceu por aqui, ano que vem temos a Copa e logo em seguida Jogos Olímpicos. Mas hoje ninguém (com exceção do Pelé) seriamente acha que tudo isso irá contribuir para ganhar um trocado ou sequer melhorar a imagem do país lá fora, o que é estranhamente importante para nós.

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    É como se o resto do mundo estivesse caindo em si depois de efusivas capas de revistas celebrando como escapamos do cataclisma econômico que varreu o resto do mundo depois da crise de 2008. No fim das contas, não estamos tão bem assim, e por mais que isso doa a alguns dos mais entusiasmados ufanistas, talvez não tenha sido boa ideia fazer com que os holofotes estivessem voltados para cá.

    O oposto desse tipo de brasileiro-com-muito-orgulho-e-muito-amor é o apaixonado pela própria mobilização popular, que acha que, embora tenha demorado, finalmente temos a chance de quebrar nossa maldição. Daí marcharem com um enorme sorriso mensagens do  tipo o gigante acordou. Felizmente esse tipo de entusiasmo tem sido gradativamente substituído pela perplexidade do contato frequente com a polícia em cada um desses protestos. Com a surpresa de que a despeito das denuncias e histórias que se repetem sobre a incrível truculência com que a policia age todos os dias, decidem gravar e expor o que todos, silenciosamente, sempre soubemos na esperança de que possa fazer alguma diferença, mesmo que seus vídeos ou enfrentamentos sejam seguidamente ignorados pela grande mídia.

    O roteiro dos protestos passou a ser um só: manifestantes se colocam na frente a frente com a tropa de choque, esperando que façam exatamente o que tem se repetido. Como em uma batalha medieval, enfileiram-se diante das câmeras a espera do primeiro ataque, mesmo que ele signifique a fuga, não o confronto.  Ele sempre vem.  Aconteça o que acontecer, veremos bombas jogadas para todos os lados, balas de borracha e o mesmo discurso de trata-se de coibir uns poucos vândalos em meio a um protesto tão bonito. No dia seguinte vermos nos jornais a reprodução da versão oficial e o nosso silêncio cínico consentido de que deve ter sido isso mesmo, quase lamentando o fato de um movimento tão necessário estar contaminado por essas figuras violentas.

    Governador do Rio, Sérgio CabralDe mãos dadas, esses dois tipos de ufanistas afundaram na mesmice das soluções moralistas. Passado o furor popular das mobilizações, já não ouvimos suas vozes tão raivosas e eloquentes. Depois que tudo esfriou, o estado do Rio de Janeiro resolveu tomar providências. No que diz respeito ao transporte público, decidiu que a futura estação na Gávea não será mais em dois níveis, o que dificulta – leia-se: deixa caro – uma linha alternativa entre a nova estação e Botafogo. O governador também investiu em publicidade tentando se defender e lembrar a todos do quanto devemos a ele. Trata-se de cerca de R$ 27,9 milhões investidos para desmentir o que a realidade do dia a dia melancolicamente confirma. Nada estranho para alguém que já gastou quase R$ 1 bilhão em agências de publicidade.  Porém, nada é tão importante para o governo do estado do que dificultar ao máximo a continuidade dos protestos.  Para isso, foi criada a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas, que institucionaliza o monitoramento absoluto das comunicações dos suspeitos. O texto não deixa dúvidas: todos os órgãos do estado devem garantir “prioridade absoluta” para as demandas da comissão.

    Para os que criticavam o governador Sérgio Cabral pela inércia, deve ter sido uma surpresa ver a máquina do estado tão ativa. Infelizmente todo o esforço não foi suficiente para varrer completamente a rua de manifestantes. A última cartada veio com a proibição das máscaras em manifestações, a despeito da gritante ilegalidade. Afinal, vândalos ou mascarados, mais do que preencherem o imaginário fanático que a grande imprensa proclama do alto dos seus helicópteros em mais um indicio da imperícia de sua falsa objetividade, serviram como símbolos para simplificar e demonizar os últimos que restam nas ruas, depois que os conscientes temporários partiram pro Rock in Rio. Aos poucos só ouvimos o incomodo barulho de bombas, sem nos importarmos na cabeça de quem está caindo, e o assunto deixando de ser a mobilização, para passar a ser o desconforto dos que moram perto de onde a polícia defende o Estado contra essa minoria juvenil. Nada por acaso. Ali está a base de apoio para que essa estrutura permaneça funcionando dessa forma.

     

    Estado versus Direitos Humanos

    A contribuição brasileira para os direitos humanos pode ser sintetizada pelo adágio protofascista bandido bom é bandido morto, pronunciado por criaturas brilhantes o suficiente para acharem isso um grande trocadilho. Seu auge (pelo menos no Rio de Janeiro) talvez tenha sido durante a saga da pacificação do Complexo do Alemão, quando isso mais do que puro discurso se tornou parte uma demanda deliberada da classe média carioca e parte oportunismo político. Quem não se lembra da cena de traficantes cruzando de um morro para outro tentando escapar do estado que tomava o Complexo? Ao vivo, cariocas puderam assistir desejosos de terem, cada um em sua casa, uma pistola, como a de um vídeo game, para que pudessem atirar naquelas figuras toscas, sem camisa e escorregando enquanto tentavam fugir. É um mistério que não tenha sido inventado nenhum jogo online, ou algo do gênero, onde possamos, nem que virtualmente, nos vingar.

    Falando assim parece exagero, mas, naquele instante, o traficante era nossa alteridade radical, isso é, um tipo que nega nossa existência enquanto sociedade pelo simples fato de existir, um problema cuja única solução é o desaparecimento. Não há nenhuma grande novidade. Como lembra o filósofo esloveno Slavoj Zizek, todas as vezes que uma hegemonia (nós) é fabricada, ela cria necessariamente um outro (eles). Nossa ética multiculturalista contemporânea dá a impressão de que, diferente dos nossos antepassados, somos muito tolerantes e abertos às diferenças. Até que o outro assuma de fato sua alcunha radical de alteridade. A partir desse ponto, a única saída é seu desaparecimento. A Revolução Iraniana, de 1979, durante muito tempo se gabou do seu caráter humano, alegando a inexistência de qualquer execução. Não era puro cinismo, apenas uma constatação silenciosa sobre o fato dos  mortos serem todos criminosos. Não é muito diferente da incoerência entre o discurso norte americano de defesa incondicional dos direitos humanos e a existência de Guantánamo. Em outras palavras: sim aos direitos humanos, sim à tolerância, mas se o outro se tornar – de fato – Outro, seja o suspeito de terrorismo, o anti-revolucionário,  fica difícil dizer que aceitamos.

    Nosso outro radical, pelo menos no Rio de Janeiro, foi encarnado pelo traficante, responsável por um crime organizado que durante décadas pareceu uma praga perpétua. Até que o Estado se armou e o expulsou. Não porque criou modelos de inclusão social que finalmente venceram as estruturas do tráfico; não porque desmobilizou suas diversas células de operação, prendendo lideranças e impedindo sua continuidade; mas porque deslocou seus membros locais para fora de um cordão sanitário que impedisse o bom funcionamento do corredor que pretende receber atenção internacional.

    Durante esses anos que passaram, os cariocas puderam inclusive ter narrada nas telas de cinema sua saga contra esse mal erradicado, celebrando a idolatria controversa do BOPE. Diante desse quadro, a surpresa não é que o estado consiga, hoje, montar uma estrutura militarizada sem grande resistência, mas como foi possível que os protestos tenham durado tanto. O fato é que governador, deputados, vereadores e prefeitos sabem exatamente para qual público estão falando. Conhecem tão bem seus eleitores e as demandas organizadas por uma moralização que supõe ordem, que podem aprovar medidas que só encontram paralelo em estados autoritários. Não surpreende que agora os fanfarrões que dançavam de cara pintada em junho sejam os mesmos que hoje fecham os olhos para uma tropa de choque que persegue de moto manifestantes e reprimam os únicos que seguem nas ruas protestando.

     

    Globo transmite ao vivo fuga de traficantes da Vila Cruzeiro, em 2010

    Prognóstico

    Anselm Jappe, filósofo alemão radicado em Paris, escreveu na Revista Lignes contra o estado francês que tratara justamente os levantes nos subúrbios parisienses como um problema policial, lembrando que “por trás da retórica sobre o estado e seu papel civilizador, há sempre, em última análise, alguém que esmaga a cabeça de outro ser humano”. O intuito é lembrar que o estado democrático moderno opera com instrumentos de controle e monitoramento muito mais amplos e funcionais do que os regimes totalitários do século XX, e faz uso dele. Anselm diz que não se trata de uma perversidade momentânea, mas de algo inscrito na própria formatação do estado.

    Como já foi defendido aqui, desde Aristóteles, o Estado só funcionou para o bem da população quando foi confrontado. Sua função primaria não é outra senão sua própria sobrevivência. Hobbes defendeu o Estado Absolutista no século XVII como garantia de uma segurança necessária contra o esfacelamento da Europa, e de suas populações, diante das guerras religiosas. E, como lembra o historiador alemão Reinhart Koselleck, de um espaço privado, apartado de uma politica dominada pelo leviatã, se montou o assalto iluminista ao absolutismo e o futuro estabelecimento de valores que hoje proclamamos como óbvios. Hoje o Estado se vê no direito de ocupar precisamente esse foro privado. Em alguns lugares do mundo encontra-se relativa resistência e Anselm denuncia na França o apagamento das fronteiras entre terrorismo, violência coletiva e sabotagem. Todas as formas de contestação são igualmente chamadas de terrorismo e os jornalistas que levantam vozes dissonantes são acusados de delito de opinião.

    Ora, aqui os jornalistas parecem avessos a cometerem esse tipo de violação e a sociedade não parece muito incomodada com os avanços do estado sobre o espaço privado. Pelo contrário, a classe média carioca abraça com afeto incondicional a militarização do Estado e o tratamento de questões sociais primordiais como problemas de polícia. O Estado, por outro lado, tem todo interesse em perpetuar uma imagem de insegurança que cria a demanda de sua proteção. Está montado o circo que permite que manifestantes sejam chamados de vândalos, que a violência seja tratada somente quando age contra o Estado e que os que protestam sejam obrigados a estarem cada vez mais expostos e identificáveis.

    Vale lembrar, especialmente aos ufanistas eufóricos que tiram foto com carro do BOPE, que alguns heróis da história nacional que hoje são feriados ou nomes de rua, como Tiradentes ou Zumbi dos Palmares, foram perseguidos, presos, executados e martirizados como homens que tinham razão contra o Estado de sua época. Quão paradoxal é nos chamarmos de democratas tolerantes enquanto o espaço para se movimentar longe dos tentáculos estatais sejam cada vez menores?

    Antes que digam que tudo foi em vão, já que em ganhos substanciais o cancelamento do aumento das passagens foi insignificante perto do que foi cobrado nas ruas, tudo isso parece ter servido para deixar nua a retórica defensiva do Estado que, como Anselm lembra, em tempos de crise, “se transforma de novo no que foi historicamente em seus primórdios: um bando armado”. Se no final das contas o que os cariocas querem é aplaudir esse bando, não é por ignorância ou inconsciência. Faltam médicos, escolas, professores, e todo tipo de infraestrutura mínima, mas nunca faltarão bombas de gás lacrimogênio (cada uma a R$ 800) nem publicitários criativos o suficiente para criarem a imagem de um governo fictício.  E, se no final de tudo, o resultado for a radicalização desse Estado policial, não haverá ninguém para pedir desculpa, estarão somente cumprindo ordens.

     

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