A caveira está solta

Temido e admirado, o Esquadrão da Morte marcou a história da polícia brasileira e deixou um legado de violência até hoje sentido no país. 'Especial' traz panorama sobre o grupo de extermínio e seus desdobramentos na história do Brasil

Alexandre Leitão

  • “Justiceiros são chamados por eles mesmos
    Matam humilham e dão tiros a esmo
    E a polícia não demonstra sequer vontade
    De resolver ou apurar a verdade
    Pois simplesmente é conveniente
    E por que ajudariam se eles os julgam delinquentes
    E as ocorrências prosseguem sem problema nenhum
    Continua-se o pânico na Zona Sul.”
    Pânico na Zona Sul – Racionais MC’s

    Na madrugada de 6 de maio de 1968, um sujeito de codinome Rosa Vermelha ligou para redações de vários jornais cariocas, passando um recado macabro: um cadáver não identificado jazia na Estrada da Barra, Zona Oeste do Rio de Janeiro. A informação era estranha e deixou jornalistas desconfiados. Ainda assim, alguns periódicos mandaram representantes para apurar a possível notícia. Ao chegarem à cena do crime, os repórteres se depararam com um corpo crivado de balas calibre 45: ele tinha as mãos amarradas atrás das costas e um grosso fio de nylon envolvendo seu pescoço. O homem fora colocado na grama de bruços e sobre suas costas havia sido afixado um cartaz, com o desenho de um carro e a inscrição: Eu era ladrão de automóveis. Depois de investigação policial, descobriu-se que o cadáver era Sérgio Almeida Araújo, vulgo Gordinho, bandido que atuava na Zona Sul da cidade. Era apenas o início de uma série de assassinatos que mobilizariam o país por décadas.

    Os crimes foram acompanhados de perto pela imprensa popular: A Última Hora, A Luta Democrática,Notícias Populares e O Dia estamparam em letras garrafais e fotografias sanguinárias as denúncias na primeira página. Após uma semana e dois defuntos, um grupo que assinava como “E.M.” assumiu a autoria dos assassinatos. A intenção do Esquadrão da Morte era se fazer conhecer. Por isso, eliminou Ulisses Padrão, conhecido como “Morcegão”, e envolvido no tráfico de drogas: sobre seu cadáver pendia um cartaz com a imagem de uma caveira. E, depois, um jovem mulato, largado sobre um banco de praça em Bonsucesso. Em seu corpo, uma ameaça: Os próximos serão Flávio Vilar [referência ao assaltante de carros e bancos, Lucio Flávio Vilar Lírio], Nijini Vilar e Fernando C. O. Acusados de participação em roubo de veículo. Ao lado da advertência assinada pelo Esquadrão, um  anúncio: A caveira está solta.

                 

                Especial - Esquadrão da Morte:

    - O Esquadrão cresce

    - Os primeiros grupos de extermínio

    - Vida e morte da Scuderie Le Cocq

    - O Esquadrão no cinema

    - Surge o tráfico de drogas

    - Justiceiros de ontem e de hoje

     

    A ação do grupo temido e, ao mesmo tempo, respeitado foi detalhada em Esquadrão da Morte: um mal necessário?, livro-denúncia escrito pelo jornalista Adriano Barbosa, então editor de Polícia no jornal O Globo, publicado no início dos anos 1970. Conforme o autor mostra, o Esquadrão era mais do que um simples agrupamento de matadores. Diferente de outras organizações semelhantes, como os grupos de extermínio da década de 1990 ou as atuais milícias, seus integrantes se preocupavam em manter uma relação de proximidade com a imprensa: divulgavam o local da “desova” em primeira mão e assumiam a autoria dos crimes. A proximidade - aliada às mensagens de que as vítimas eram, na verdade, bandidos - fez com que o Esquadrão tivesse apoio de setores da sociedade: eram interpretados como uma espécie de justiceiros. Os fundadores do grupo foram retratados em filmes e livros, o que fizeram com que fossem envoltos em uma mitologia que persiste até hoje.

    A Revista de História traz aqui uma série de artigos que recupera a trajetória do Esquadrão da Morte, evidenciando que ohistórico de violência e descontrole institucional junto ao aparato policial do Brasil é de longa data.  Marcado pelo descumprimento da lei, uso excessivo da força e rompimento de qualquer estrutura hierárquica, o descompasso da relação entre Estado, Justiça, polícia e sociedade é mais antigo do que parece.

     

    Saiba mais

    BARBOSA, Adriano. Esquadrão da Morte: Um Mal Necessário?. Rio de Janeiro: Livraria Editora Mandarino Ltda., 1971.

    COSTA, Márcia Regina da. “Rio de Janeiro e São Paulo nos anos 60: a constituição do Esquadrão da Morte”. In: XXII Encontro Anual da ANPOCS, 1998, Caxambú-MG. Anais do XXII Encontro Anual da ANPOCS. Caxambú - MG, 1998.

    VENTURA, Zuenir. Cidade Partida. 7a ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

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